
E uma aventura pela história da pornografia japonesa (?)
Se você comprou um ou outro mangá hentai publicado no Brasil, deve ter notado que a maioria deles vem censurada, não é? Mas por quê? Para responder essa pergunta é necessário entender duas coisas: 1. a censura japonesa e 2. a forma de produção dos mangás.
A Censura Japonesa
Começamos em 1907, quando apareceu a primeira lei japonesa banindo a pornografia, embora muito vaga. Na época o Império japonês estava se consolidando como uma potência mundial, várias mudanças estavam acontecendo dentro da sociedade japonesa e a política era autoritária, centrada na figura do imperador.
De fato, a censura do sexo foi apenas uma das muitas censuras, especialmente políticas, da época. Além da ilegalidade das imagens e desenhos pornográficos, prostituição e outras formas de venda do corpo foram banidas também. A única forma na época de ter acesso a qualquer pornografia ou serviços sexuais era via “mercado negro”, controlado pela Yakuza, a conhecida organização criminosa japonesa.
Embora não houvesse uma regra específica do que era ou não “conteúdo sexual”, o medo e agressividade das entidades governamentais acabaram extinguindo todas as formas de representação de quaisquer coisas remotamente relacionadas, como roupas íntimas, pelos pubianos, contornos corporais insinuadores, além dos óbvios, como genitálias, nádegas, seios, etc.
Anos depois após a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, uma nova constituição japonesa foi colocada em prática em 1947, que pregava o direito de expressão (por pressão de ninguém menos que os EUA), mas paradoxalmente a lei de censura foi incluída sem nenhuma alteração.
Desde então essa contradição tem sido o palco de diversos processos jurídicos entre um lado que deseja uma liberdade de expressão plena (incluindo o direito de fazer e consumir pornografia) e o outro lado tradicionalista que considera tais assuntos inadequados e vergonhosos.
Em 1976, entretanto, houve uma vitória contra a censura: após ter tido seu filme erótico “Ai no Korrida” banido do Japão, o diretor Nagisa Oshima entrou na justiça e ganhou, criando precedente legal para várias outras obras. Entretanto ainda assim não houve uma delineação legal do que era ou não permitido.
Nos próximos anos vários casos parecidos foram parar na justiça, alguns apoiados pela população, e aos poucos a linha invisível ficou cada mais mais tolerante.
Foi só por volta de 1990 que vários livros e revistas começaram a aparecer com conteúdo erótico em enormes quantidades, ousando cada vez mais. Foi neste momento, por exemplo, que o boy’s love explodiu, com já algumas publicações especializadas em girl’s love (yuri) e a consolidação do lolicon, shotacon e men’s love (bara).
Curiosamente, embora os temas e sexualidades tenham se expandido e multiplicado agressivamente, a lei continua vigente e o resultado disso são as tarjas, mosaicos e “clarões” estratégicos – no fundo uma desculpa esfarrapada para dizer que não está quebrando a lei.
Por outro lado, faz tanto, mas tanto tempo que as coisas são dessa forma (mais de 100 anos!) que é estranho para eles a ausência dessas censuras, mesmo quando são meramente simbólicas. Ver as versões ocidentais é geralmente um choque, é indecente!
De fato, existem vários autores que praticamente não utilizam mais tarjas ou essas tarjas viraram linhas, filmes e animes também têm casos de ausência total de censura e o governo nunca se deu ao trabalho de prender ninguém. Ainda assim a esmagadora maioria ainda não passa do “ecchi” e utiliza muita censura. As histórias e cenas são até criadas em torno dessas censuras, que acabam se confundido com o estilo, com o que é ser hentai.
É ainda mais curioso que da mesma forma que eles ficam escandalizados com a gente, constantemente o Ocidente fica escandalizado com eles. No final de 2009, por exemplo, a ONU (através de um de seus muitos comitês) pediu a “proibição da venda de videogames ou quadrinhos envolvendo estupro e violência sexual contra mulheres”. Já no final de 2015 outra representante da ONU pediu que fosse proibido mangás com “conteúdo extremo de pornografia infantil”.
Esse tipo de “pedido” até gera conversa e discussão na sociedade japonesa: em 2010, por exemplo, houve vários debates sobre a criação de leis de proibição, mais de 100 mangakás, alguns renomadíssimos – como Rumiko Takahashi, Moto Hagio, Mitsuru Adachi, Takao Saito, Fujiko Fujio A, Ken Akamatsu e vários outros –, foram nas cortes japonesas fazer discursos contra a proposta de lei. Sim, autores de shounen, shoujo e até kodomo (literaturas infantojuvenis) foram lá defender e lutar pelo direito de fazer lolicon e outros.
No final a pressão contra a lei foi tão grande que simplesmente deixaram esse assunto para depois e soltaram a lei focando-se nas fotos e vídeos de crianças reais. No Ocidente a decisão foi muito criticada, mas o Japão está feliz e sorridente com seus muitos hentais.
A forma de produção dos mangás
Ao pensarmos em tecnologia, Japão é quase um sinônimo, mas não quando o assunto é mangá. Em se tratando da produção de mangás no Japão a coisa ainda é muito analógica, as editoras em si são digitais e tudo mais, mas a produção dos autores é toda na mão, o material finalizado é então escaneado e voilà.
Alguns autores também nunca chegam a desenhar as partes censuradas, a censura já é feita durante a produção e desenho. Mais do que isso, a história é criada envolta das tarjas, é parte do estilo. O mesmo acontece com as onomatopeias (on’yu) que são desenhadas e incluídas à mão.
Existe, entretanto, alguns autores que fazem as histórias sem a censura, exatamente prevendo a exportação ao exterior, sendo que as editoras quem acabam censurando para lançar no Japão. Outros refazem pedaços da arte para lançamento no Ocidente. O mesmo acontece com filmes e animes.
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No fundo a pergunta correta não é “Por que o Hentai chega censurado no Brasil?”, é “Por que o Hentai é feito censurado?”.
As censuras e diversas estratégias de “tapar” são parte do que significa ser hentai, mangás pornográficos e eróticos seriam muito diferentes se não houvesse esse detalhe crucial. O que não significa que em alguns anos o estilo possa mudar e se livrar desses mosaicos e tarjas, mas enquanto a lei da censura ainda existir no Japão, é difícil imaginar qualquer mudança assim.
Desmistificando é uma coluna semanal, lançada nas quintas-feiras, sobre o mercado e mangás brasileiros e internacionais. Você pode ver todas as outras postagens anteriores desta coluna aqui. Sugestões e comentários também são sempre bem-vindos! 🙂
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