O Vlog Otanippon publicou no Youtube o vídeo completo da palestra da JBC no Anime Friends, com a presença de Cassius Medauar e Marcelo del Greco. Ele possui informações bem interessantes que todos deveriam ver para compreender um pouco sobre como funcionam as negociações com os japoneses. Sugiro a todos que assistam ao vídeo na íntegra que possui uma hora e vinte minutos de duração. Porém, caso não queiram o ver por inteiro e/ou não tenham paciência, detalharei abaixo algumas informações importantes e interessantes.
Caso não conheçam o Vlog Otanippon deem uma olhada no canal deles no Youtube. É um dos melhores conteúdos em vídeo sobre cultura pop japonesa que eu já vi.
II
O que postaremos aqui não está na ordem que aparece no vídeo e sim em uma ordem que consideramos mais importante:
Papel e qualidade
Cassius Medauar foi enfático: o papel bright 52g teve que ter uma mudança de marca, pois o que utilizavam antes era importado e as empresas tinham parado de trazer do nada. Só que mesmo com a mudança de marca a editora correu o risco de não ter nenhum título em julho, pois não tinham papel. Mas virando-se aqui e ali, eles conseguiram.
Em vista disso, eles tiveram que alterar o papel de Limit e Terra Formars para offset. Cassius enfatizou novamente que foi preciso conseguir uma aprovação do Japão, pois até mesmo o tipo de papel em que será publicado fica disposto no contrato.
Outro ponto importante que foi dito é que a editora tinha por objetivo uma melhoria de qualidade dos mangás ao longo do tempo, colocando ora papel offset, ora um papel bright de gramatura ainda maior que o 52g. Ao que parece, a editora pretende experimentar daqui em diante diferentes gramaturas também de papel offset.
Freezing
Os spin-off não devem sair, ao menos não por enquanto. Segundo foi dito, Freezing não vende tão bem ao ponto de se trazer os spin-offs. Os editores deram a entender que o mangá apenas consegue se sustentar no mercado e não traz grandes lucros para a editora.
Marcelo del Greco informou um detalhe interessante. Quando a JBC fechou o contrato de Freezing havia previsão do título ser encerrado no volume 10. Porém, como o mangá fez sucesso no Japão, o mangá se estendeu. Em resumo, a editora apostou em um mangá curto que acabou sendo bem maior do que eles imaginavam.
Spin-offs
Com a fala sobre Freezing, ficou bem claro que para a JBC trazer spin-offs é necessário que a obra principal venda muito bem. Conseguem imaginar o quão sucesso foi Death Note para eles terem trazido até mesmo as novels? E Another então?
Death note e Bleach
A JBC queria lançar Death Note e Bleach, porém a Shueisha pediu à editora que escolhesse qual dos dois títulos a editora mais queria e, à época, escolheram Death Note.
Terra Formars e Tokyo Ghoul
Caso semelhante aconteceu recentemente, quando a editora se viu obrigada a dizer quais dos dois títulos mais queria: Terra Formars ou Tokyo Ghoul. A JBC preferiu Terra Formars.
Importante: não entenda isso como a JBC ter querido um e não outro. Pelo que ficou evidente no vídeo, a editora manda anualmente para a Shueisha uma lista de títulos para serem negociados. Na lista dessa leva, havia Terra Formars, Zetman e Tokyo Ghoul e a editora colocou em ordem de preferência os dois primeiros.
Não deixaram publicar
Uma editora demonstrar interesse em um título não significa que ela conseguirá. A JBC já havia tentado Terra Formars anteriormente, mas os japoneses negaram a licença. Foi dito que isso é muito comum de acontecer e citaram o caso Akira de que o autor simplesmente não queria deixar publicar.
Relação com a Shueisha
Marcelo del Greco disse que a Shueisha costuma dar preferência para Panini aos títulos de maior sucesso, basicamente pelo fato de a editora ter Dragon Ball em seu catálogo (acho que hoje em dia por causa de Naruto e One piece também, mas isso eles não falaram). Isso não significa que a JBC nunca mais vai publicar um sucesso da Shonen Jump, significa apenas que as chances dos títulos serem dados a Panini são muito maiores.
Previsão de Lançamentos
Savanna Game: previsão para agosto
Combo Rangers e O cão que guarda as estrelas 2: ambos têm previsão para ser lançado em setembro durante a Bienal do livro do Rio de Janeiro.
Robô esmaga: previsão para novembro durante a FIQ de Belo Horizonte.
Another e Parasyte: sem previsão, mas será lançado ainda no segundo semestre.
Akira: previsão para dezembro, durante a CCXP. Mas ainda não está certo se sairá até lá.
Ghost in the shell: sem previsão. Deram a entender que talvez nem saia este ano. Quando sair não deve ter periodicidade. Como são três volumes independentes lançarão um cada seis meses mais ou menos. O material deve vir com acabamento mais luxuoso e, portanto, mais caro…
Mais sobre Ghost in the shell
Cassius e Marcelo comentaram que a Kodansha ainda não enviou os arquivos para a edição e, portanto, a produção ainda não começou. A ideia inicial era lançar Ghost in the shell em julho, mas não foi possível por esse motivo. Segundo eles contaram, a proposta da JBC era lançar Ghost in the shell no formato japonês (com leitura oriental), porém após estar tudo acertado a editora japonesa estranhamente perguntou qual edição de Ghost in the shell eles queriam: a versão original ou a versão editada da Dark Horse (com leitura ocidental).
A editora enfatizou o desejo de lançar a versão original, pois a versão da Dark Horse ainda por cima não era completa. Os japoneses verificaram a situação. Disseram que não possuíam os arquivos da versão original e que entrariam em contato assim que conseguissem. Se passaram dois meses sem qualquer sinal deles…
Japoneses e os arquivos
Casos como o de Ghost in the shell não são raridade. Citaram que os arquivos enviados para a primeira edição de A sakabatou de Yahiko foi uma xerox da revista shonen jump e a JBC teve que mandar para um estúdio reconstruir tudo.
Marcelo del Greco citou que Variante (da Nova Sampa) só saiu porque a tradutora conseguiu encontrar os exemplares do mangá em um sebo no Japão, pois a editora japonesa simplesmente não possuía nem os arquivos digitais e nem os exemplares. Situação semelhante aconteceu com Ranma e outros títulos.
***
A palestra foi bem interessante e novamente reitero o bom trabalho de filmagem feito pelo Otanippon. O vídeo (e a palestra em si) é importante para sabermos o quão complicado é a publicação de um mangá no Brasil. Quem imaginaria que os japoneses não teriam em seus arquivos os mangás de Ghost in the shell? Eu pelo menos não imaginava.
O que eu também não imaginava é o fato de a editora ter que detalhar em contrato até mesmo o tipo de papel utilizado. Ficou provado que o mercado de mangás é bem mais complicado do que qualquer um pode imaginar.
Há muito mais no vídeo. Só destaquei o que considerei mais importante. Tente conseguir um tempinho e veja o vídeo por inteiro.
Biblioteca Brasileira de Mangás
