
Você compraria mangás digitais? Não precisa responder, nós sabemos a resposta. A maioria das pessoas simplesmente não compraria de jeito nenhum, entre outros motivos por existir mangás gratuitamente por meios alternativos e não-oficiais e, principalmente, porque preferem o produto físico, em papel. Não é um pensamento exclusivo do mundo otaku. Isso ocorre com fãs de todo tipo de quadrinhos e, também, de livros.
Hoje viemos falar sobre a venda de mangás digitais e sobre a possibilidade de existir esse ramo de mercado no Brasil. Esse texto não tem o objetivo de convencer ninguém a parar de ler scans ou coisa do tipo. Tampouco ele tem o objetivo de te convencer a abandonar de vez o papel pelo formato digital. O nosso objetivo, na verdade, é mostrar a você que necessitamos de um mercado de mangás digital também, como um suporte ao meio físico, para oferecer às pessoas uma outra oportunidade de leitura. Também temos como objetivo fazer você, leitor de scans, perceber que nada mudará na sua vida se houver um mercado de mangás digital, afinal ninguém irá te obrigar a comprar o produto oficial. Peço a paciência de todos, pois a postagem é bem grandinha.
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PARTE 1 – VIABILIZAÇÃO
I
Primeiro falemos dos livros. Embora especialistas acreditassem que os livros físicos perderiam espaço para os digitais com o passar dos anos, a realidade mostra que ocorre exatamente o inverso. Pesquisa realizada ano passado mostra que houve um aumento nas vendas de livros físicos e uma diminuição na venda de digitais, nos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália.
Aqui mesmo, no Brasil, esta tendência se repete: em 2013, o Brasil apresentou um aumento na venda de livros físicos, mostrando que a era do papel ainda está longe de acabar. Mais recentemente, em uma reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo, novamente vemos esses dados e mais uma vez percebemos que o digital não irá ocupar tão cedo o lugar do impresso.
Nunca acreditei na ideia de que o livro em papel iria desaparecer algum dia. A evolução tecnológica que fez lps, cds e dvds tornarem-se obsoletos em pouco tempo não atingiu da mesma forma os derivados do papel. As pessoas ainda querem o produto físico, ainda querem armazenar os produtos em suas estantes e tê-los sempre que quiserem. E as pesquisas acima demonstraram justamente isso, o apelo do público para com o produto físico, palpável.
II
Agora vamos aos mangás. A questão é que a preferência das pessoas pelo produto em papel não inviabiliza o produto digital. O digital e o físico podem conviver mutuamente e com funções bem distintas. Seja um livro, seja um mangá, a obra digital possui uma função que as pessoas costumam ignorar: a praticidade.
Esse não é o único fator de praticidade. Em uma viagem é muito melhor levar um kindle ou um tablet do que volumes e mais volumes de livros ou mangás. Pense bem, o que é mais prático: levar os dez volumes de Lúcifer e o Martelo, correndo o risco deles amassarem ou serem extraviados, ou levar um kindle contendo o mangá completo? A resposta parece ser bem óbvia, não é mesmo?
III
O grande problema dos títulos digitais para o consumidor é realmente o seu preço, tanto no caso de ebooks, quanto no caso de mangás. Ebooks acabam sendo muito caros e nada indica que com mangás digitais isso seja diferente. Basta dar uma olhada na Amazon americana e comparar os mangás e sua versão digital para notar que os preços são muito próximos, às vezes iguais, outras até menor.
Entretanto, se o preço for acessível há sim pessoas dispostas a pagar pelo mangá digital. Em uma das pesquisas realizada pelo Evilásio Júnior, do extinto blog Anime portifólio, acerca do mercado nacional de mangá foi proposta a seguinte pergunta:
“Você compraria uma versão digital em vez de uma versão impressa de um mangá que você gosta, mas não adora, para liberar espaço na estante?”
Responderam a questão 181 pessoas e as respostas encontram-se a seguir:
Nota-se que realmente a maioria das pessoas não gastaria um só centavo em um mangá digital, todavia é importante destacar que o percentual de pessoas que disseram que comprariam é muito mais alto do que se poderia supor. Está certo que essa pesquisa teve uma amostra muito pequena, mas de qualquer forma fica demonstrado que realmente existem pessoas que comprariam o produto digital.
IV
Porém, a questão do preço alto permanece. Não adianta pessoas quererem comprar mangás digitais se o valor for alto demais, pois isso desestimula muito as pessoas. Então como fazer com que os produtos digitais não sejam tão caros? Há algumas forma de popularizar esse tipo de produto? É aí que entram iniciativas como o Crunchyroll mangás, o Kindle Unlimited, e o serviço brasileiro Social Comics.
O diferencial desse serviço é que a assinatura ainda permite ver todos os animes e doramas licenciados pela plataforma, o que faz com que seja um produto muito interessante e totalmente voltado para o público otaku.
Mais distante do nicho otaku, o Kindle Unlimited e o Social Comics também oferecem um sistema parecido em que, a partir do pagamento de uma assinatura mensal, você pode ler quantas obras quiser nos sites. O primeiro é mais dedicado a livros, porém também possuem mangás e o segundo é destinado a quadrinhos nacionais.
Se as editoras brasileiras lançassem mangás digitais em português e os colocassem no Kindle Unlimited, no Social Comics ou no Crunchyroll Mangá seria uma boa pedida para os leitores. Seja qual for a plataforma escolhida, os preços exorbitantes são superados por meio de uma assinatura mensal, em um sistema parecido com o Netflix, só que com mangás e/ou livros. Esse processo de assinatura acaba sendo uma opção muito melhor do que simplesmente comprar um título digital. É a forma mais perfeita possível para a criação de um mercado digital de mangás.
V
Nos Estados Unidos, os otakus já têm tanto a opção de comprar mangás digitais, quanto a opção de assinatura. A Viz possui um site para venda de mangás digitais e a Amazon também oferece alguns títulos nesse formato. Além, é claro, do serviço de assinatura dos já citados Crunchyroll e Kindle Unlimited.
Seria muito bom se no Brasil tivéssemos sistemas parecidos, mas a teoria é muito mais bonitinha do que a realidade dura e cruel. Conjecturar a hipótese de as editoras disponibilizarem suas obras em uma plataforma é muito legal, mas na prática, a implementação disso poderia ser muito complicado.
Não basta simplesmente as editoras quererem publicar as versões digitais de seus mangás. Elas precisam fazer toda uma nova negociação com o Japão para conseguir uma nova licença em relação a essa nova mídia e isso não é tão fácil de conseguir, ao menos é isso o que as editoras brasileiras têm passado para os leitores interessados no assunto.
Não colocamos em dúvida que a dificuldade para negociar com as grandes editoras japonesas deva ser realmente enorme, mas será que não daria para tentar com as editoras de menor expressão? Já está na hora de alguma editora brasileira bancar a ideia e ir mais afundo nessa proposta de lançar mangás digitais, no Brasil! Se há pessoas interessadas, ainda que poucas, por que não tentar? Precisaremos depender eternamente da pirataria?
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E eis que semana passada fomos surpreendidos com a notícia de que a editora Tambor lançou seus dois mangás 14º Dalai Lama e Gandhi em formato digital. Os dois títulos estão disponíveis na Amazon brasileira tanto para compra, como para leitura no Kindle Unlimited. Ok, esses títulos não se enquadrariam no que quase 100% dos consumidores consideram como mangá, mas mesmo assim é uma amostra de que é possível, sim, efetivar a publicação de conteúdo de forma digital.
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PARTE 2 – VENDA DE MANGÁS DIGITAIS E O PÚBLICO OTAKU
VI
Até aqui falamos de mangás digitais e da viabilização desse tipo de mídia. Do gosto das pessoas pelo físico e a diminuição do apreço ao digital. Contudo, estamos falando de um bem cultural no qual boa parte dos leitores está acostumado a consumir esse produto digitalmente de forma ilegal. E quando falamos em existir produtos vendidos digitalmente, muitas pessoas acabam se mostrando totalmente contra, movidos a preconceitos infantis:
“Mas para que pagar por mangás digitais, se existem gratuitos na internet? Além disso, se as editoras começassem a vender mangás digitais eles iriam querer acabar com os gratuitos e aí todo mundo perderia”
Esse é um raciocínio muito comum e muito errado a respeito da venda de mangás digitais. Vou começar a responder pelo segundo ponto. O raciocínio de que as editoras iriam querer acabar com a pirataria é errado por dois motivos principais: primeiro é que a ideia de vender mangás pelo meio digital serve apenas de acessório, um plus ao mercado e não serve como um objetivo de lucro vultuoso, afinal, como demonstrei no início do texto, a era do papel ainda não acabou e as pessoas preferem ter seus títulos em mãos, em volumes físicos.
Nesse sentido, a existência de um mercado de mangás digitais não irá eliminar os serviços alternativos. E o exemplo americano é bem claro. Mesmo com Crunchyroll mangá, Amazon Unlimited e serviços de venda como os da Viz, a pirataria de mangás ainda existe em profusão nos Estados Unidos. Quem quer pagar pode pagar, quem não quer pode continuar com o serviço pirateado.
Mas aí vem a primeira e tentadora questão: por que pagar por um produto digital mesmo existindo de graça na internet? Novamente eu toco na mesma tecla: por pura praticidade. Ter os títulos que eu quiser reunidos em um só lugar como Kindle ou o Crunchyroll é realmente algo que eu gostaria muito. Ter que ficar indo de site em site para ver se eles têm o título que eu quero é algo bem improdutivo e pagar pela praticidade de ter tudo reunido em um lugar me parece uma opção muito saudável.
Mas esse não é o único motivo, afinal há sites de scans bem completinhos por aí. A questão é que a leitura tanto Kindle, quanto o Crunchyroll é muito melhor. As páginas são trocadas com muito facilidade e agilidade, além de ter um excelente sistema de marcar exatamente a última página ou capítulo lido sem que você precise fazer absolutamente nada. Ou seja, se você parar a leitura em algum lugar você não precisará lembrar em que lugar parou pois os próprios aplicativos lhe mostrarão a última página lida.
“Ah, mas tal aplicativo pirata também faz isso….”
Eu sei e reconheço, mas o Kindle e o Crunchyroll são melhores por um motivo: a interconexão de dispositivos. Você pode estar lendo no computador e ter que sair para algum lugar e poderá continuar a leitura pelo celular sem ter que fazer qualquer esforço, sem ter que fazer nada, pois o que você ler em uma plataforma ficará marcado na outra. Tudo de uma maneira prática e simples.
Mas não é só a praticidade que me faz querer um mercado de mangás digital. A qualidade é questão fundamental. Já li várias obras por meio de scan que continham erros grotescos de tradução que alteram completamente a história. É possível que se você tenha lido um ou outro título em scan você o tenha entendido de forma errada justamente pelos erros de tradução. Por mais que existam bons scanlattor não há como você saber se a tradução deles é boa, não tem como saber se não cometeram erros grosseiros.
Por isso que um serviço digital de forma oficial é importante e desejável. Podem não ser infalíveis, mas ao menos seriam mais confiáveis.
Quanto a você, leitor, não se deve ter preconceitos, mas também não se deve comprar aquilo que você não quer. Se um dia tivermos um mercado digital de mangás no Brasil, nada mudará para você que prefere o mangá físico. Ele continuará a existir e você poderá continuar comprando suas coleções sem problemas. Do mesmo modo, nada mudará se você prefere scans. Eles continuarão a existir para você que não quer pagar por algo que “tem de graça”.
A questão aqui é que se precisa dar mais opção para as pessoas e, nesse sentido, um serviço oficial é extremamente necessário nos dias atuais. E se as editoras brasileiras não querem agir, fica a nossa torcida para o Crunchyroll conseguir licenciar mangás em português….
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Essa foi a nossa postagem de hoje… O que acha da questão? Será que o Brasil poderá realmente ter um dia um mercado de mangás digitais?
Biblioteca Brasileira de Mangás