Resenha: Tom Sawyer, de Shin Takahashi

A redenção dos adultos, a redenção de Haru…

É bastante comum na cultura mundial utilizar-se de alguma lenda, história ou obra de ficção para se criar outra baseada nela, seja ela uma adaptação direta, seja uma história totalmente nova. Um caso icônico recente e que tem status de lenda urbana, embora seja real e confessada pela autora em entrevista, é o famigerado Cinquenta tons de cinza que nasceu originalmente como uma fanfic de Crepúsculo.

No Japão, essas inspirações também são frequentes e hoje falaremos de uma delas, do mangá Tom Sawyer, de Shin Takahashi, obra baseada no livro homônimo de Mark Twain. O mangá não é uma adaptação direta do livro, sendo uma história inspirada no clima da obra, com uma aventura e um pequeno mistério, tudo buscando resgatar aquelas nostalgia da juventude.

O mangá teve seus capítulos publicados em 2007 na revista shoujo Melody, da editora Hakusensha, sendo compilado em apenas 1 volume, de quase 400 páginas, lançado por lá em agosto do mesmo ano. No ocidente a obra foi lançada primeiramente na França em janeiro de 2010 sob o título de Le Dernier été de mon enfance (O último verão da minha infância).

No Brasil, a mangá foi publicado no ano de 2014 por meio da editora JBC, em formato físico. Está prometida uma edição digital, mas até o momento ela não viu a luz do dia. Mas o que Tom Sawyer tem de especial? Será mais algum título aleatório e sem sentido ou será uma daquelas surpresas interessantes? Falaremos disso nesta postagem.

  • Sinopse

Inspirado na obra-prima “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain!. Haru, que mora sozinha na capital do Japão, fica sabendo da morte da mãe e regressa à sua terra natal para o funeral. O plano era apenas comparecer aos ritos funerários e logo voltar à Tóquio, mas a gata que morava em sua antiga casa falece na mesma noite… A jovem decide enterrá-la ao lado de sua mãe, mas no caminho até o cemitério esbarra com o menino que não tinha a pele queimada pelo sol, que a chama de “bruxa”! O menino de pele branca, Taro, não duvida que o corpo da gata é para um ritual de bruxaria e decide seguir Haru até o cemitério. É a partir desse momento que os dias do verão da Haru, pouco a pouco, começam a fugir de controle…

  • História e desenvolvimento

A sinopse de Tom Sawyer revela bem como é o início do mangá, mas não é lá muito instigante para possíveis novos consumidores. De fato, ela consegue chamar uma base de leitores que buscam um certo tipo de história, mas talvez fosse mais efetiva se revelasse um certo detalhe da obra que permeia o que se desenvolverá posteriormente, um assassinato.

Haru, uma jovem de uns 20 anos, e Taro, um jovem de cerca de 11 anos, presenciam esse assassinato logo nas primeiras páginas do mangá e o garoto conhece o autor do crime, porém ambos decidem não falar do assunto para ninguém, com medo de represálias.

Como dito, o assassinato permeia a história inteira, porém o mangá não é sobre isso. Na verdade, a obra é uma narrativa feita para ser um tributo à infância e à alegria de ser criança, relembrando em nossa memória o quão boa era essa fase da base, tal Mark Twain, na obra original, desejava passar. Diz este no prefácio do livro original:

O título francês do mangá (O último verão da minha infância) é toda uma alusão à temática da obra. Ao voltar à cidade para o funeral de sua mãe, Haru encontrará Taro e uma série de crianças da região e acabará envolvida por eles em uma aventura de verão, rememorando ou ainda descobrindo o sabor da infância.

Um mangá juvenil que fala sobre a juventude precisa ter uma referência obrigatória ao mais popular mangá juvenil da história.

A história, aliado ao local paradísiaco, retratado em diversas imagens do mangá, faz a obra ter todo um clima de nostalgia de algo não vivido enaltecendo a infância e a juventude, e mostrando o quão maravilhoso e despreocupado é a vida nesta fase, ainda que existam de fato preocupações, mas longe de serem preocupações dos adultos.

Nisso é interessantíssimo ver o contraponto entre as crianças e Haru. Enquanto elas veem o mundo de forma mais divertida, sincera e imaginativa, apresentando-nos ao lado da loucura e da aventura, Haru é aquela adulta normal preocupada com trabalho, prestes a perder o emprego, sem ânimo para a faculdade, etc, e que agora se vê jogada em um mundo que não entende. A jovem acaba até contagiada com as peripécias das crianças, chegando inclusive a fugir de casa (????) junto delas, mas praticamente contra a vontade.

Haru buscando se afirmar como adulta, enquanto dorme com as crianças fugitivas.

A obra é esse intenso confronto entre a vida adulta de Haru e a vida alegre e agitada das crianças, ainda que o assassinato presenciado por Taro e a garota esteja no imaginário deles. Aos poucos, a moça que só voltara para a cidade para o funeral da mãe acaba ficando e tendo mais e mais contato com as crianças, envolvendo-se em aventuras até mesmo perigosas, arriscando em uma viagem arriscada para uma ilha, quase sendo pegos por assassinos, etc.

Um ponto muito importante levantado no mangá e que vale comentar é que as crianças ainda não têm as amarras da sociedade carregadas de preconceitos, possuindo uma aura que consegue enxergar a bondade em pessoas que os adultos costumam manter distância. A mãe de Haru, recém falecida, e o velho Genzo, um mendigo da cidade, são os exemplos disso. Malvistos pelas “pessoas grandes”, as crianças daquela região do interior adoravam a companhia deles. Mesmo a própria Haru acaba sendo uma dessas pessoas malvistas pelos adultos durante boa parte da obra e adoradas pelas crianças.

A história, como não podia deixar de ser, termina de forma convencional, com a verdade esclarecida sobre o assassinato, com os adultos já vendo a moça de uma forma (um pouco) melhor e com todos bem.

No fim, toda a aventura e toda a estadia na cidade acaba por mudar Haru e a antes jovem que não entendia as crianças, passa a ver o mundo de forma diferente e mais divertida, sentindo nostalgia daqueles intensos verões infantis que veem nos livros. Talvez uma boa forma de definir Tom Sawyer seja como a história de redenção de um adulto, a história da redenção de Haru…


VEREDICTO


Tom Sawyer pode parecer um tanto quanto parado, principalmente em seu início, e talvez não seja de agrado de muitos consumidores, porém, se perseverarem, a parte final compensará bastante. A obra não segue o livro homônimo, mas à sua maneira nos apresenta a um mundo bem divertido que faz relembrar a infância e a juventude, por meio da história de aventura de uma mulher adulta com um bando de crianças. Tom Sawyer não é um mangá indispensável ou inesquecível, mas é um título que vale bastante a pena para passar o tempo e se alegrar um pouco.

  • Ficha Técnica

Título: Tom Sawyer
Autor: Shin Takahashi
Tradutor: Edward Kondo
Editora: JBC
Dimensões: 13,5 x 20,5 cm
Miolo: Papel Jornal
Acabamento: Capa cartonada simples, com algumas páginas coloridas
Classificação indicativa: 14 anos
Número de volumes: 1
Páginas: 384
Preço: R$ 23,90
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3 comentários

  1. Já fazem 4 anos que li ele!? Caramba. Já comprei Tom Sawyer para presente mais de uma vez, acho uma obra bem fácil de recomendar; nada incrível, mas sempre deixa uma sensação gostosa após a leitura.

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