
Mais uma coletânea…
Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45 é uma compilação de dois mangás de Shinobu Kaze (Violence & Peace e Government wo Motta Shonen), que possuem histórias escritas pelo autor entre 1977 e 1986, histórias estas que estão inscritas dentro do gênero gekiga.
Kaze começou sua carreira como assistente de Go Nagai (Devilman) e criava originalmente histórias curtas e cômicas, mudando seu estilo para algo mais maduro após ter contato com alguns mestres da arte dos quadrinhos e do cinema. Seu título mais famoso é Chijo Saikyo no Otoko Ryu (Ryu, O Homem Mais Forte da Terra).
Embora seja um artista pouco conhecido no Brasil (apenas aqueles otakus mais hardcore sabem de sua existência), Shinobu Kaze foi um dos primeiros mangakás e ter tido reconhecimento fora do Japão, em especial por conta de algumas de suas histórias terem sido divulgadas em revistas americanas.
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No Brasil, a primeira obra do autor a aparecer foi justamente Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45. Ela foi anunciada oficialmente pela editora Darkside Books em março de 2025 e o lançamento ocorreu em maio.
De minha parte, eu não conhecia Shinonu Kaze até a descoberta do lançamento no Brasil, tanto que as informações que passamos foram divulgadas pela própria Darkside Books, mas após a leitura desse mangá eu posso dizer que virei fã (ou pelo menos fiquei tentado a conhecer outras obras do autor).
Como acontece em boa parte das coletâneas de histórias, principalmente daquelas de autores que a gente nunca leu, eu comecei a ler o mangá às cegas, sem qualquer conhecimento prévio acerca dos temas e da arte do autor, apesar da sinopse da editora.
E o que eu posso dizer – como ficou claro na introdução – é que me surpreendi desde o início e, conforme a leitura das páginas e dos contos passava, mais eu me maravilhava positivamente. Mas vamos por partes.
Violência & Paz, o título principal do mangá, não é o nome de um dos contos da obra e sim uma espécie de temática que perpassa boa parte das histórias, muito embora também sirva para o primeiro dos contos do mangá “Homens Devem Ser Intrépidos”.
Neste conto, Shinobu Kaze conta a história de um Yazuka que busca ser o homem mais forte do mundo para ter uma espécie de tranquilidade. Mesmo conseguindo as armas mais poderosas, ele ainda não se sente seguro e sua busca incessante continua durante todo o capítulo, até ele conseguir a paz desejada, mas de um maneira muito diferente do que imaginava…
Esse conto é uma espécie de alegoria de como as pessoas (e o mundo) buscam a paz por meio da violência (fazem guerras, buscam ter armas em casa) e de como essa é uma ideia errônea e que só traz mais e mais desgraças e inseguranças.
Essa dualidade temática (Violência e paz ou violência como paz) está impregnada neste conto inicial, mas perpassa o mangá inteiro, também ocorrendo em outros da coletânea.
Em “Ouça a voz do fundo do seu coração”, por exemplo, temos uma narrativa em que as pessoas começam a se explodir do nada, gerando comoção e medo. Novamente é um conto que serve como uma grande alegoria do malefício das guerras causadas pelos próprios seres humanos e apresenta uma mensagem de que só o amor, só a paz verdadeira seria capaz de resolver.
Já em “Não consigo voar pelo espaço” acompanhamos a história de um rapaz que supostamente ganha poderes de seus sonhos e os usa para atacar os colegas que praticam bullying com ele. Aqui a história manda uma lição de que não adianta “estarmos no futuro”, se a violência permanecer do jeito que sempre foi.
O conto “O Exterminador” também fala dessa questão, mas de um jeito diferente, mostrando que o controle, que a ditadura também é capaz de causar a violência que diz querer combater. Neste conto, o governo cria um programa capaz de prever os crimes antes mesmos de eles serem cometidos, assim basta um mínimo pensamento de uma pessoa que o governo agia para acabar com ela.
Embora a suposta paz tenha sido alcançada, a violência existia a níveis altos, praticada unicamente pelo governo. Esse é um conto bem claro que mostra que a sociedade como um todo é que deve mudar, ver seus problemas, resolver seus conflitos, mas sem as amarras de uma repressão cruel e desumana.
“O Jovem com uma Government .45” e “Kachô Fugetsu” também falam da violência, mas igualmente de maneiras únicas. A primeira mostra como ela surge a partir do íntimo de uma pessoa, e a segunda mostra a destruição total da humanidade ocasionada pelo mundo.
Já “Coração & Aço”, “Reencarnação pelo amor” e ‘Ectoplasman” são histórias que fogem dessa temática, sendo mais intimistas, que falam sobre a percepção de si mesmo, de buscas por algo (“Coração & Aço”), ou mais fantasiosas, contanto histórias de amor a partir de elementos surreais.
Essas três histórias distam em temática, mas apresentam estruturas curiosas e tramas muito interessantes apesar de ir para o lugar comum em certos momentos.
Além de mensagens bem explícitas (explícitas mesmos) e implícitas, Violência & Paz é um mangá que agrada muito por seu estilo diferenciado de contar as história, tanto narrativa, quanto visualmente.
A bem da verdade, quando a gente começa a ler os contos, alguns acabam deixando certas dúvidas acerca do que realmente aconteceu e a gente precisa de um tempo para analisar adequadamente. Ainda assim, mesmo pensando e compreendendo, algumas narrativas parecem meio frágeis, sem nada de tão grandioso ou diferente, se desconsideramos a narrativa visual.
Sim, pois, uma das coisas mais chamativa é o estilo do desenhado ousado, surrealista, que faz as tramas ganharem características próprias e únicas, muito ao estilo experimentalista de Osamu Tezuka e Go Nagai.
Assim, o jeito de Kaze desenhar acaba compactuando bastante com o desenvolvimento de suas histórias, todas com elementos sobrenaturais e surreais.
Violência & Paz é um achado e poderíamos passar horas falando detalhadamente de cada conto, de cada percepção, de cada quadro. As histórias e o jeito de desenhar de Shinobu Kaze nos fascinaram do começo ao fim…
EDIÇÃO BRASILEIRA E CONCLUSÃO
A edição brasileira veio no formato 16 x 23 cm, com miolo em papel offset e capa dura com verniz localizado. São 288 páginas ao todo, sendo 29 delas coloridas. O preço é R$ 89,90.
É uma daquelas edições de luxo da Darkside, em tamanho maior do que o normal, mas sem o corte lateral colorido. Em resumo, é um produto bonito, daqueles que colecionadores gostam, mas o preço acaba afastando…
Apesar de eu ter adorado Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45 não acho que seja um mangá que eu posso aprovar com um selo de 100%, pois ele é um título bem atípico, sendo pouco convencional até para o pouco convencional, e – como dito – o mangá custa uma fortuna…
O que eu poderia dizer é que se você está cansado de shonen de lutinha, de mangá de romance, de mangá de samurai, de mangá de terror, e até mesmo de obras bem diferenciadas, aí sim você pode tentar ler essa obra, pois se trata de um título bem sui generis e que provavelmente não agradará muita gente que não esteja a fim de algo mais diferente e experimental.
FICHA TÉCNICA
Título Original: バイオレンス&ピース / ガバメントを持った少年
Título: Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45
Autor: Shinobu Kaze
Tradutor: Luiz Claudio Bodanese
Editora: Darkside Books
Número de volumes no Japão: 2 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 16 x 23 cm
Miolo: Papel Offset 90g
Acabamento: Capa dura
Páginas: 288
Classificação indicativa: 16 anos
Preço: R$ 89,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45 reúne nove histórias de Shinobu Kaze, criadas entre 1977 e 1986, que originalmente faziam parte de duas coleções: Violence & Peace e Government wo Motta Shonen, e utilizam o gekiga ― o estilo dramático e realista do mangá ― para provocar reflexões profundas sobre o corpo, o espírito, e o conflito entre o instinto humano e a ordem cósmica. Mesmo em meio a cenas de crueldade e brutalidade, Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45 preserva uma atmosfera sublime, imbuída de uma reflexão sobre as fronteiras entre o corpo, vulnerável a sofrimentos mundanos, e o espírito, dotado de potencial de se elevar e estabelecer sintonia com o cosmos.