Resenha: O aflitivo mangá “Solanin”

Uma música, um tema…

Ler qualquer obra de Inio Asano é pedir para se sentir angustiado. Não é que haja coisas grotescas em seus mangás, e sim porque o autor retrata a humanidade da forma mais infeliz que ele pode pensar, sendo realista ao extremo e nos fazendo refletir sobre a vida e sobre as mazelas que os seres humanos enfrentam, sejam eles resultados ou não de nossas próprias ações. Solanin não foge a essa regra.

O mangá foi publicado entre 2005 e 2006 nas páginas da revista seinen Young Sunday, da editora Shogakukan, tendo seus capítulos compilados em dois volumes. Em 2017, a obra ganhou uma reedição no Japão em volume único, contendo capítulos inéditos. O título aborda o início da vida adulta, as dúvidas e os sonhos desfeitos de alguns jovens, tudo de uma maneira extremamente verossímil e depressiva, mas ao mesmo tempo bela.

No ocidente, a obra foi publicada em diversos países. inicialmente Solanin foi publicado entre 2007 e 2008 na França pela editora Kana. Em 2008 saiu nos Estados Unidos em volume único pela Viz Média. Em seguida saiu na Polônia entre 2009 e 2010 pela Hanami. Na Itália, foi publicado pela Panini em 2010. Na Alemanha saiu pela Tokyopop em 2013. Na Espanha, foi publicado em 2014 pela editora Norma, em um volume único. Recentemente, França e Espanha lançaram uma nova versão do mangá, baseado na reedição japonesa de 2017.

No Brasil, o título foi publicado pela L&PM, em 2011, em um total de dois volumes, chegando a esgotar e ser reimpresso mais de uma vez. Hoje viemos falar um pouco mais sobre essa obra e averiguar o quão bom (ou não) é este título.

  • Sinopse

Perdida no mundo dos adultos, a jovem Meiko decide dar uma virada em sua vida, junto de seu namorado Taneda, e ir atrás de seus sonhos, em busca de liberdade das amarradas da sociedade. Porém, frente ao abismo entre os sonhos e a vida como ela se apresenta, às vezes improvisar é a única saída possívelTendo que enfrentar momentos difíceis, atormentada pela depressão e pela falta de perspectivas profissionais, Meiko ainda precisa subir ao palco para interpretar uma canção muito especial: “Solanin”.

  • História e desenvolvimento

Se você já saiu da escola e entrou no mercado de trabalho provavelmente, em algum momento da sua vida, você já deve ter se sentido perdido no mundo dos adultos, achando os dias sem sentido, não sabendo o que fazer e nem como mudar a sua realidade. Trata-se de um sentimento natural de boa parte dos seres humanos e que, talvez, nunca passe para muitas pessoas.

Solanin é um mangá que toca justamente nessa questão, dissertando sobre temas como felicidade, a busca dos sonhos e a necessidade ou não de se ajustar na sociedade e de ser um membro ativo dela. A obra tem como protagonista Meiko, uma jovem recém saída da universidade e que trabalha em um escritório que lhe dá nos nervos e que vive com seu namorado Taneda, que trabalha como ilustrador e é aspirante a músico. Em comum os dois têm o amor um pelo outro, a infelicidade no trabalho e o desejo de sonhos maiores, embora possam não saber exatamente que sonhos seriam esses.

O pensamento da protagonista…

Além deles, outros três personagens fazem presença, todos eles amigos da época de faculdade dos dois. Para todos os cinco, a vida adulta se mostra inexorável, sem perspectivas ou com decisões difíceis de serem tomadas. No mangá, os desejos e as responsabilidades são colocadas em campos opostos, mas que se mesclam e se misturam. Aceitar ou não aceitar uma promoção para uma unidade em outra cidade e deixar seu namorado por aqui? Investir ou não investir na banda que se tanto sonhou? Abandonar ou não abandonar o emprego? Coisas assim são pensadas, ditas e questionadas ao longo dos dois volumes do mangá.

Taneda tocando e cantando, com Meiko vendo ao fundo…

A obra é aflitiva e nos coloca a pensar sobre coisas que gostaríamos de esquecer. A felicidade, por exemplo, é algo que buscamos o tempo todo, mas o que ela é de verdade? Será um momento específico de nossa existência, ou um apanhado de vários momentos? A obra nos dá as duas possibilidades de escolha e nos mostra que ambos os casos podem estar certos. Vivemos sim muitos momentos felizes e aqueles não-felizes, enfadonhos, servem para coroar os momentos máximos de alegria.

Taneda sendo avisado por um membro de uma gravadora que deveria esquecer essa história de cantar…

A aflitividade do mangá também se mostra por seu realismo cruel, de que as coisas podem não ser do jeito que queremos e que o destino possa intervir da pior forma possível. O marco disso ocorre no final do primeiro volume em que Taneda sai de casa dizendo que voltaria em seguida e nunca mais reaparece. Embora essa simples informação nos faça deduzir o que aconteceu, Inio Asano é cruel demais, nos ilude – como a própria vida muitas vezes nos faz – para então colocar os piores acontecimentos, das piores formas possíveis.  Quando a alegria reina, quando tudo parece ir melhorar, com perspectivas de crescimento, tudo vai por água a baixo, por um simples e mero detalhe.

O segundo volume de Solanin é a continuidade da vida frente à desesperança. Agora sozinha, Meiko terá que se adaptar à sua nova vida com a ajuda dos amigos, tentar superar tudo e crescer. A imagem de Taneda ainda ficará marcada nela para todo o sempre e, ao menos no início de sua nova realidade, ditará um pouco dos seus rumos. Esse tomo é a transição para a vida adulta e as responsabilidades, passando pela realização de um sonho.

Meiko decidirá subir no palco e cantar a última música que Taneda compôs, a música intitulada “Solanin”, que dá nome ao mangá, e quando isso se realiza, as portas do mundo dos adultos novamente se abrem e ela terá que enfrentar a realidade do mercado de trabalho, da falta de seu antigo namorado, de tudo.

Ainda assim, a mensagem chega até a ser positiva, pois se a vida adulta é esse intenso cansaço, essa intensa tristeza, ela também possui suas diversas alegrias. Meiko cantar a música foi uma delas. Os amigos dela se divertirem o tempo todo, por meio de diversos desafios também. Solanin nos mostra a vida, nos mostra as etapas de uma vida, mas não nos dá resposta prontas, ele confronta respostas para que a gente mesmo possa decidir e refletir. O final do mangá não é outra coisa senão o início da vida…

  • Conclusão

Há dois pontos principais que podem ser explorados em Solanin, a questão da dificuldade de adaptação à vida adulta e de não saber que rumos tomar, e a questão de toda a nossa inabilidade perante o mundo, à sociedade. Os dois pontos são importantes e complementares, mas esse segundo é mais incisivo, mais universal, pois nos mostra que momentos ruins existem, acontecem quando menos esperamos e não podemos fazer outra coisa senão aceitar e, também, chorar sempre que for possível. A vida é um emaranhado de coisas aleatórias e temos que ir nos adaptando e encarando ela da melhor maneira possível. Ser adulto, no fim, é isso, não é?

Solanin está muito longe de ser um mangá para todo mundo. Ele é parado, não tem lutas, não tem uma história de amor e te deixa para baixo. Ele é um mangá odioso que te pega pela camisa e te dá tapas na cara quando você menos espera. E isso é o que faz ele ser bom, mas nem todo mundo consegue enxergar a grandiosidade disso. Com uma narrativa simples, ele nos questiona sobre o segredo da vida e o que seria verdadeiramente a felicidade. Não é mesmo um mangá para todo mundo, mas talvez devesse ser para todo mundo^^.

  • Ficha Técnica

TítuloSolanin
Autor: Inio Asano
Tradutor: Drik Sada
EditoraL&PM
Número de volumes lançados no Japão: 2
Número de volumes lançados no Brasil: 2
Preço: R$ 21,90
Dimensões: 10,5 x 17,5 cm
Acabamento: Capa cartonada simples com miolo em offset.

3 comentários

  1. Solanin é uma obra maravilhosa de Inio Asano, minha preferida dele, uma pena que essa versão da L&PM esgotou em todo o lugar, quem quiser comprar e souber inglês recomendo a versão da Viz, tem um acabamento muito bom.

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