Biblioteca Brasileira de Mangás

Resenha: BEASTARS (Volume 1)

Convivendo com a desconfiança dos outros e de si mesmo…

No dia 24 de janeiro de 2019, a editora Panini realizou uma leva de anúncios em sua página na rede social Facebook. Na ocasião, a empresa revelou que lançaria Yuuna e a Pensão Assombrada, um título que todo mundo sabia que apareceria mais cedo ou mais tarde, além de dois títulos completamente improváveis, O Marido do meu Irmão e BEASTARS, do qual falaremos agora.

Criação da autora Paru Itagaki, BEASTARS é um mangá que se destacou na revista Shonen Champion, da Akita Shoten, e galgou passos mais altos, ao ponto de ganhar diversos prêmios distintos. A obra foi responsável por conferir a Itagaki a láurea na categoria “Novo Autor” em dois prêmios, no Japan Media Arts Festival Awards, em 2017, e no Tezuka Osamu Cultural Prize de 2018. Além disso, BEASTARS foi o vencedor do Kodansha Manga Awards, na categoria melhor shonen, em 2018, além de ter vencido o  Cartoon Grand Prize também em 2018.

Com tantos prêmios, é de esperar que a obra tenha um algo mais e a autora Paru Itagaki não decepciona e nos apresenta uma história bem redondinha sobre a convivência de espécies diferentes, onde a paz e o medo vivem lado a lado.

BEASTARS está em publicação no Japão desde 2016, contando atualmente com 13 volumes publicados, mas com o décimo quarto previsto para julho. No Brasil, a obra constava no checklist de março da editora Panini, mas só foi dar as caras agora no início de maio. Adquirimos o volume, lemos a obra e viemos falar um pouco mais sobre ela para vocês.

Um mundo compartilhado por carnívoros e herbívoros. Um mundo cheio de esperanças, paixões e receios. Legoshi, integrante do clube de teatro da escola Cherryton, é um lobo sensível e delicado. Neste drama antropomórfico ele e seus colegas do mundo animal vão compartilhar os altos e baixos da juventude!!

Um lobo, um cachorro, uma ovelha, um rato, um grande número de animais, todos eles antropomórficos (I.E: possuem características humanas, como fala, pensamentos, etc), esses são os personagens do mangá BEASTARS. Não há muitas informações sobre o mundo da obra, apenas sabemos que ela se passa em um colégio interno em que animais herbívoros e carnívoros coexistem e que na cidade por lei é totalmente proibido comer carne.

O mangá, então, segue a vida Legoshi (um grande lobo cinzento) nesse ambiente, mostrando a participação dele no clube de teatro, o modo como os outros alunos o veem e também os seus próprios instintos, dando-nos a ver uma sociedade muito igual à nossa em que as pessoas julgam as outras pelas aparências e, do mesmo modo, elas mesmas não se conhecem direito.

A obra começa já com uma cena mostrando o quão hostil pode ser um ambiente de pretensa paz e comunhão como é esse colégio. Um herbívoro de nome Tem acaba encurralado por um carnívoro e é morto ali mesmo, gerando uma grande comoção na escola e uma desconfiança logo de cara. Se Tem foi morto por um carnívoro, este era um dos alunos do colégio, mas quem?

A autora tenta mostrar uma dubiedade logo nesse início, apresentando silhuetas que aparentam ser um lobo cinzento o assassino, ou seja Legoshi. Para piorar ainda mais a situação do lobo perante os leitores, ele parece perseguir uma garota a fim de exterminá-la também. Não que os leitores não conseguissem deduzir de imediato, mas a história logo trata de desmentir essa hipótese, divulgando ele como um personagem calmo e bondoso.

Paru Itagaki utiliza-se dessa duplicidade para gerar tensão no leitor ao mesmo tempo em que apresenta o preconceito latente em relação ao lobo. Sendo um grande animal carnívoro, as pessoas tendem a vê-lo como uma ameaça e mais de um personagem acha que Legoshi pode ter matado Tem, seu amigo do teatro.

Se a autora coloca o preconceito como tema, o autoconhecimento, ou antes a falta dele, também entra em cena. Após um certo incidente, Legoshi verá um confronto com as suas mais profundas entranhas, em que desejará e quase atacará uma herbívora. Calmo, bondoso, mas deixando-se levar pelo instinto animal? Legoshi não se compreende, não consegue entender o que se passou com ele naquele momento. E isso é algo que somente ele e aquele outro ser sabem, como se desenvolverá isso?

Legoshi vendo o seu lado sombrio

Afora essas questões, a obra se desenvolve como uma vida escolar normal. Há atritos no grupo de teatro, há atritos no refeitório, Há pessoas praticando bullying e assim por diante. São animais antropomórficos que representam pessoas para lá de reais, personagens tipos que já vimos em mais de um mangá.

O ponto principal de BEASTARS nesse volume inicial é exatamente essa questão da convivência das pessoas dentro de uma micro-realidade. Se seres diferentes como herbívoros e carnívoros coexistem e são amigos, isso não significa, porém, que todos podem ser confiáveis, afinal alguém matou o Tem. Mas julgar os outros apenas por suas características também não é errado? Como conciliar esses dois pontos conflitantes? Como conviver com as pessoas e ter medo delas ao mesmo tempo?

O conflito no mangá é bem óbvio e não se reduz apenas e tão somente a herbívoros e carnívoros. Seres de espécies semelhantes também podem se odiar pelos mais diversos motivos, gerando um clima de tensão entre as partes envolvidas. A verdade é que BEASTARS apresenta uma obra que tinha tudo para ter um clima totalmente pesado, porém a autora inverte as expectativas e faz uma obra leve, ainda que tenha um background totalmente carregado e que pode explodir a qualquer momento. Por isso é necessário alguém que consiga o respeito de todos e supere todos os medos e preconceitos, um Beastar, mas isso não é muito desenvolvido nesse volume.

Enfim, BEASTARS é uma obra interessantíssima que nos faz ver diversas discussões, tanto explícitas, quanto implícitas, sobre a natureza humana, seja em relação à sociedade, seja em relação a si mesmo. Conhecemos de verdade todos os que estão à nossa volta? E a nós mesmos? Conhecemos também? Esses são os temas que mais chamam a atenção na obra e que mais nos fazem refletir…

A edição nacional veio no formato 14,7 x 21 cm (parecido com Usagi Drop e Zelda, por exemplo), com miolo em papel Offwhite (padrão da editora desde metade de 2018) e capa cartonada com orelhas. A capa ainda possui verniz localizado no corpo do Legoshi e no título da obra. Na quarta-capa, você encontra a sinopse do mangá, a indicação de preço e a classificação indicativa, além de ter também verniz localizado no título. O preço do mangá é R$ 26,90.

A edição física do mangá é excelente, a melhor dessa leva da Panini até agora. O papel offwhite é bastante bonito, parecido com o usado em Furifura, destacando bem os desenhos da autora, e a encadernação é de primeira, permitindo não somente folhear e ler a obra, como também abrir o mangá por inteiro sem nenhum problema. Não parece ter o miolo costurado, mesmo assim o acabamento tá realmente um primor.

Se você tentar abrir um mangá comum assim, corre o risco das páginas caírem.

Em termos de texto, a adaptação feita pela Panini está muito boa, extremamente fluída e sem qualquer gargalo linguístico, nada de honoríficos e nem coisas do tipo. Por fim, sobre revisão de texto, de modo geral está boa, só encontrei esse erro abaixo, uma repetição da palavra “dos”. No mais, o trabalho da editora foi competente.

BEASTARS provavelmente é o mangá pesado mais leve que você lerá. Há muitas questões que estão latentes naquele ambiente em que convivem carnívoros e herbívoros, e o conhecimento da sociedade, bem como os acontecimentos do primeiro volume (o assassinato, as brigas, etc) nos antecipa que tem muitas coisas a serem exploradas e descobertas, coisas que talvez nem mesmo os personagens principais queiram saber.

BEASTARS é um mangá muito bom apresentando-nos o que poderia ser apenas uma narrativa escolar como outra qualquer, mas alçando-a a um outro nível, com discussões implícitas e explícitas sobre a natureza humana. Sem dúvida é um mangá mais do que recomendado para todo fã de histórias em quadrinhos.

Título: BEASTARS
Autor: Paru Itagaki
Tradutor: Dirce Miyamura
Editora: Panini
Dimensões: 14,7 x 21 cm
Miolo: Papel offwhite
Acabamento: Capa cartonada com orelhas
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 26,90
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