Biblioteca Brasileira de Mangás

Resenha: “Showa #01”

Mais um Shigeru Mizuki

Showa – Uma História do Japão é um mangá de autoria de Shigeru Mizuki e, como o nome sugere, fala sobre a história do Japão da Era Showa (que compreende os anos de 1926 a 1989).

Ele foi publicado no Japão originalmente entre 1988 e 1989 pela editora Kodansha, sendo concluído em um total de 8 volumes.

No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Devir no dia 17 de março de 2022 por meio de uma live para o canal Fora do Plástico. O lançamento começou apenas em abril de 2024, em uma edição que compila dois volumes em apenas um só.

Antes de começar a falar da obra em si é preciso de uma série de comentários para contextualizar algumas coisas, que farão a maioria dos leitores compreenderem um pouco melhor a trama.

Para começar, é importante entender o conceito de “Eras” do Japão Moderno. Basicamente, elas dizem respeito à época de um Imperador. Ocorre uma mudança de Era sempre que um Imperador morre ou abdica do trono.

Atualmente estamos na Era Reiwa, com a posse do Imperador Naruhito em 2019, após a abdicação de Akihito que ficou no Trono desde 1989 na chamada Era Heisei.

A Era Showa, que dá título ao mangá, é a Era justamente anterior à Era Heisei, tendo durado de 1926 a 1989, sendo o período do reinado do Imperador Hirohito.

Showa é um mangá de caráter  histórico e, portanto, veremos uma série de acontecimentos ao longo do tempo e abrangendo todo esse longo período do século XX. Neste primeiro volume, a obra mostrará os acontecimentos de 1926 a 1939, ou seja tudo o que precedeu à Segunda Guerra Mundial.

Nesse ínterim, é importante ficar claro que ao falar de História (com H maiúsculo) não significa que as coisas acontecem de forma isolada no tempo e no espaço. Isto é, não é porque a obra conta a história do Japão a partir de 1926 que o todo da obra se resume a esse período e ao próprio país.

Inevitavelmente se falará de tempos anteriores (como a Era Taisho – 1912 a 1926 – e a Era Meiji – 1868-1912 -) e outros países, como a Coreia e a China (dado os projetos imperialistas japoneses) ou mesmo os Estados Unidos. De igual modo, nesse primeiro volume, vão ser citadas coisas que ocorreram antes de 1926 e após 1939, e assim por diante.

Isso ocorre porque realmente nada é fortuito e sem relação com outros acontecimentos, tudo envolve causa e consequência, assim não é possível contar a história de um lugar em um determinado período, sem mencionar outros períodos ou outros lugares, principalmente na era moderna, do mundo globalizado.

Por esse prisma, a primeira coisa que a gente fica sabendo a respeito da era Showa é que os acontecimentos primários dessa época (como os problemas econômicos) advém de coisas que aconteceram alguns anos antes, ainda na era Taisho, como um grande terremoto, que abalou não só a localidade, como a economia de diversas empresas.

Do mesmo modo veremos ainda no início que mais problemas econômicos viriam por meio de uma crise internacional de grandes proporções, mais especificamente dos Estados Unidos, com o início da Grande Depressão de 1929, que acabaria acarretando em uma “Depressão Japonesa”, com muita gente perdendo o emprego, algumas não sendo pagas mesmo trabalhando, e várias até mesmo passando fome e tendo que recorrer ao suicídio.

Embora Showa conte a história do Japão e essa seja a premissa básica, ela se mistura com um pouco de biografia. Shigeru Mizuki, autor do mangá, é também um personagem e ele conta parte da história a partir do seu ponto de vista, o que viveu, o que pensava, o que compreendia, etc.

Assim veremos sua infância, seus parentes, e o modo como determinados acontecimentos, direta ou indiretamente ocasionados pelos problemas do próprio Japão, afetaram a família e fizeram com que as coisas fossem mudando de uma maneira ou de outra.

Embora o autor utilize de elementos pessoais (brigas com outros garotos da localidade, por exemplo) e até mesmo folclóricos (medos que seriam supostos seres sobrenaturais, como yokais), ele é bem pragmático e incisivo em sua abordagem histórica, por mais que não pareça a priori.

Ele não tira os olhos da perseguição aos comunistas e trabalhadores e também cita a iminente formação de uma oligarquia japonesa, a militarização do país e os projetos expansionistas que geraram ao país um estigma negativo.

A bem da verdade, em uma obra de caráter histórico, tais coisas precisam ser mencionadas de um jeito ou de outro, mas muitas vezes pode-se adotar um lado mais elitista e diminuir o peso de coisas ruins. Mizuki não faz isso, ele conta as coisas de uma maneira crua que, para quem é atento, consegue perceber uma crítica ácida.

Por meio dos personagens, o autor dá ênfase a um tom antibélico, falando dos aumentos de impostos para custear a militarização crescente no país, comentando que guerras causam recessão, etc, etc, etc.

E isso tudo é colocado justamente em um momento histórico em que o Japão vai se envolver em mais guerras, como a Segunda Guerra Sino-Japonesa e, logo adiante, a Segunda Guerra Mundial.

Dito de outro modo, embora pareça “não tomar partido” (afinal é apenas um relato histórico) o autor mostra que as escolhas do Japão foram ruins, denunciando, inclusive, diversos crimes que o país cometeu, como matar diversos civis em uma determinada cidade.

Assim, em Showa a gente vê uma história do Japão nua e crua, sem tentativas de amenizar os “pecados” japoneses perante coreanos e chineses, por exemplos.

Não conheço a fundo a história japonesa, então não sei se em meio a trama o autor deixou coisas importantes de fora (o quanto o Imperador estava envolvido nos acontecimentos?), mas em uma análise superficial parece um mangá histórico bem documentado e que deixa evidente os erros do Japão e as consequências que esses erros ocasionaram para outros povos e também para o povo japonês, como a escassez de alimentos e a pobreza em diversos momentos.

***

O mangá não é só guerra, porém. Há várias coisas muito interessantes na obra e uma das que eu mais gostei de ver nesse volume foi as diversas transformações que ocorreram no Japão ao longo do período, transformações essas derivadas de novas tecnologias e outras coisas.

Assim, a gente vê o surgimento do Rádio, produto extremamente caro na época e que poucas pessoas poderiam ter, os táxis de 1 Iene, os livros de 1 Iene, a chegada do Cinema com som e assim por diante. É sempre muito divertido ver essas transformações em uma sociedade.

O que eu não gostei foi justamente a questão da guerra. Essa é uma parte fundamental da história japonesa do fim do século XIX e da primeira metade do século XX, mas toda a ambientação e narração feita desses momentos foram demais enfadonhos em minha opinião.

Particularmente, os momentos em que a população se vê afetada são os melhores em si, pois mostram de maneira concreta os efeitos devastadores da política militarista da época.

Já as tramas políticas, os golpes, a narração dos combates pouco me apeteceram. Eles são importantes para vermos a história japonesa em sua essência, mas elas foram apenas narradas mesmo, sem um desenvolvimento que ocorre em obras de ficção.

Ou seja, Showa na verdade é um grande livro de história. Embora tenha sua parte ficcional, o objetivo da obra é mostrar a História Real do Japão, sem colocar as figuras históricas como personagens e sem vermos eles se destacando ou não.

Assim, a gente só vai lendo os acontecimentos com o objetivo de aprender e não necessariamente se divertir. Logo, não é um mangá que quem não queira isso (aprender a história japonesa) conseguirá gostar.

Showa é um mangá mais didático e voltado para quem realmente deseja obter mais conhecimento sobre a história japonesa. Ele não é um título para o público em geral, pois ele cansa a gente com a leitura e pode ser muito tedioso para muitas pessoas.

Então se você deseja conhecer e aprender um pouco mais da história japonesa, sem ter que se debruçar em livros, esse mangá pode ser perfeito para você. Caso não seja o seu caso, tem outros mangás no mercado…

***

A edição brasileira de Showa veio no formato 17 x 24 cm (o tamanho grande das obras do Selo Tsuru), com miolo em Papel Offset (aquele papel branco) e capa cartonada com sobrecapa. O primeiro volume possui 528 páginas (sendo 16 coloridas) e custou R$ 130,00.

Esta resenha foi feita graças a um exemplar cedido a nós pela editora Devir, a quem agradecemos a parceria.


Ficha Técnica


Título Original: コミック昭和史
Título: Showa: Uma História do Japão
Autor
: Shigeru Mizuki
Tradutor: Lidia Ivasa
Editora: Devir
Número de volumes no Japão: 4 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 17 x 24 cm
Miolo: Papel Offset 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 528 (sendo 16 coloridas)
Classificação indicativa: não divulgado
Preço: R$ 130,00
Onde comprar: Amazon / Mercado Livre

SinopseShowa 1926-1939: Uma História do Japão é o primeiro volume do retrato histórico meticulosamente pesquisado por Shigeru Mizuki do Japão do século XX. Este volume trata do período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, uma época de elevado desemprego e outras dificuldades econômicas causadas pela Grande Depressão. Quando a Era Showa começou, o próprio Mizuki tinha apenas alguns anos de idade, então suas primeiras memórias coincidem com os primeiros eventos do período. Mizuki traz a história para o reino do pessoal, tornando-a palatável e, de fato, atraente, tanto para o público jovem quanto para os leitores mais maduros. Ao descrever a militarização que levou à Segunda Guerra Mundial, a posição de Mizuki em relação à guerra é ponderada e muitas vezes francamente crítica – o seu retrato do Massacre de Nanjing pinta claramente o incidente (um tema controverso no Japão) como uma atrocidade. Showa 1926-1939 de Mizuki é uma história lindamente contada que acompanha como os desenvolvimentos tecnológicos e a mudança na estabilidade económica do país tiveram um papel na definição da política externa do Japão no início do século XX.


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