
Ficando com raiva do mundo…
Recentemente eu terminei a leitura dos mangás Formandos e Confusões do Primeiro do Amor e, embora tenham temáticas parecidas e até discussões semelhantes (sobre o que fazer no futuro após a escola, como se desenvolverá o relacionamento amoroso entre duas pessoas, etc), eles são completamente diferentes um do outro.
Formandos é um mangá mais de romance com pitadas de drama e humor, enquanto Confusões do Primeiro Amor é uma comédia romântica clássica, com toques de drama aqui e ali. Podem parecer iguais (e eu não culpo se você acha isso), mas são diferentes mesmo, no modo de conduzir a história, o desenvolvimento da narrativa, o padrão de comportamento dos personagens, etc, etc, etc.
Mas, sim, eles têm semelhanças, principalmente em uma coisa: eles são leves. Formandos é um mangá BL e Confusões do Primeiro amor é um shoujo com um casal formado por dois homens, então ambos apresentam uma linda história de amor entre pessoas LGBTQIAPN+, com uma grande leveza que nos faz apreciar a história e relaxar com cada um dos títulos.
Ocorre que – em razão disso – ambos os mangás buscam “”esconder”” um pouco da parte ruim do mundo, focando-se apenas na parte boa. Assim, em Formandos a gente não vê cenas de preconceito evidente e o fato de os protagonistas serem um casal é, por exemplo, aceito muito facilmente pela família. Confusões do Primeiro Amor até tem umas cenas de preconceito e homofobia, mas isso é uma parte pequena do todo, sendo no geral um mangá de conforto, com todo mundo sendo gente legal, sem preconceitos, etc.
Isso é normal, pois é o gênero ou a escolha temática que os mangás resolveram seguir. A gente não precisa querer que os mangás representem fielmente a realidade, a gente pode querer um pouco de escapismo, de uma realidade utópica ou mais facilitadora, etc, etc, etc. E isso é, sim, uma das boas características dessas duas obras.
Falei tudo isso até aqui, pois também terminei de ler Nossas Cores e esse tem uma proposta totalmente diferente desses dois. Tal qual eles, esse mangá possui um protagonista LGBTQIAPN+, mas ele (o mangá) coloca a obra mais realisticamente possível, mostrando a sociedade preconceituosa japonesa e os desafios de um adolescente gay nesse mundo.
Nossas Cores é um mangá de autoria de Gengoroh Tagame, um artista abertamente gay e que, uma de suas vertentes no mundo dos mangás, é a publicação de títulos de impacto e que mostrem a realidade da comunidade LGBTQIAPN+. Foi ele que escreveu, por exemplo, O Marido do Meu Irmão, um mangá bastante didático que mostra com o preconceito pode distanciar pessoas para todo o sempre, além de esclarecer diversas questões para as pessoas leigas (daí o didatismo).
O mangá do qual falaremos agora, Nossas Cores, segue essa mesma vertente, mas mudando bastante o foco. Em O Marido do Meu Irmão, o protagonista da obra era um homem preconceituoso que se viu forçado a lidar com o marido de seu falecido irmão e, aos poucos, vai aprendendo e deixando de lado sua homofobia. Já em Nossas Cores acompanhamos um adolescente gay – já ciente de sua orientação sexual – e o seu modo de lidar com a sociedade, escondendo de todos e utilizando “máscaras” para ninguém nem suspeitar.
Sora, o protagonista da obra, apesar de agir com suas máscaras perante todos, se sente sufocado por não conseguir ser ele mesmo, tendo fingir algumas coisas e aguentar outras, tudo para que sua vida continue “normal”. Isso inclui, até mesmo, manter em segredo o seu amor por um colega de classe…
Daí que, em razão de um certo acontecimento, Sora se vê mais aflito do que de costume e dá uma fugida, acabando por conhecer – por mero acaso – um senhor mais velho. A partir daí Sora começa a frequentar o café desse senhor, descobrindo que ele (o senhor) é gay e tendo, pela primeira vez, com quem falar sobre o que sente em relação a si mesmo e às pessoas ao redor.
Para além disso, Nao – a melhor amiga de Sora – acaba descobrindo, também sem querer, que o rapaz é gay e passa a conviver com ele também nesse café. Ela é a personagem “de aprendizado” (que representa o possível leitor sem conhecimento), que vai descobrindo que determinadas coisas são ofensivas ou no mínimo inconvenientes, dentre outras coisas.
Nossas Cores é – como dissemos no início – um mangá que se prende bastante na realidade e mostra a sociedade como ela é – extremamente preconceituosa e homofóbica – sem tentar esconder nada, daí que a gente (como leitores) fica com raiva em determinadas passagens, se angustia da mesma maneira que o personagem principal, etc, etc, etc. Esse não é um mangá para relaxar, ele é um mangá de drama daqueles bem intensos, que mostram as mais diversas coisas ruins acontecendo.
Apesar disso, o mangá também nos proporciona uma grande chance de adquirir conhecimento. Ainda que seja uma obra de ficção, a relação entre Sora e o dono do café mostra bem as diferenças e as semelhanças entre gerações, evidenciando que a sociedade atual é preconceituosa, mas antes era mais ao ponto de ser necessário passar a vida toda fingindo ser uma outra pessoa.
Importante também mencionar que, assim como o outro mangá do autor publicado no Brasil, ele é um pouco didático e pode nos ensinar algumas coisas que – por desconhecimento ou preconceito – não sabíamos.
Diferente de outras obras semelhantes, como Shimanami Tasogare: Sonhos ao Amanhecer, Nossas Cores não visa necessariamente a resolver (ou avançar) todas as questões e mostra apenas a continuidade da vida do protagonista, após um certo acontecimento.
Isto é, em Nossas Cores terminamos o mangá sabendo que a vida de Sora continuará igual. Ele ainda esconderá seus sentimentos do rapaz que ele gosta, ainda não revelará sua orientação sexual para as pessoas de sua escola, etc, etc, etc. Ou seja, o mangá mostra uma mudança, um pequeno crescimento por parte de Sora (a relação com a amiga Nao e com os pais), mas o todo continua igual, pois o mundo não mudou, continua o mesmo de sempre.
O que mudou foi o protagonista que agora é um pouco mais livre. Ainda assim todo o resto continua, como mostra o próprio mangá. A sociedade (sobretudo a japonesa, que é para quem Gengoroh Tagame originalmente escreveu) continua homofóbica, preconceituosa e que ainda não trata com a naturalidade que deveria as diversas orientações sexuais ou qualquer coisas que é “diferente”.
Nossas Cores termina com uma boa sensação, não só pelo protagonista em si, mas por toda a história que se mostrou bem impactante em sua proposta. Se é legal lermos obras mais leves como Formandos e Confusões do Primeiro Amor, também é importante ler obras que mostrem a sociedade nua e crua como Nossas Cores.
***
Nesta resenha, eu não consegui passar – em forma de texto – tudo o que eu queria, mas eu espero que tenha conseguido ao menos deixar claro que Nossas Cores é um mangá excelente e que vale muito a pena leitura.
Ficha Técnica
Título Original: 僕らの色彩
Título: Nossas Cores
Autor: Gengoroh Tagame
Tradutor: Kevin Archanjo
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 3 (completo)
Número de volumes no Brasil: 3 (completo)
Dimensões: 13,7 x 20cm cm
Miolo: Papel offwhite 66g
Acabamento: Capa cartão
Páginas: 178 por volume
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 37,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini / Mundos Infinitos
Sinopse: Olhando de fora, tudo parece bem. Mas por dentro, ele está sempre solitário… Sora Itoda, um adolescente gay, está vivendo uma paixão unilateral por seu colega de classe do ensino médio, Kenta Yoshioka. Ele esconde sua orientação sexual até mesmo de sua amiga de infância, Nao Nakamura. Apesar disso, ele testemunha Yoshioka dizendo “Gays são nojentos!” enquanto zomba com amigos. Em choque, Sora acaba fugindo da escola. Sentado na praia, ouve um senhor de idade lhe confessar, de repente, que gostava dele… Quem são aqueles feridos pelo “normal”? Acompanhe uma emocionante história de amadurecimento.
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