BBM Responde: Por que essa onda de mangás com títulos em inglês?

Não é melhor deixar o nome original?

Ao olhar a página da editora Panini no Facebook nos deparamos com a seguinte mensagem de um consumidor revoltado:

Embora o comentário da pessoa careça de sentido, não são raras as pessoas que pensam ser melhor deixar o nome original ou, então, traduzir direto para o português em vez de usar o nome em inglês. Já comentamos sobre essa questão aqui no blog, mas vale uma nova postagem para clarear novamente o assunto:

  • Por que as editoras não lançam mangás com o título em português ou japonês em vez de usar o nome em inglês?

Antes de mais nada é preciso entender que mangá e livro em geral é um produto comercial. Ele é feito pelas editoras nacionais com o objetivo de ser vendido, gerando lucro para elas, de modo que elas possam continuar a trazer outras obras. Idealmente, como toda empresa, as editoras buscarão sempre realizar toda e qualquer ação que resulte em mais vendas e, consequentemente, mais dinheiro em caixa. E quando digo toda e qualquer ação é toda e qualquer ação mesmo. Vejam abaixo a capa do livro A casa da Praia, de Beth Reekles, a ser lançado no mês de outubro:

A obra é uma continuação de A barraca do beijo, livro de romance adolescente que ganhou uma adaptação em filme na Netflix. O livro foi um sucesso e a empresa não deixou de aproveitar isso para fazer propaganda da nova obra. Ela colocou o nome dos protagonistas em cima do título e ainda destacou o nome “A barraca do beijo”, tudo feito propositalmente para chamar a atenção das pessoas e fazer elas comprarem um exemplar. Visualmente ficou horrível, mas comercialmente falando não dá para achar uma decisão errada, afinal a obra precisa se destacar nas livrarias para vender.

Dificilmente veríamos algo assim nas capas de nossos quadrinhos japoneses. O máximo que encontramos é um “do mesmo autor de”, geralmente discreto. Mas o próprio título de uma obra ainda pode ser um chamariz interessante e isso vale tanto para mangás, quanto para livros e filmes, por isso é sempre necessário pensar em algo que fique no imaginário e desperte interesse na pessoa em querer aquele produto.

Pensando desse modo, em um mundo ideal toda editora de mangás pensa o título de suas obras se baseando no potencial de vendas, no quão chamativo é aquele nome. Só que o mundo ideal não existe e as editoras não têm a mesma liberdade das empresas que decidem os títulos de filmes, por exemplo.

Assim, respondendo a pergunta, existem duas respostas possíveis sobre o porquê de as editoras não deixarem os títulos em japonês ou não traduzirem diretamente para o português: 1) Por que não podem; 2) Por que não querem. Vamos analisar detidamente essas duas respostas para que você possa entender melhor.

1) Por que não podem: A escolha de um título passa por aprovação por parte do Japão e, algumas vezes, as editoras locais não têm liberdade de decidir um nome para utilizar, tendo que seguir uma sugestão ou imposição dada pelos japoneses, geralmente o título internacional da obra que costuma ser um nome em inglês.

Desse modo, se um mangá em nosso país teve o título nesse idioma (e o nome original é em japonês) pode ter sido um decisão por parte da licenciante, e a empresa brasileira teve que acatar. Assim não existe nenhuma razão para criticar as empresas nacionais.

Importante frisar que isso não é algo exclusivo do Brasil, ocorrendo em todos os países e todas as editoras estão sempre publicando obras com o título em inglês. Vejam a capa de The Ancient Magus Bride em três países não-anglófonos:

Vale dizer ainda que não é apenas com títulos internacionais que as editoras japonesas possuem exigências. Elas podem sugerir alterações das mais diversas possíveis. Na Argentina, a editora Ivrea teve que mudar o nome do mangá Inubu, que se chamaria Vida de Perros no país, para La vida con Perros, por uma imposição maluca dos japoneses. Segundo a Ivrea foi dito a eles que o título da obra deveria fazer alguma espécie de referência aos humanos protagonistas. Quem vai entender essas decisões?

2) Por que não querem: Se a editora tem liberdade de escolher qualquer nome, ela não escolherá qualquer nome^^. A partir do momento que tem opção, a empresa idealmente decidirá o título que ela achar o mais comercial e atrativo possível como falamos anteriormente.

Obviamente mangás precisam ser vendidos e, para isso, é necessário que se desperte o desejo de o consumidor adquirir esse produto e na falta de uma propaganda mais agressiva, a capa e o título da obra são as melhores portas de entrada.

Assim, muitas vezes não faz o menor sentido deixar o nome em japonês. A pessoa que conhece a obra pelo anime ou pelos scans da vida, já sabe de sua existência e reconhecerá o mangá facilmente pela capa, mas a editora precisa tentar vender também para quem nem sabia que aquele mangá existia e o título pode ter essa função.

Pense bem: o que quer dizer Kimi no nawa.Shigatsu Wa Kimi no Uso, Hataraku Saibou? A maioria das pessoas não tem a menor ideia, são só palavras vazias, que não despertariam qualquer interesse em um desavisado que estivesse dando uma olhada nos lançamentos das bancas ou livrarias. Your Name., Your Lie In April e Cells at Work, embora nem todo mundo fale inglês, são nomes mais acessíveis e que dão uma ideia melhor do que é a obra.

Então, se a editora escolheu usar o nome em inglês foi porque ela achou que aquele nome era mais comercial e chamativo do que o nome em japonês ou em português (será que “Seu nome” ou “A sua mentira em abril” seriam mais comerciais do que o título em inglês?). A gente pode questionar se a escolha foi adequada ou não, mas o questionamento deve ser feito sobre essa questão comercial de se vender para quem não conhece e não em relação a preferências pessoais.

  • Como saber se a editora usou o título internacional por imposição japonesa ou se foi escolha própria?

Não há como saber isso, a menos que a editora revele. A gente pode suspeitar que foi uma imposição se um dado mangá teve o título internacional em todos (ou na maioria) dos países do mundo, porém nunca se poderá ter uma certeza absoluta disso, pois muitas vezes o título internacional é o mais chamativo e comercial.

Por outro lado, se o mangá teve o nome traduzido para o idioma local na maioria dos países e por aqui ficou com o título em inglês, podemos suspeitar que a escolha foi da editora brasileira. Mas, como dito, isso são só suspeitas, certeza mesmo apenas se a editora brasileira comentar, pois os japoneses podem ter exigências diferentes de acordo com o país.

***

As informações desta postagem foram obtidas por meio de falas de editoras brasileiras, argentinas e italianas que mais de uma vez comentaram o assunto em palestras que foram gravadas e/ou transmitidas via internet. No Youtube se você procurar por palestras das editoras nacionais poderá encontrar alguma em que o assunto é mencionado.


Esta foi uma postagem da nossa coluna BBM Responde, uma série voltada para responder perguntas que encontramos nas redes sociais, em comentários do blog, etc. A ideia é responder perguntas bem simples, mas que mesmo assim muitos leitores e colecionadores tenham dúvidas.
Igualmente a coluna tem como objetivo ajudar aquele novo leitor de mangá a navegar pelo nosso mundo que às vezes pode ser muito exclusivo. Aproveitamos e convidamos também nossos leitores mais antigos a dividir suas dicas e experiências. Além disso sintam-se livres para usar esse espaço como um FAQ e perguntar qualquer coisa que poderemos responder futuramente.

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12 comentários

  1. Só acho lamentável o caso de GUNNM, que a JBC publicou inicialmente com o nome original mas que agora, no relançamento, teve que adotar o nome imposto pelo mercado Battle Angel Alita, ainda mais com a proximidade do filme chegando. Ok, muda o título para o inglês. Mas daí a mudar também o nome da personagem de Gally para Alita não se justifica. Como o professor Oku de Pokémon, que em inglês virou Oak, e no português, traduziram para Carvalho.

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  2. Não vejo problema algum no título em inglês ou português desde que seja traduzido e não dê spoilers da obra como em alguns casos de filmes e não tenha nada a ver com o original, lembrando que independentemente do título seja até mesmo em japonês a sinopse pode influenciar mais embora o título seja o chamariz. Mas muito mais importante pra mim que o título é uma revisão bem feita algo que a New Pop tem uma dificuldade monstruosa pra fazer, uma edição física sem problemas de encadernação algo que a Panini peca constantemente em Lobo Solitário e pecou em Slam Dunk e Naruto Gold também e por fim um formato que não tenha letras minúsculas em que nem mesmo com lupa possa se enxergar algumas frases que não podem ser justificadas pelo formato pocket algo que me fez desistir de comprar GTO da NeW Pop mesmo que eu estivesse ignorando erros básicos de escrita, e que a revisão neste título até o volume 3 que foi até onde li, pecam mas não tanto como comumente vemos.

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  3. Eu costumo não me importar com isso, mas em dois casos (em dois mangás publicados aqui no Brasil pela JBC), não ter lançado o mangá com o título original acabou me ferrando. O primeiro caso foi com Mirai Nikki (lançado aqui como Diário do Futuro); o segundo foi com Nanatsu no Taizai (que está sendo lançado aqui como The Seven Deadly Sins). nos dois casos, quando a ficha caiu, já era tarde demais para colecionar ambos, não dava para achar todos os volumes, nem mesmo pela internet.

    Isso me deixou muito frustrado, porque eram dois mangás que eu queria ter colecionado, principalmente Nanatsu no Taizai (cujo título em inglês eu realmente não conhecia). Por isso agora tenho prestado atenção redobrada nos títulos que os mangás recebem quando são lançados por aqui…

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    1. Vish, e olha que a JBC é uma editora até certo ponto preocupada em agradar gregos e troianos, em vários mangás ela coloca o nome original como subtítulo ou em algum local visível na capa. Nesses dois mangás que você citou houve isso.
      —–

      No caso de Nanatsu você nunca tinha visto a capa japonesa? Nela mesmo tem escrito o “The Seven Deadly Sins”. Veja na imagem, abaixo do volume 1 tá escrito:

      Aliás, se você prestar a atenção nas capas japonesas, em várias (não tão várias assim, mas várias) delas o nome internacional também está na capa :).

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  4. Ótima matéria como sempre, Kyon!

    Eu particularmente estou do lado que quer tudo em português, nem acho que “Seu Nome” ficaria ruim hahaha Mas temos que reconhecer as dificuldades do mercado, infelizmente.

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  5. “A maioria das pessoas não tem a menor ideia, são só palavras vazias, que não despertariam qualquer interesse em um desavisado que estivesse dando uma olhada nos lançamentos das bancas ou livrarias”. Sou eu, basicamente. Quando vejo título em japonês que não seja algo simples como um Noragami ou Nisekoi, penso logo que é um mangá exótico e pulo.

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