
Comentando minhas leituras
Na coluna desta semana comento as leituras dos mangás Centauros #03 (FINAL), KonoSuba! #19 e #20, além de outras obras. Vejam a seguir:
Centauros #03: cada volume da edição brasileira de Centauros pode-se dizer que é uma parte específica da obra. No volume #01 nós temos uma determinada história, falando de época em que os humanos capturavam centauros para a guerra. No #02 vemos uma época no futuro em que centauros e humanos já conviviam em paz, mas ainda tinham arestas a acertar e as coisas vão se desenvolvendo ao longo do volume.
Este terceiro volume é um arco do passado, mostrando Matsukaze e Kohibari (protagonistas do primeiro volume) e suas vidas antes de seu encontro e deixando-nos ver um pouco mais da vida dos centauros sem o contato dos seres humanos.
Aqui há algo interessantíssimo, pois nos mostra a passagem do tempo e a importância dos ensinamentos, mesmo em momentos de perigo. Acompanhamos Matsukaze crescer, aprender, se tornar um adulto, ter medos, culpa, raiva, enfim todo o processo até ele se tornar no conhecido Iwatori – O Ruivo, o centauro que contra-atacava os humanos.
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Nisso, essa passagem do tempo, as inquietações e as perdas geram em nós, leitores, uma grande gama de sensações e sentimentos, ficamos apreensivos, choramos com os personagens, aprendemos as lições de vida, tudo.
Em suma, Centauros termina sendo um mangá muito bom, que oferece três jornadas de leitura interessantíssimas, cada uma diferente da outra e com mensagens próprias, que nos emocionam e nos colocam para pensar. Gostei muito do título.
“Centauros” foi concluído no Japão em 6 volumes. No Brasil, o mangá foi lançado compilando dois volumes em um, totalizando 3 números.
Jovens Sagrados #04 e #05: para um mangá de vida cotidiana agradar, você precisa imergir na trama e gostar muito dos personagens, senão no primeiro contato, nos contatos subsequentes. Assim você consegue gostar muito de cada historinha aleatória que os personagens vão passando. Quando isso não ocorre, existe uma maior dificuldade em apreender o que está sendo contado e como resultado você pode acabar não apreciando a trama e deixar a obra de lado.
Jovens Sagrados é a história das férias de Jesus e Buda no Japão, então cada capítulo a gente acompanha os dois em algum momento (ida às compras, ao cinema, arrumando alguma coisa em casa, etc) e sempre fazendo comentários a respeitos de suas religiões ou dos seres presentes na mitologia deles. E como se trata de um mangá de comédia, existe todo um estranhamento característico, por conta de determinadas falas ou de certos acontecimentos que são mencionados.
Por exemplo, toda a imagem do cristianismo que a gente tem internamente faz com que muitos de nós levemos algumas coisas a sério demais e ficar pensando algo como “mas isso não é assim”. Como resultado, a gente perde um pouco da imersão da trama e o que ela quer falar. Esse é o grande desafio desse mangá.
Existem faltas de referências de nossa parte em relação ao budismo, existem coisas muito culturais do Japão que são de difícil compreensão, mas a principal dificuldade de imersão é justamente a oposição entre o contato que temos com o cristianismo e o que se passa no mangá.
Sim, pois, para compreender melhor a trama e rir das situações, você tem que ter um certo conhecimento das culturas cristã, budista e japonesa, mas nada disso adianta quando você vê uma coisa e não consegue rir por achar que algo está errado e que você não deveria rir, como, por exemplo, numa humanização de Lúcifer.
Ele é representado como mal e tal, mas ainda assim é uma figura humanizada e usada para a comédia, de maneira que se a gente não entrar de cabeça nisso, a nossa mente cristã irá questionar e algumas passagens a gente não irá rir…
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Dito isso, os capítulos muitas vezes são chatos. Isso porque os dois protagonistas comentam coisas sobre seu “mundo mágico” que parecem estranhas e a gente não consegue entrar na mente dos personagens e “torná-los nossos amigos” como costumamos fazer em outras obras slice of life. Nos demais momentos cotidianos, a coisa também não anda tanto assim e a gente acaba parando a leitura de tempos em tempos.
Como cada capítulo é independente isso não faz nenhuma falta. Mas ao contrário de obras boas em que a gente para a leitura para ela durar mais, aqui a gente para a leitura para poder descansar do tédio ou do estilo pesado, pois tem muito texto. Esse é o Jovens Sagrados até aqui.
Só que, apesar disso tudo, o mangá é legal, com aquele humor nonsense interessantíssimo que a Hikaru Nakamra faz muito bem. Tem passagens que a gente consegue genuinamente rir, como quando Jesus se perde ao andar de bicicleta, quando ele é preso por isso e Pedro o nega três vezes, a primeira vez que eles vão em uma loja de 100 Ienes, o aniversário do Buda, a ressurreição de Jesus, dentre diversas outras coisas.
A questão principal é que – como ela tem esse estilo diferenciado – uma leitura crua acaba deixando a gente sempre distante, então é preciso que a leitura seja mais contínua possível. Sim, pois quanto mais a gente lê mais a gente se encontra naquele mundo e aprecia um pouco mais a história e passa a achar menos estranho o funcionamento daquilo tudo.
Eu li os volumes #04 e #05 no mesmo dia e foi justamente o passar dos capítulos que me fez apreciar mais a obra, tanto que acabei achando o #05 muito melhor. Não acho que a história tenha mudado, foi mais a imersão que eu tive na trama mesmo. Ou seja, o passar do tempo fez o meu subconsciente deixar claro que era uma obra de ficção nonsense e muitas coisas acabaram se tornando mais engraçadas.
Ainda não foi possível transformar Jesus e Buda em amigos íntimos, mas já estamos conhecendo eles melhor e tudo tem ficado mais divertido de acompanhar…
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Particularmente eu acho muito bom que esses mangás diferentes apareçam e eu comemorei bastante o anúncio por ser uma obra da mesma autora de Arakawa Under The Bridge. No entanto, o mangá não me cativou por inteiro e aparentemente aconteceu o mesmo com outras pessoas, pois esse título não é tão comentado assim.
Por mais que a editora diga que a obra só deu uma parada e ela volta logo, sempre fica o medo de que isso não aconteça e ela acabe no porão da empresa junto com Loveless, Shakugan no Shana e outros títulos que pararam de sair e nunca mais voltaram.
“Jovens Sagrados” ainda está em andamento no Japão, atualmente com 22 volumes publicados. No Brasil, saíram 5 até o momento, o mais recente deles em dezembro de 2024.
Suzume #02 e #03: se você acompanha este site há muito tempo, sabe que eu já falei várias vezes no passado sobre como eu acho os mangás que adaptam os filmes de Makoto Shinkai melhores do que os próprios filmes. Isso vale principalmente para The Voices of a Distant Star (que melhora em muito a obra), mas também para diversos outros como O Jardim das Palavras ou 5 Centímetros por Segundo.
Desde Your Name., porém, os filmes de Shinkai tem tido um lado bem mais comercial (por assim dizer) e fazem com que a experiência visual e a história andassem juntas nas telas dos cinemas. Assim, as adaptações em mangá conseguiam no máximo emular a grandiosidade, mas não superar.
Com Suzume foi exatamente assim. O filme tem uma carga visual aliada à história que não foi possível de transpor de maneira melhor para os quadrinhos. Isso não quer dizer exatamente que o mangá ficou ruim, quer dizer apenas que a experiência foi diferente e menos brilhante do que a original.
Nesses dois volumes que concluem a história, a emoção esteve presente o tempo todo, com a viagem de Suzume a Tóquio, o reencontro com sua tia, a ida à cidade natal da garota buscando reencontrar Souta, entre outras coisas.
Denki Amashima consegue adaptar a história da melhor maneira possível (fazendo pequenas alterações aqui e ali, que não impactam no rumo da trama), mas – mesmo sendo um trabalho competente – não consegue chegar ao nível da animação,
O maior estranhamento é mesmo na arte, pois Amashima não tem um estilo visualmente tão bonito assim, principalmente na feição do rosto dos personagens.
Ainda assim, é uma boa experiência a leitura desse mangá, mas para quem viu o filme talvez seja mais do mesmo.
“Suzume” foi concluído no Japão em 3 volumes. Todos já saíram no Brasil
KonoSuba: Abençoado Mundo Maravilhoso! #19 e #20: os volumes #19 e #20 do nosso isekai de humor favorito foram muito divertidos como sempre, especialmente o volume #20.
No volume #19, há todo um plano de Kazuma para que o reino de Iris continue recebendo ajuda financeira. Entre falcatruas, prisões, uma luta contra um dragão e a derrota de mais um membro das forças do Rei Demônio, o plano é bem sucedido, não sem muitas cenas de humor (especialmente na prisão e num momento em que eles vão ao cassino).
Já no volume #20, após salvarem Iris, Kazuma e seu grupo ficam hospedados no castelo e, como é óbvio, a gratidão inicial deu lugar ao incomodo e todo mundo queria que eles fossem embora, mas no fim Kazuma acabou ficando resultando em mais problemas para ele e uma expulsão forçada.
O humor dessa série é muito bom realmente, mas ele só funciona porque o protagonista é um lixo de pessoa e as personagens à sua volta também são lá meio estranhas. Gostei muito que nesse volume até o próprio Kazuma percebe o quão horrível ele é. Ele muda depois disso? Claro que não, mas foi divertido ele perceber. No aguardo do próximo volume.
“KonoSuba: Abençoado Mundo Maravilhoso!” ainda está em andamento no Japão, atualmente com 21 volumes publicados. No Brasil, saíram 20 até o momento
Chainsaw Man #19: volta e meia Chainsaw Man é comentado nas redes sociais por conta de algum acontecimento que as pessoas superestimam (seja para criticar, seja para defender a obra) e nesse volume #19 nós tivemos um desses momentos que aconteceu na época em o capítulo foi lançado no site Shonen Jump +.
Aqui, Denji está totalmente para baixo, deprimido por conta de todos os acontecimentos recentes e que culminaram com o desaparecimento de Nayuta. No entanto, a simples possibilidade de ele poder transar faz com que sua mente mude e isso leva uma série de consequências…
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Eu acho particularmente espantoso como Chainsaw Man é um mangá esquisito. Eu gosto muito dele, gosto de algumas ideias (como a questão do poder de sumir com os medos, a pobreza nativa do Denji como parte de sua identidade, dentre outras), mas ao mesmo tempo o desenrolar é de um jeito tão estranho que a gente fica confuso em saber se está vendo algo bom ou ruim.
Não me parece que seja uma obra muito boa, mas também não é muito ruim. É um diferente que, da minha parte, acho muito legal de acompanhar. Enfim, tudo o que eu disse sobre o volume #18, vale para o #19 também…
“Chainsaw Man” ainda está em andamento no Japão atualmente com 22 volumes publicados. No Brasil, saíram 19 até o momento com o 20 previsto para outubro
Tradutores dos mangás:
Camilla Kanashiro
- KonoSuba: Abençoado Mundo Maravilhoso !! #19 e #20 (Panini)
Edward Kondo
- Centauros #03 (Conrad)
Erika Tanaka
- Jovens Sagrados #05 (NewPOP)
Felipe Monte
- Chainsaw Man #19 (Panini)
Natália Rosa
- Suzume #02 e #03 (JBC)
Thiago Nojiri
- Jovens Sagrados #04 (NewPOP)