Resenha: “Overlord” – Livro 1 (Light Novel)

Preso em outro mundo

Nos últimos anos se tornou comum vermos obras e mais obras em que um personagem ou grupo de personagens acaba em outro mundo. Não que isso seja algo novo, mas nos últimos tempos esse tipo de história ficou bem mais comum de ser visto das mais diversas formas possíveis. Em Sword Art Online, por exemplo, um grupo de pessoas acaba presa em um jogo de realidade virtual; em Re: Zero o protagonista vai parar do nada em uma sociedade aparentemente medieval em que está ocorrendo o processo de sucessão real; em Konosuba! o protagonista morre e ganha a chance de ir para um mundo alternativo em que se derrotasse o Rei-Demônio poderia ter um desejo atendido; Em Hataraku Mao-sama!, o Rei-Demônio é derrotado e acaba vindo parar na terra onde se torna um atendente do Mc Donalds; em Crônicas de Guerra: Tanya the Evil, o protagonista morre e deus o faz renascer como um menininha; Já em In another world with my smartphone o protagonista é morto por deus acidentalmente e ganha dele a chance de viver em outro mundo tendo muitos poderes.

Só esses exemplos já mostram bem a variedade de histórias com esse tema. Mas outra obra desse gênero que não pode ficar de fora é Overlord, que será o foco da nossa análise de hoje. Possuindo atualmente três temporadas em animê, todas elas disponíveis na Crunchyroll, a obra segue o protagonista Momonga, que decide ficar dentro de um jogo até o último instante, no dia em que os servidores seriam desligados. Porém algo acontece e quando tudo deveria deixar de existir, o mundo do jogo se transforma e todos os NPCs (personagens não jogáveis) tornam-se seres vivos e agora Momonga está preso nesse novo mundo.

Capa do primeiro volume da edição brasileira. Foto: Editora JBC

Como boa parte das obras atuais que se utilizam desse lugar comum de ir parar em uma outra realidade, Overlord nasceu como uma série de light novels, aqueles livros japoneses com ilustrações.

De autoria de Kugane Maruyama, inicialmente a obra começou a sair diretamente para a internet em 2010, ganhando versão impressa pela editora Enterbrain em 2012 e contando com desenhos de um artista conhecido como so-bin. Atualmente possui 13 volumes e ainda está em andamento. Com o sucesso da animação, a obra tornou-se requisitada em vários pontos do globo e agora é a vez dela sair por aqui.

No Brasil, a light novel foi anunciada pela editora JBC em meados de 2018, durante um evento realizado na cidade de São Paulo. A empresa deixou claro que a publicação ocorreria tanto em formato impresso, quanto em formato digital, tornando-se assim a primeira light novel a ser publicada em ebook no país. A obra foi lançada agora em abril em formato digital (a versão impressa sairá em junho), lemos o primeiro volume e viemos falar nossas impressões sobre a obra.

  • Sinopse Oficial

Era o último dia do jogo online “Yggdrazil”. Momonga, jogador assíduo com um personagem de aparência esquelética, esperava calmamente o servidor de seu tão amado jogo ser encerrado. Porém, mesmo depois do tempo estipulado, ele não foi deslogado. Ao olhar ao redor, NPCs começaram a agir e pensar por conta própria, e a guilda parecia ter sido enviada para uma outra realidade… Para tentar desvendar esse mistério, Momonga decide se tornar o maior feiticeiro nesse novo mundo e começa a espalhar a lenda da Guilda Ainz Ooal Gown!

  • História e desenvolvimento

Você já passou pela experiência de perder uma diversão que gostava muito? Um parque que foi demolido para a construção de um prédio, uma loja que foi fechada por falência, um terreno baldio que foi ocupado, ou mesmo um jogo que teve os servidores desativados? Overlord começa justamente com uma história de perda dessas.

Em 2138, doze anos após ser lançado, um jogo de realidade virtual terá seus servidores encerrados e Momonga, apelido da pessoa com avatar de uma figura esquelética, o Overlord, decidiu ficar dentro dele até o último instante. Por ser o derradeiro dia mandou e-mail para todos os antigos companheiros de guilda que foram parando de jogar ao longo do tempo, mas poucos deles apareceram para se despedir e nenhum decidiu ficar até o final. A obra mostra nitidamente como ele gostava do jogo e não queria que aquilo terminasse, mesmo que seus antigos companheiros já não frequentassem mais o ambiente como antes.

O jogo era o seu passatempo, era o modo de fugir da realidade atribulada do dia a dia, em que a única coisa que fazia era trabalhar, já não tendo família e nem amigos. Em suma, era sua válvula de escape de um mundo que não tinha nada de muito agradável. Por isso, a perda do jogo significava quase a perda de um ente querido e após os servidores serem desligados ficaria um vazio nele.

Entretanto, quando chegou a hora marcada e tudo devia terminar, o jogo não foi encerrado, tudo ficou intacto. Porém, as coisas estavam diferentes a começar porque, para a surpresa de Momonga, os NPCs, os personagens não jogáveis, tinham adquirido vida.

Catacumba de Nazalic, a fortaleza da guilda de Momonga

A sinopse oficial da obra descreve perfeitamente o que é Overlord, a história de um homem normal que ficou preso dentro de um jogo, mas cuja realidade parece ter sido transportada para outro ambiente, um mundo novo que precisará ser explorado.

Momonga (ou Ainz, como ele se chamará posteriormente, tomando emprestado o nome da guilda que ele fazia parte) mostra-se um personagem para lá de sensato nesse primeiro volume, sendo extremamente cauteloso em suas ações nesse novo mundo que ele iria descobrir. Ao ter noção de que os antigos NPCs ganharam vida, por exemplo, ele busca conhecer a lealdade deles, ao mesmo tempo em que tenta se precaver de possíveis rebeliões. De igual modo, o antigo assalariado tentará mostrar-se como o soberano poderoso que os NPCs acham que ele é. Além disso, tentará descobrir coisas sobre o novo mundo, o senso comum daquele lugar, tudo para poder se integrar melhor ao ambiente.

Importante registrar que Momonga é sim um ser extremamente poderoso. Tanto no jogo, quanto naquele outro mundo em que ele se encontrava, mas ainda assim ele tenta ser o mais precavido possível, visto que, como tudo é novo, ele não saberia se existiriam pessoas mais fortes do que ele nessa realidade. O primeiro volume, porém, é praticamente todo dedicado a mostrar a força que Momonga tem nesse mundo. Melhor dizendo, a obra caminha nesse volume inicial para que ele mostre todo o potencial, pois mesmo as criaturas mais poderosas (ou supostas criaturas poderosas) eram para ele bem frágeis.

Mas se a demonstração da força do protagonista percorreu o volume (desde os NPCs mostrando respeito à força de seu mestre, até a vitória esmagadora sobre alguns seres), ela também parece ser usada para o propósito futuro da obra. Momonga (Ainz) deseja fazer seu nome ser conhecido por todo aquele mundo para que, caso alguns de seus companheiros ou mesmo outros jogadores do “Yggdrazil” (o jogo de realidade virtual que ele jogava) que eventualmente tenham ido parar ali, possam reconhecê-lo e buscar contato.

O início desse primeiro volume da light novel é bem mais descritiva do que outras novels que tive a oportunidade de ler. O autor vai colocando mais e mais informações sobre o funcionamento do jogo (os tipos de classes, as relíquias, as magias, etc) de forma bastante metódica e programática, prezando pela minúcia para que possamos ter uma exata sensação do que fora feito e do que Momonga estava perdendo com a desativação dos servidores, bem como o que havia de igual e diferente no novo mundo.

A apresentação dos personagens nos capítulos iniciais também foram bastante descritivas e até meio lentas em alguns momentos. Saber desses detalhes é essencial e até agradável de ler, mas provavelmente algumas pessoas se sintam entediadas nesses primórdios da leitura pela falta de emoção que a obra passa e a aparente vagareza na evolução, mas é algo que faz sentido ser assim, para que conheçamos aos poucos aquele mundo e o funcionamento dele.

Mas Overlord brilha é nos momentos de ação. Nesse primeiro tomo, além da chegada de Momonga a esse mundo, está sendo contada uma outra história, de duas regiões rivais, em que o Overlord irá intervir, buscando salvar alguns seres humanos. Basicamente, um grupo secreto de uma das regiões decide preparar uma emboscada para o homem mais forte de outra, atacando uma vila inocente e é aí que começa de verdade o livro. Nos dois primeiros capítulos há subcapítulos dedicados a isso, que quebram a sequência descritiva e mostram a versatilidade do autor em fazer boas cenas de ação.

Esses subcapítulos são importantes por duas coisas. A primeira é que mostra ao leitor que, se ele pensou em desistir pro achar chato as descrições, ele poderia confiar que a história ficaria mais divertida; a segunda é que essas inserções fazem a obra preparar um terreno para o que virá a seguir. Se Momonga visse do nada o que estava acontecendo e decidisse intervir sem que nada tivesse sido mostrado antes ao leitor, poderia – dependendo da capacidade do autor e o modo como ele trabalha a história – parecer algo forçado apenas para fazer a história andar.

Os capítulos 3 a 5 mostram mais ação e nele vemos o brilho da história, com os combates, a negociação e, claro, a demonstração de força de Momonga (Ainz). As descrições ainda permanecem, mas sendo encaixadas em meio à ação, explicando o que acontece, comparando com o jogo, etc. É muito legal também ver como o antigo assalariado estava se portando nesse novo mundo. Se ele não era verdadeiramente um morto-vivo superpoderoso, nesse ambiente ele era sim, embora guardasse a sua consciência de ser humano e a presteza de ajudar o próximo que está em apuros, mesmo que relute aqui ou ali.

O desenvolvimento desse volume inicial é realmente muito interessante, passando da reclamação pelo fim do jogo, a aceitação da nova realidade, as precauções, a intervenção e, por vim, a decisão sobre o que verdadeiramente o protagonista queria. O volume se encerra bem, sem um cliffhanger para os próximos tomos, mas mesmo assim bem, concluindo dignamente a primeira parte da história e apresentando os planos para o futuro, tornar o nome de Ainz conhecido.

  • A edição brasileira

Não há como falar de detalhes físicos da obra, pois lemos apenas a versão digital (a única lançada até agora pela JBC), mas é possível comentarmos algumas coisas sobre ela mesmo assim. A primeira coisa é sobre as páginas coloridas. Se você leu Sword Art Online, Re: Zero, Toradora! ou No Game No Life reparará que a distribuição nas páginas coloridas é diferente. Enquanto nas outras obras elas se concentram no início, em Overlord há algumas no início, algumas no final (sendo essas fichas de personagens), e uma em cada abertura de capítulo. De igual modo, também não há ilustrações em preto e branco, como é costume nas outras novels.

Uma das páginas coloridas em abertura de capítulo

Acerca de detalhes mais técnicos, a editora JBC foi bastante preocupada e colocou um bom número de notas de rodapé para explicar termos específicos de jogos, bem como o nome de alguns personagens que foram citados no início do volume. Sobre a revisão de texto, a editora deixou um pouco a desejar em alguns momentos. De modo geral, ela está boa, mas há deslizes aqui e ali que não deveriam acontecer. Vejam alguns exemplos:

Um dos erros de revisão mais estranhos, porém, se encontra exatamente na última página, quando a editora colocou uma data errada. Em vez de colocar no posfácio Julho de 2012 (data que o primeiro volume japonês foi lançado), a JBC colocou Julho de 2010. Foi um erro tão incompreensível que eu até cheguei a pensar que havia um erro semelhante na versão original japonesa, mas foi só olhar a edição americana da Yen Press para ter certeza que era mesmo um erro local. Vejam abaixo, juntamente com a comparação do ebook em inglês da Yen Press.

Esse foi um dos erros mais sem sentido que já tive a oportunidade de ver. Entretanto, isso é apenas um detalhe. Apesar dos erros eu fiquei feliz com o trabalho da JBC nessa light novel. Eu estava bastante receoso de que o trabalho de revisão da editora fosse tão ruim quanto foi anos atrás no livro de Another, lançado em 2015. Felizmente, a JBC melhorou bastante e espero que vendo esses erros, a empresa tome mais cuidado e melhore ainda mais nos próximos volumes.

  • Conclusão

Eu não conhecia a história de Overlord. Na verdade, eu só tinha visto o primeiro episódio da primeira temporada, de modo que a leitura, quase por inteira, foi uma leitura de conhecimento da obra, sem ter algo prévio em que me basear, algo bem diferente da leitura de outras light novels que eu já fizera.

Posso dizer que foi uma leitura muito boa. Apesar do grande número de descrições, a obra fluiu muito bem, tanto que em menos de dois dias a leitura tinha sido concluída. Momonga é um excelente personagem, bastante centrado apesar de algumas infantilidades aqui e ali. Demais personagens também são interessantes, embora a maioria não tenha demonstrado toda a sua glória nesse tomo inicial.

Em resumo, Overlord é uma light novel agradável e divertida e vale dar uma chance. Se você não gosta de edição digital, em breve será lançada a versão impressa, então é só aguardar…

  • Ficha Técnica

TítuloOverlord
Autor: Kugane Maruyama
Ilustrador: So-bin
Tradutor: Edward Kondo
Editora: JBC
Número de volumes lançados no Japão: 13 (ainda em andamento)
Número de volumes lançados no Brasil: 1 (ainda em andamento)
Preço da versão digital: R$ 32,90
Preço da versão física: R$ 42,90
Dimensões da ed. física: 14 x 21 cm (aproximadamente)
Acabamento da ed. física: Não divulgado
Onde comprar ed. Física: Não divulgado
Onde comprar ed. Digital: Amazon / Google Play / Kobo

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7 comentários

  1. Antes de mais nada, parabéns pela review de Overlord.

    Gostaria de tirar uma dúvida que seu artigo não contemplou:

    Quando o Momonga testa as habilidades dele contra os guerreiros da Teocracia, logo que chega na vila de Carne, ele usa a magia Tier 9 [Grasp Heart].
    Mesmo em japonês, a novel mantém o nome da magia em inglês, por ser um skill do jogo.
    Isso se mantém na versão da JBC?

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    1. Essa tal de “Skill” que você fala é “Habilidade”? Não tenho o menor conhecimento de jogos, então não faço ideia do que seja isso. A única vez que vi essa palavra foi na light novel de “Sword Art Online” e não tinha nenhuma explicação nela. Foi um terror. Péssimo para o público leitor. Até critiquei isso na resenha da obra da Panini.

      Agora “habilidade” é uma palavra usada constantemente na light novel de “Overlord”. Se “Skill” for “Habilidade” mesmo, por questão de lógica, o nome das habilidades foram igualmente traduzidas também. Essa daí que você falou deve ser a habilidade “Esmagar Coração”.

      Então, basicamente a editora só deixou no original (e colocou notas de rodapé para explicar) termos realmente específicos, que não poderiam ser traduzidas de jeito nenhum, tipo “Dungeon”, “Emoticons”, “Slot”, “logar”, etc. .

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      1. Obrigado por tirar a dúvida.

        A novel de Overlord, em japonês ou na tradução para inglês, tem uma terminologia pesada baseada em jogos (MMO).
        O Suzuki Satoru, jogador originalmente por trás do Momonga, era hardcore, e ele pensa em termos de jogo.

        Na novel japonesa, anime, etc, [Grasp Heart] está sempre em inglês. É o nome da magia no jogo, e é forma de ativação da mesma.
        É como se em Mahou Sensei Negima!, as magias em latim do Negi fossem traduzidas para português.

        Tem os recursos de nota de rodapé. Tem até o recurso que a Panini usa até hoje de ter páginas no final com terminologias.
        Traduzir tudo parece uma forma de alcançar um público mais leigo, mas acaba descaracterizando muitas ideias do autor.

        Curtido por 1 pessoa

  2. Essas descrições matam, se você apresentam varias descrições fatos logo no começo, ninguém liga e é chato. Tem que ser apresentado gradativamente, com o time certo. Bom, nem curto historias de protagonistas invencíveis mesmo.

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  3. “Como boa parte das obras atuais que se utilizam desse lugar comum de ir parar em uma outra realidade, Overlord nasceu como uma série de light novels, aqueles livros japoneses com ilustrações.”

    Breve correção aqui mas boa parte dessas obras na verdade começaram na internet como web novels seja em sites próprios dos autores ou sites como Arcadia e o mais popular que é o Shousetsuka ni Narou que é o mais popular e é onde você pode publicar e ler novels de graça. Rezero, Overlord, Konosuba, Tensura Slime e várias séries começaram por lá e algumas continuam até hoje mesmo após editoras adquirirem as obras pra serem publicadas oficialmente como light novel.

    Só queria dizer isso mesmo já que não é algo que muitos sabem. E o mesmo acontece com mangá no fim das contas também com publicações amadoras na internet que depois são adquiridas por editoras como no caso de One Punch Man ou Wotakoi

    Curtido por 2 pessoas

    1. Acredito que ele estava querendo dizer que a franquia se originou desse material escrito e não do anime ou mangá. Mas você está 100% correto, outro exemplo brasileiro é Log Horizon, igualmente iniciou como webnovel. Diga-se de passagem, a maioria desses autores não param de publicar nesse formato e vira uma espécie de rascunho com o público apontando erros e dando sugestões. O autor de Log vive agradecendo leitores que sugerem nomes para os itens, o de Re:Zero vive fazendo alterações também, tem listas com esse tipo de coisa.

      Curtido por 1 pessoa

  4. Pelo menos na versão digital é fácil de resolver os erros de revisão com uma simples atualização, mas não deixa de ser preocupante a falta de atenção da editora.

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