Resenha: “Kagami ga Kita – Histórias de um Espelho” (Edição Argentina)

O velho sobrenatural de Rumiko Takahashi

Creio que o nome Rumiko Takahashi dispensa apresentações. Autora renomada, ela é a criadora de obras como Ranma 1/2 e Inu-Yasha, sendo conhecida tanto no Japão quanto em diversos países do mundo. Produzindo desde a década de 1970, ela é uma das artistas mais prolíficas da editora Shogakukan, sendo um nome quase indissociável da revista Shonen Sunday.

Além de suas obras longas (recentemente ela terminou Rinne com 40 volumes e agora está publicando MAO), volta e meia a autora lança um volume único esparso com algumas historietas. Uma dessas coletâneas foi publicada em 2015 e se chamou Kagami ga Kita, composta por 5 one-shots da autora, além de um capítulo especial feito em parceria com Mitsuru Adachi (autor de Aventuras de Menino) em homenagem à Shonen Sunday.

Logo no ano seguinte, a obra foi publicada na Itália e na Argentina. Em 2016, vale lembrar, a JBC anunciou o relançamento de Inu-Yasha, após vencer uma pesquisa de popularidade com o público, então a gente imaginava que Kagami ga Kita poderia vir junto no pacote, mas acabou que nem Inu-Yasha apareceu. Na Itália, a editora Star Comics publicou o mangá com a romanização do nome original, seguido de um subtítulo chamado Lo Specchio (O espelho), já a Ivrea, a editora argentina, resolveu adaptar o título para Historias de un Espejo (Histórias de um Espelho).

Recentemente, fizemos uma pequena importação de mangás da Argentina e um dos que compramos foi justamente essa obra da Rumiko Takahashi. Agora, nós lemos o volume e viemos falar um pouquinho dele para vocês.

Em linhas gerais, os one-shots desse livro trabalham com histórias mirabolantes e/ou o sobrenatural característico de Rumiko Takahashi (que quem viu Inu-Yasha conhece bem), com criaturas estranhas e uma ou outra reviravolta na trama.

O primeiro conto, chamado de “O Espelho” apresenta uma realidade em que um grupo de pessoas de repente recebe um espelho em sua mão e começa a enxergar criaturas horrendas que dominam as pessoas. Com os espelhos, essas pessoas precisam ir atrás dessas criaturas e as eliminar, porém ao fazer isso ela sofrem efeitos em seus corpos, chegando a vomitar por causa disso. No conto, seguimos dois jovens, um rapaz e uma garota, em uma situação bem sinistra, envolvendo assassinatos e um desses monstros perversos. “O Espelho” é um one-shot que seguramente renderia uma série mais extensa, com pessoas resolvendo os mistérios a cada capítulo.

O segundo conto, chamado de “Revenge Doll” mostra uma lenda de uma certa boneca de três olhos a qual, se você os pintar pensando em uma determinada pessoa, essa pessoa sofrerá alguma consequência, chegando inclusive à morte. Na história, acompanhamos um autor de mangá um tanto quanto antiquado, que já fizera sucesso no passado, mas que agora está prestes a ter sua obra mais recente cancelada na revista em que publica. Um dia, ele recebe a tal boneca da vingança e começa a usufruir dela. A narrativa se desenvolve com o autor tentando averiguar se é tudo coincidência, ao mesmo tempo em que sua carreira parece ir por água abaixo. “Revenge Doll” é uma história que tem um início, meio e fim bem definido e não precisaria de uma continuação ou de uma série. É uma narrativa própria, bem feita e que apresenta todo aquele lado mais obscuro da Rumiko Takahashi, juntamente com seu toque de humor característico.

O terceiro conto atende pelo nome de “A Estrela de Mil Faces” e qualquer coisa que a gente disser sobre ele é um spoiler daqueles sobre a história, mas basicamente existe uma mulher foi acusada de um assassinato que não cometeu e um detetive passa a persegui-la, a moça vive se disfarçando, por isso que ela tem mil faces, mas o homem tende a sempre encontrá-la. Só existe um porém, essa não é a história do conto. Na verdade, isso é drama televiso que está fazendo muito sucesso e falta apenas um capítulo para o final, só que a atriz que interpreta a protagonista simplesmente desapareceu. Não é preciso de muito esforço para saber que ela sumiu justamente por ter matado alguém. A história então segue apresentando o desenrolar dessa história com muitas e muitas reviravoltas até que se chega a um desfecho para lá de curioso.

“Bella Flor”, o quarto conto do mangá, volta ao clima de suspense de Rumiko Takahashi, novamente aparentando algo sobrenatural. Basicamente, a protagonista da história começa a ver uma determinada flor em todo lugar, uma flor que ela considera horrível e com um cheiro igualmente terrível, porém as pessoas à sua volta acham o cheiro bom e consideram a flor linda. O que está acontecendo? De repente, ela começa a achar que as flores estão a perseguindo e então…. algo acontece. Esse é um daqueles contos que parecem universais que mesmo sendo a primeira vez que você o vê, você tem a sensação de já conhecer a história de algum lugar. Terei eu lido essa história antes? Mistério…

O quinto conto “with Cat” é uma narrativa com toque sobrenatural, mas daqueles bem leves. Basicamente, um gato bastante velho, perto de morrer, decide tomar o corpo de um garoto que odeia gatos, mas algo dá errado e apenas o braço do garoto ficou peludo como uma pata de gato. Essa é a história mais fraca de todo o volume, destoando bastante das demais, pois é apenas um amontoado de lugar-comum com uma tentativa de drama envolvendo dois amigos de infância. Existe até uma reviravolta no final, mas não chega a ser algo impactante.

Por fim, “My Sweet Sunday”, o último conto do mangá, não é outra coisa senão uma obra feita a quatro mãos, as duas de Rumiko Takahashi e as duas de Mitsuru Adachi. O sistema utilizado é de intercalação, com uma parte feita pela Rumiko e outra parte feita por Adachi. É uma narrativa biográfica deles, mostrando a paixão dos dois pelos mangás, o modo como conheceram a revista Shonen Sunday, entre diversas outras coisas. É um capítulo especial feito em comemoração ao aniversário da revista e é algo bem lúdico e interessante para quem gosta de mangás, pois fazem citações à diversos autores, apresentam algumas curiosidades, etc. Sem dúvida é um fechamento com chave de ouro para o volume.

  • A edição argentina

Se você nunca viu um mangá publicado pela Ivrea nos últimos anos saiba que ela costuma seguir o mesmo formato das edições japonesas. Ou seja, se o mangá sai no Japão no formato 15 x 21 cm, sairá na Argentina da mesma forma, o mesmo vale para qualquer outro formato.

Historias de un Espejo é lançado no chamado formato B6 (+- 12,5 x 18 cm), tendo um tamanho semelhante a mangás como Citrus, Joy e Ela e o seu Gato, da NewPOP. O papel do miolo é o offset (aquele branco) e a edição possui capa cartonada com sobrecapa, um padrão nos mangás da Ivrea. A edição ainda possui diversas páginas coloridas, não somente no início do mangá, mas sim no início de todos os contos presentes na coletânea.

É uma edição padrão, bem feita, que permite você abrir bem o mangá sem perder qualquer detalhe da arte e sem ter que ficar se forçando para conseguir ler todos os quadrinhos. O único demérito da versão argentina é não ter uma sinopse na quarta-capa avisando do que se trata a obra.

Outro ponto que deve ser mencionado é que a edição possui uma capa um pouco mais mole do que as edições brasileiras, mas isso não chega a ser demérito, pois como existe a sobrecapa, o todo do mangá fica bem bom.

  • Conclusão

Eu sou fã da Rumiko Takahashi e acho bem ruim que apenas duas obras da autora tenham chegado ao Brasil. Será que Ranma 1/2 não fez o sucesso esperado? Por que não trouxeram outras obras? Se mangás longos é o problema, a autora tem uma vasta linha de histórias curtas e Histórias de um Espelho é apenas uma delas.

Acho os contos presentes no volume quase todos muito bons e certamente agradaria os fãs da autora. Se vai vender o suficiente ou não é outra história, mas esse é um título que eu realmente gostaria que mais pessoas conhecessem…

  • FICHA TÉCNICA

Título Original鏡が来た 高橋留美子短編集
Título Argentino: Historias de un Espejo
Autor: Rumiko Takahashi
Tradutor: Nathalia Ferreyra
Editora: Ivrea
Dimensões: 12,5 x 18 cm
Miolo: Papel offset
Acabamento: Capa cartonada com sobrecapa
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes na Argentina: 1 (completo)
Preço: 345 Pesos Argentinos (na época em que foi comprado)/ 395 (em 15 de janeiro de 2019)

Um comentário

  1. Pois é, sou bem fã da Rumiko e fico triste por ela ter desaparecido dos catálogos das editoras… Estou começando a importar as coisas dela que mais quero ler – justamente séries mais curtas como Maison Ikkoku, Mermaid Saga, One Pound Gospel… vou colocar esse na lista. Pena que o Mermaid Saga argentino é difícil de achar, senão dava pra fazer um combo.

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