Resenha: O divertido “Thermae Romae”

Uma aventura pela cultura do banho….

A mulher do viajante do tempo (Te amarei para sempre), Kubanakan, Amigas a qualquer horaQuestão de Tempo, De volta para o futuro, Lúcifer e o Martelo, O feitiço do tempo, O homem do futuro, Quando nos conhecemos, Your Name., Orange, All You Need Is Kill, Re: Zero, Steins; Gate, etc.

Poderíamos passar o dia listando nomes e mais nomes de obras que se utilizam de algum elemento que envolva viagem no tempo e similares. Provavelmente todas as mídias e todos os gêneros de histórias já devem ter se utilizado desse expediente alguma vez na vida, uns de forma brilhante, outros nem tanto.

A postagem de hoje fala de mais uma obra que fez uso de viagem no tempo para contar uma história das mais inusitadas, falamos de Thermae Romae, mangá de comédia escrito e desenhado por Mari Yamazaki que une a cultura do banho de dois povos distintos por meio de uma viagem no tempo.

A obra teve seus capítulos publicados entre 2008 e 2012 na revista seinen Comic Beam, da editora Enterbrain, sendo compilado em um total de 6 volumes. No Japão, Thermae Romae ainda foi adaptado em um animê curtinho, em dois live actions, além de ter “estrelado” comerciais dos mais variados possíveis. O título também conquistou o  3º Manga Taishō and the Short Story Award e o 14º prêmio Osamu Tezuka Cultural, um currículo impressionante para uma obra que não é considerada muito popular fora do oriente.

Apesar de pouco famoso, o mangá foi licenciado em quase todos os grandes mercados de mangás do ocidente. Na Itália saiu entre outubro de 2011 e janeiro de 2014 pela editora Star Comis; na Espanha o título foi publicado entre abril de 2013 e outubro de 2014 pela editora Norma; nos Estados Unidos o título foi publicado pela Yen Press entre novembro de 2012 e fevereiro de 2014 em uma edição big, unindo dois volumes em um só.

Mas foi na França que o título foi um sucesso ganhando mais de uma edição. Inicialmente foi lançado entre março de 2012 e outubro de 2013 pela editora Casterman, em um total de 6 volumes. Logo em novembro de 2013, a Casterman relançou a obra em formato deluxe e unindo dois tomos em um, completando essa segunda edição em 3 volumes no mês de outubro de 2014. Em julho de 2014, porém, uma terceira edição da obra começou a ser publicada no pais, também em um formato 2 em 1, mas pelo France Loisirs, um clube do livro francês. Essa edição foi concluída em agosto de 2014.

No Brasil, o mangá foi publicado entre 2013 e 2014 pela editora JBC. Mas o que tem de tão especial nesse título para receber diversos prêmios no Japão e ser publicado 3 vezes na França? Vamos falar um pouco sobre isso no texto de hoje.

  • Sinopse

Lucius, um arquiteto de casas de banho da Roma antiga, está tendo problemas de criatividade em seu trabalho. O jeito que o destino dá para resolver isso? Uma viagem surreal para o Japão nos dias de hoje, que mostra um novo mundo para o romano.

  • História e desenvolvimento

A sinopse de Thermae Romae diz muito pouco sobre o que é o mangá, mostrando apenas e tão somente a premissa inicial. A obra une dois mundos completamente distintos (O Japão Moderno e a Roma Antiga) por meio da cultura do banho, elo em comum entre os dois povos. Nela, Lucius (Lê-se Lukius) é um arquiteto de casas de banho romanas, mas ele não faz sucesso por aquelas paragens, sendo considerado antiquado. Certo dia, porém, ele acaba mergulhando na água de uma dessas casas e vai parar no Japão moderno. A partir daí, sem que ele tenha controle, Lucius acaba indo e voltando e termina por usar seus conhecimentos desse novo mundo para criar casas banho romanas, o que faz ficar famoso e muito requisitado.

Embora essa premissa não pareça lá tão atrativa assim, a verdade é que Thermae Romae é uma obra muito interessante e que cativa por seu estilo de humor, mostrando as diferenças entre as culturas e o choque que Lucius e os outros personagens têm ao se depararem com um lugar (pessoa ou situação) diferente.

O início da história é bem simples e o primeiro choque de Lucius é quando se vê cercado por um povo diferente que ele chama de “caras achatadas”. Obviamente, uma viagem no tempo jamais estaria nos planos ou na mente do arquiteto e ele tenta encontrar uma explicação lógica e acha que aquelas pessoas são escravos em uma casa de banho próxima, porém a “tecnologia” dos japoneses é extremamente avançada e ele se sente humilhado como romano (outro ponto de choque e que gera um leve sorriso no rosto ao vermos as expressões do homem). Em vários momentos ele não consegue entender como um povo avançado como o Romano não tinha conseguido as inovações dos caras achatadas.

Uma das expressões de Lucius. Dessa vez, ele sendo “atacado” por um vaso sanitário.

Que tipo de inovações? Inovações referentes às casas de banho. No Japão é muito comum (ou foi muito comum) que as pessoas se reúnam, vez ou outra, em certos estabelecimentos específicos para tomar banho (aqueles banhos ao ar livre que aparecem em obras como Love Hina, por exemplo) e essa era uma prática normal na Roma antiga também. Por estar quase 2000 anos à frente, obviamente o Japão moderno teria muitas coisas nunca pensadas na antiguidade e isso gera diversas reações no arquiteto.

Assim, em um capítulo Lucius descobre que uma casa de banho japonesa é enfeitada com uma imagem do monte Fuji (que ele acha ser o Vesúvio) e que os clientes recebem uma garrafinha de leite fermentado com sabor; em outros ele descobre uma casa de banho ao ar livre, uma banheira caseira e, até mesmo, sistema de limpeza do corpo, entre diversas outras coisas. O arquiteto, então, sempre que volta à Roma – também de forma completamente aleatória – implementa o que viu no Japão e ganha notoriedade sendo chamado até mesmo pelo Imperador para construir casas de banho. De antiquado a inovador^^.

O esquema dos capítulos dos três primeiros volumes é exatamente esse, bem repetitivo. Lucius tem um desafio de construir uma nova casa de banho, fica sem ideias, e acaba sendo submerso em uma água do nada e parando no Japão. Com sua visita ele aprende sobre os costumes japoneses, volta para Roma também misteriosamente e implementa o que aprendeu. Em todo capítulo (ou conjunto de no máximo dois capítulos) é assim. E não fica chato. Você se diverte com a arrogância de Lucius como romano sendo desfeita pela tecnologia japonesa e com as caras e expressões exageradas do personagem quando ele descobre coisas novas (como os vasos sanitários japoneses ou as saborosas comidas nipônicas), sem contar as tentativas frustradas do arquiteto de entender o que os “caras achatadas” estão dizendo.

Mas, talvez, nenhum capítulo ganha em humor quanto o primeiro do segundo volume. Nesse capítulo, Lucius não está preocupado em fazer uma nova casa de banho. Pelo contrário, o que ele deseja é recuperar sua esposa que o abandonou por ele não conseguir engravidá-la (e por ficar três anos afastado dela com o Imperador Romano construindo casas de banho). Buscando sanar seus problemas de ereção, Lucius acaba indo parar no Japão moderno em pleno festival de fertilidade, em que um enorme falo é carregado pelo povo.

Sentido-se ultrajado pelo povo, Lucius não tem tempo de esbravejar, pois uma moça sobe no enorme falo deixando-o sem entender nada, e ele – Lucius – acaba sendo logo em seguida agarrado por diversas mulheres que o confundiram com um deus da fertilidade^^.

Moça japonesa no festival da fertilidade

O que faz Thermae Romae ficar interessante é que, por mais que a estrutura seja repetitiva, as situações são diferentes e todas elas carregadas de um humor interessante. Você não vai gargalhar em todos os momentos, mas sempre terá aquele  sorriso no rosto com a vida e as reações do arquiteto das casas de banho.

Entretanto, sem dúvida, o que mais chama a atenção no mangá é o quanto a cultura do banho é aclamada. Para Lucius e os demais personagens tudo pode ser resolvido com um bom banho de imersão, podendo converter até mesmo bandidos, conspiradores e pessoas exaltadas. Embora seja um tanto quanto simplória essa ideia, dentro do contexto do mangá ela faz todo o sentido e sequer chegamos a achar estranho que tudo possa ser resolvido com água.

Apesar de a narrativa ser episódica nesses volumes iniciais, ela apresenta uma continuidade histórica. Um capítulo se passa em um certo ano em Roma, outro se passa no ano seguinte e assim vai indo, conforme a fama de Lucius vai aumentando.

Os volumes finais, entretanto, mudam a temática. A partir do quarto tomo, a história deixa de se centrar nessa relação de viagem no tempo entre Roma e Japão e passa a se focar só no Japão. Lucius acaba por ficar preso mais tempo do que nas outras vezes e, por mais que tente, não consegue voltar ao seu mundo original.

Aqui o tom de comédia permanece, mas surge um novo elemento na história, o amor. O amor de uma égua por um humano (^^) e o amor de um romano por uma cara achatada. Lucius conhece Diana (Satsuki, na verdade), uma cara achatada que é aficionada pela história romana e que sabe falar latim, podendo se comunicar com ele.

Lucius perguntando a Satsuki sobre o funcionamento de uma televisão.

Como a obra fica por capítulos e mais capítulos no Japão, ela segue uma pequena trama no país envolvendo uma espécie de máfia que deseja adquirir todas as terras de uma pequena vila e transformar em um Resort de Luxo. Junto a isso, Satsuki ganha relevância, ajudando Lucius e buscando saber se ele é realmente um romano.

Toda essa segunda parte da obra muda a tônica do mangá. Apesar de ainda existir humor, o título ganha um tom mais sério e fica mais pendente para a ação, romance e mistério. A obra não se torna ruim, mas a inconsistência fica inegável e a qualidade geral nessa segunda parte é bem inferior ao início.

A apresentação de Satsuki, por exemplo, foi um dos piores momentos do mangá. A autora simplesmente resolveu desenhar e resumir todo o passado dela de uma só vez, apresentando-a como a pessoa ideal a conhecer a Lucius. Obviamente Satsuki não foi uma personagem pensada inicialmente pela autora, mas o modo como Mari Yamazaki a colocou na trama deixou isso muito evidente, mostrando que a personagem só entrou na trama para ser o par romântico de Lucius e dar um fechamento à obra. Não precisava.

Outro ponto é o final. Não o capítulo final, mas as últimas páginas dele. Extremamente corrido. Em uma página, Satsuki está grávida, na outra ela tem o filho e na seguinte o mangá acaba. Exatamente assim, sem tirar nem por. Não chega a ser ofensivo, mas é muito mal feito. Um capítulo com um epílogo seria bem mais atrativo e fecharia a obra bem melhor.

Não entendam mal, o final não estraga a obra. Thermae Romae é um mangá de comédia e que nos trás conhecimento sobre duas culturas, nada disso é jogado fora com as páginas finais da obra. O que criticamos é que podia ter sido melhor desenvolvido e não feito dessa forma. Não podemos ter tudo, né?

Por fim, outro ponto que deve ser mencionado são os paratextos da obra. A cada capítulo a autora detalha diversas coisas sobre a cultura do banho, falando de Roma e do Japão. É um detalhe pequeno, mas enriquece a obra e nos dá um conhecimento extra.

Pelo que falamos aqui fica evidente que Thermae Romae cumpre seu papel de nos divertir, entreter e ainda agregar um conhecimento sobre duas culturas distintas. Não é um mangá narrativamente perfeito, possui diversos deslizes especialmente na segunda parte da obra, mas ainda assim é bom e vale dar uma conferida.

  • Veredicto

Thermae Romae é um mangá que se utiliza do expediente da viagem no tempo para gerar humor, por meio do contraste e da quebra de expectativa entre dois mundos distintos, a Roma Antiga e o Japão Moderno. Enquanto obra de humor, o mangá é brilhante, um dos melhores de seu gênero e, não à toa, ganhou tantos prêmios no Japão e três edições diferentes na França.

É um título que pode ser considerado indispensável para quem deseja conhecer tudo de diferente que pode ser produzido quando se trata de mangá. Ainda assim, talvez não seja um título para todo mundo, afinal por mais que seja um mangá de comédia, seu humor pode não ser tão bem apreciado pelos brasileiros, mas sem dúvida é um título que merece ao menos uma chance.

  • Ficha Técnica

Título: Thermae Romae
Autor: Mari Yamazaki
Tradutor: Drik Sada
EditoraJBC
Dimensões: 13,5 x 20,5 cm
Miolo: Papel Offset
Acabamento: Capa cartonada com orelhas
Classificação indicativa: 16 anos ( vols, 1,3 a 6); 18 anos (vol. 2).
Número de volumes: 6 no total
Preço: R$ 19,90
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7 comentários

  1. Off: Alguém pode me dizer folha de death note black edition?? Não acho essa informação em lugar nenhum! Nem no site da JBC

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    1. Folha? Está falando o tipo de papel? Aqui no blog você pode encontrar essa informação, é só digitar “Death Note” na caixa de pesquisa e uma das primeiras opções será este link abaixo:

      https://bibliotecabrasileirademangas.wordpress.com/portfolio/death-note/

      No caso, o papel utilizado é um papel offwhite importado da Noruega da marca Lux Cream. É o mesmo que a NewPOP usa em GTO e que a JBC usa em Akira, Gits, Blame e alguns outros mangás exclusivos de livrarias.

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