Biblioteca Brasileira de Mangás

Resenha: “A Princesa do Castelo Sem Fim”

Um novo Shintaro Kago

Em julho, a editora Pipoca & Nanquim publicou no Brasil o mangá A Princesa do Castelo Sem Fim, de Shintaro Kago, a quinta obra do autor no país, pela quarta editora diferente.

O título foi lançado originalmente entre o final de 2019 e o início de 2020 pela editora italiana Hollow-Press, nos idiomas inglês, italiano e japonês, e teve o sentido de leitura ocidental.

A versão da Pipoca & Nanquim, porém, compila junto o mangá As Doze Irmãs do Castelo Sem Fim, obra de 2021, também publicada pela Hollow-Press, e que revisita o mesmo mundo. Então, na edição brasileira, temos o “mundo completo” imaginado por Shintaro Kago para essa obra.


UM POUCO DE CONTEXTO


Uma das teses a respeito da existência de universos paralelos está galgada na ideia de que cada escolha que fazemos divide o mundo em uma linha diferente. Assim, ao escolher virar para a direita ou para a esquerda fará com um novo mundo nasça, assim como decidir ou não sair de casa em um determinado dia.

Entretanto, outra das ideias sobre universo paralelos também está ligada à tese de que todas as coisas acontecem ao mesmo tempo, isto é, você virar para a direita ou para a esquerda não é exatamente uma opção, as duas acontecem em dois mundos diferentes, que vão sendo bifurcados e bifurcados a cada nova ação.

Existem diversas outras formas de pensamento, algumas mais científicas outras apenas ideias mentais, mas a questão é que Shintaro Kago parece ter se guiado por uma dessas ideias para criar a história de A Princesa do Castelo Sem Fim, mas, obviamente, colocando sempre lá seus elementos surreais.


A HISTÓRIA


A Princesa do Castelo Sem Fim parte de uma tradicional história do Japão, a morte de Oda Nobunaga comandada pela rebelião de Akechi Mitsuhide, para criar um mundo de multiversos de possibilidades.

Na história original, então, a rebelião de Mitsuhide dá certo e culmina na morte de Nobunaga, mas o mangá reimagina isso fazendo com que o acontecimento dividisse o mundo em dois, um mundo em que Mitsuhide derrotou Nobunaga e um mundo onde Nobunaga derrotou Mitsuhide.

E o mundo é dividido num castelo, o castelo onde acontece a história. A partir daí veremos a história acontecendo simultaneamente nesses dois mundos, mas com mais destaque ao mundo em que Nobunaga foi morto, com a princesa Nou buscando sua vingança contra Mitsuhide.

Mas o mundo continua a se dividir, criando mais e mais castelos, ao mesmo tempo em que os castelos vão crescendo, crescendo e crescendo, daí o título do mangá.


DESENVOLVIMENTO


Shintaro Kago é um mestre em colocar cenas e tramas absurdas em suas obras. Tudo parece uma grande loucura desvairada, onde a realidade que nos acostumamos a estar parecesse estar completamente deturpada. Esse é seu estilo e é por ele que a gente gosta tanto de suas obras.

Mas ele também sempre coloca críticas sociais em meio aos absurdos que acontecem, como para dizer que o verdadeiro absurdo é o que os humanos fazem com seus semelhantes. Isso é algo que a gente nota em boa parte das tramas dele que tivemos a oportunidade de ler e não é diferente aqui.

Enquanto temos todo o absurdo dos mundos paralelos, com a luta da Princesa Nou, as torturas e tudo mais, um monte de coisa acontece no “castelo” para mostrar a maldade dos humanos. Certa parte da população é considerada indesejada, os governantes deixam o povo morrer de fome mesmo tendo alimento estocado, e coisas assim mais. O absurdo da ficção e o absurdo real se conectam e formam essa mensagem sempre presente nas obras do autor…

Apesar disso tudo, esse mangá fugiu demais das minhas expectativas e criou uma grande interrogação na minha cabeça, uma interrogação das grandes mesmo. O que a história queria passar? Onde acabaria a loucura dos multiversos?

Toda a sensação estranha que as obras dele passam parece ter se superado aqui, extrapolando o limite dos limites, não pelo grotesco (que nem tanto assim), mas pelo absurdo narrativo, temático, linguístico e artístico.

Sim, pois, se o autor é conhecido por gostar de experimentar, aqui ele parece ter excedido essas experimentações de um jeito bem maluco em todos os aspectos. A narrativa é diferenciada, o tema é estranho, etc, etc, etc.

E, evidentemente, o autor faz tudo de uma forma brilhante. Esse é um tipo de obra que nos desafia, que nos coloca a pensar muito mais por suas entrelinhas, por seu jeito de arte, do que por qualquer coisa.

Só que, se a gente não nega o fato de o autor ser excepcional no que faz e que fez, a gente também não nega que não é uma obra para todo mundo, pois seu estilo é surreal, até mesmo para quem já está acostumado com a surrealidade do autor.

Assim, a interrogação em nossa mente cresce mais e mais e em pouco tempo se transforma em chatice e a gente acaba lendo o mangá a contragosto. Há melhoras, há pioras, mas a obra não engrena em momento nenhum, por conta de toda a montagem que o autor fez, seja na primeira história, seja na segunda. Foi inevitável parar a leitura diversas vezes de tão chato que foi.

Então, A Princesa do Castelo Sem Fim é um mangá brilhante, mas ao mesmo tempo é uma obra com grande capacidade de desagradar a maioria dos leitores.


A EDIÇÃO BRASILEIRA


A edição brasileira de A Princesa do Castelo Sem Fim veio no formato padrão da editora Pipoca & Nanquim. Ou seja, ele foi lançado no tamanho 15 x 22 cm, com miolo em papel Pólen Bold 90g, colado e costurado, e capa cartonada com sobrecapa. Foram 284 páginas e o preço foi R$ 85,90.

Em questão de acabamento, nunca há o que se questionar da qualidade da Pipoca & Nanquim.  Sem dúvida alguma um mangá de extrema qualidade, com boa encadernação, bom papel, sobrecapa bem feita e com verniz localizado, etc, etc, etc. É um primor de qualidade.


CONCLUSÃO


Como dito, não há o que se comentar em relação à qualidade física do mangá, é um produto premium do padrão Pipoca & Nanquim. O problema é que o preço também é padrão PN, custando R$ 85,90.

Mas ok, o preço pode ser superado com promoções, só que é difícil superar a questão da história. Como dito, ela é inventiva, interessante, brilhante, só que é de uma chatice e quase ninguém irá conseguir gostar. Aí é difícil sequer pensar na possibilidade de adquirir o título.

Particularmente, não recomendo, a não ser para grandes fãs do autor (mas esses provavelmente já compraram o mangá).


Ficha Técnica


Título Original: 無限の城のプリンセス / Le Dodici Sorelle Del Castello Senza Fine
Título: A Princesa do Castelo Sem Fim
Autor
: Shintaro Kago
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Número de volumes na Itália: 2 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 22 cm
Miolo: Papel Pólen Bold 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 284
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 85,90
Onde comprar: Amazon

SinopseHá quase quinhentos anos, o grande senhor de terras Oda Nobunaga , um dos maiores responsáveis pela unificação territorial do Japão, foi emboscado e morto em uma rebelião liderada por um de seus principais vassalos, o general Akechi Mitsuhide . Mas e se não tivesse acontecido assim? E se o golpe de Mitsuhide tivesse na verdade aberto uma fenda no espaço-tempo, permitindo a materialização de todas as possibilidades, desde as mais simples até as mais absurdas? E se Nobunaga tivesse sobrevivido? E se ele tivesse sido morto, mas sua esposa, a Princesa Nou , organizasse uma grande vingança? Para cada situação há sempre duas possibilidades, que distorcem o tempo e o espaço e se materializam na forma de mais e mais castelos se bifurcando e crescendo infinitamente… A Princesa do Castelo Sem Fim apresenta uma visão ousada e inovadora sobre o conceito de “multiverso”, em uma história que se esbalda em experimentações gráficas e compõe, com um traço virtuoso e detalhista, os mais excêntricos pesadelos. Muito além de descrever os “e se” da história, Kago nos coloca nos momentos decisivos do Japão e propõe escolhermos sempre as opções que “não aconteceram” e as mais “impossíveis de acontecerem”. Lançado pela primeira vez em 2019 com o título original Mugen no Shiro no Princess , este é um trabalho experimental que Kago criou já planejando a publicação simultânea em japonês, inglês e italiano, o que justifica o sentido ocidental de leitura. Este volume traz também a obra As Doze Irmãs do Castelo Sem Fim (Okayama-jou no Juuni-shimai) , de 2021, uma história que expande o conceito de mundos bifurcados do multiverso do autor, também desenvolvida no sentido ocidental.


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