Resenha: Made In Abyss (volume 7 – e as impressões até aqui)

Esse mundo é tão bom quanto as pessoas dizem? Sim, é, mas isso não basta…

O mangá Made In Abyss teve o seu sétimo volume publicado no Brasil no último mês de fevereiro e agora ficamos perto da obra encostar com a publicação japonesa e os volumes passarem a ser anuais. Qual o saldo do mangá até agora? As impressões iniciais que o título tinha se mantiveram ao longo da obra? Bem, a resposta para isso é “depende” e pretendemos explanar sobre isso durante o texto.

Made in Abyss não é uma história de aventura convencional ou pelo menos não segue muito as demandas das narrativas de ficções convencionais (filmes, livros, etc) de aventura, tendo um estilo bem próprio que o faz ter seus pontos positivos ao mesmo tempo em que destaca alguns negativos.

Um dos grandes destaques da obra é obviamente o mundo criado, com as diversas faunas e floras que coexistem nas diversas camadas do abismo. Desde o primeiro volume a aura desse universo já se mostrava esplendorosa e fazia lembrar obras famosas como o clássico Viagem ao Centro da Terra. Com o passar dos volumes, numerosas espécimes vão aparecendo, sejam locais passíveis de perigos imensos, sejam bichos estranhos que sirvam de alimento, etc. E isso é muito legal, muito interessante. O problema é que isso não é aproveitado como poderia. Fora momentos específicos (como no volume 7, quando Riko consegue pensar em um jeito de derrotar um certo inimigo) eles não são tão bem trabalhados na história em quadrinhos. Há até uma explanação maior nos paratextos entre os capítulos, porém não chegam a aparecer ou não chegam a ser muito relevantes durante a história, ficando um pequeno vácuo entre a magnificência daquele ambiente e a apreciação dos seres.

Se de um lado a gente vê a enorme criatividade do autor, com criaturas e mais criaturas advindas da mente dele, por outro a gente nota uma falta de utilidade para elas. É como se fosse um amontoado de coisas que foram feitas apenas para estar lá e só.

Isso cria um problema para o todo da obra: a aura de aventura que ela emana. Riko está viajando para o fundo do abismo, pois adora a ideia da exploração e de tudo o que o ambiente representa. Existe a questão de encontrar a mãe da garota e a origem do Reg, mas a própria obra já colocou na mesa que isso é algo secundário, o que a importa é a aventura e a exploração, a descoberta do que está por vir.

Ocorre que a obra dá pouco tempo para a exploração de verdade. Se você prestar a atenção, Made In Abyss costuma apresentar uma estrutura bem parecida, Riko e Reg descem para uma camada do abismo, encontram problemas, lidam com eles, se divertem um tempo, comem, lidam com mais problemas, e continuam a aventura. Pelo tanto que existe e se espera do abismo, a obra poderia se deter mais tempo na exploração de cada camada, na apreciação das espécimes, etc. Infelizmente não é isso o que  acontece.

Dito de outro modo: em nossa opinião, o mundo de Made In Abyss é fantástico, muito bem criado e intrigante, daqueles que a gente quer ver mais, apreender mais, conhecer cada coisa, só que o autor não nos dá tanto assim, aproveitando pouco aquele universo, explorando-o de forma aquém do que uma história de aventura poderia e principalmente do que o mundo criado por ele poderia nos dar.

A obra meio que perde tempo com algumas coisas inúteis e que seriam completamente dispensáveis em qualquer outro livro, filme ou mangá. Por exemplo, por qual razão, no volume 6, necessitava de uma cena da Riko precisando ir ao banheiro? Em uma obra de exploração, decerto, os autores costumam despender algumas páginas com alimentação, mas nada ou quase nada falam da expelição do que foi comido. Então, o autor pensar nisso é até legal, mas o problema é que foi uma cena apenas para alívio cômico (Riko é usada para isso muitas vezes desde o volume 1 e vocês sabem bem). No início do volume 7, há outra cena assim. Até dá mais humanidade à história, mas não contribui para o clima de aventura, para o desenvolvimento e para nada, e faz com que percamos páginas preciosas que poderiam estar mostrando uma história mais útil.

Falando especificamente da história em seu estado atual, Riko, Reg e Nanachi já haviam chegado à sexta camada e coisas estranhas começaram a acontecer e os três terminaram por chegar a uma vila lotada de sequelas, com um sistema de vida próprio. Ali novamente vemos o mesmo problema, com uma enormidade de seres e coisas diferentes e mais uma vez a maioria deles são sumariamente ignorados, com alguns sendo apenas falados nos paratextos. Os protagonistas não agem como seres de uma narrativa de aventura.

Ainda sobre a história, o passado de Reg parece estar bem próximo de ser descoberto, pois já apareceu um certo personagem que, em teoria, o conhece de tempos outros e pode ajudá-lo a saber o que pode ter acontecido no passado. Entretanto, os conflitos continuam a aparecer um após o outro na obra. Um dos mais emblemáticos no momento é com Nanachi. Ela acabou sendo “aprisionada” pela vila e o único modo de libertá-la é oferecendo algo em troca, algo bem valioso e que traria a ruína de Riko.

Esse é um ponto importante, pois mostra mais sobre a personalidade da Riko. Ela já tinha se mostrado forte, até valente (mesmo sentido medo), mas sua grande marca é ser uma protagonista, uma protagonista típica, que pensa nos outros antes de pensar em si mesma. Ao ver a situação de Nanachi e saber o preço que teria de pagar, ela pensa seriamente em se oferecer e, por pura inocência, ela quase acaba sucumbindo nesse lugar. A própria aventura que ela tanto deseja seria prejudicada, mas o que ela mais pensou era em não atrapalhar os amigos. Felizmente, mesmo Riko não se sacrificando, existe uma maneira de se conseguir salvar Nanachi. Se isso vai acontecer mesmo ou não é coisa para os próximos volumes.

Agora quais serão os rumos da história? Eles querem chegar ao fundo do abismo e já estão na sexta camada. Precisarão descobrir a origem de Reg, encontrar o paradeiro da mãe de Riko (ou descobrir o fim que ela teve), mas e aí? Será que falta muito para a história acabar? A verdade é que a narrativa mudou bastante do volume 1 para cá. O humor ainda existe, mas aquele sentimento de exploração que era tão ativo no número inicial e permaneceu no segundo e no terceiro, só aparece em momentos raros. Agora a obra parece só um amontoado de coisas, querendo chocar por chocar e não anda. Não faz nada.

A gente continua gostando bastante de Made In Abyss, mas parece que está faltando alguma coisa. Parece que parte da essência da obra foi se perdendo ao longo dos volumes e agora sobrou um clima mais estranho, quando até mesmo os mistérios parecem menos interessantes. Terá valido a pena acompanhar esses sete volumes? Será que a gente leu errado esse tempo todo? Será que Made In Abyss é apenas um amontoado de fetiches do autor, em que ele quer fazer sua protagonista sofrer? Bem, a premissa da obra, do perigo do abismo, foi totalmente real, o autor não nos enganou, mas agora parece que é só isso mesmo e não tem nada além. Hoje eu não recomendaria esse mangá!.

  • Ficha Técnica

Título original: メイドインアビス
Título NacionalMade In Abyss
Autor: Akihito Tsukushi
Tradutor: Karen Kazumi Hayashida
EditoraNewPOP
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: Papel Offset 90g
Acabamento: Capa cartonada simples
Classificação indicativa: 14 anos
Número de volumes: 8 (ainda em andamento no Japão)
Preço: R$ 21,90
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