Biblioteca Brasileira de Mangás

Minha birra com mangás nacionais

Os pontos que considero serem muito falhos na indústria nacional

Vou começar ressaltando que está é minha opinião pessoal dos mangás nacionais, do que me incomoda ou me parece mal-aproveitado.

A depender da obra em questão, há muito que dá para discutir, desde artes que parecem “amadoras” demais, completa falta de noção dos detalhes de um mangá (enquadrações e angulações, efeitos visuais, onomatopeias, efeitos de movimento, uso de retículas, uso de estilos de balões) e outros problemas de narração. Muitos desses provenientes da falta de experiência, falta de acesso à informação, falta daquele editor apontando erros e mostrando onde melhorar que os japoneses têm. Mas honestamente, não é isso que mais incomoda, há outros pontos que há muita falha que particularmente acho que já estava na hora de mudar.

Se você não tem o que fazer e fica lendo os posfácios dos mangás, entrevistas e blogs de autores japoneses, o que você mais vai encontrar é posts e textos sobre pesquisas e estudos. A maioria dos artistas e autores brasileiros não parecem entender a importância de estudar e esboçar o mundo em que irão trabalhar. Imagine uma série nos moldes de Card Captor Sakura, que não é necessariamente pesada em ambientes. Mesmo numa série dessa as autoras tiveram que definir a cidade onde aconteceria, esboçaram a escola da menina, definindo exatamente o que teria ou não, tamanho, dimensões; a casa dela foi desenhada de verdade, é a mesma casa em todos os volumes, mesmos móveis, mesmo design, mesma quantidade de quartos; e por aí vai.

A importância disso? Além de uma questão de uso inteligente do ambiente, já prever locais para certos acontecimentos, há toda uma continuidade, a casa não muda todos os capítulos, parece artificial ou vira apenas plano de fundo. Um estudo inteligente do ambiente a ser usado torna a história mais real, os acontecimentos mais lógicos, deixa de ser apenas um fundo de certos quadros e passa quase a figurar como um personagem inanimado. Uma cena de luta numa casa bem pensada  significa movimentos mais fluidos, ao contrário de certos quadrinhos onde no meio da briga o personagem começa a atirar e pegar itens que previamente não estavam ali. Ou o personagem se move e de repente está do lado de fora. Movimento e a sensação cinematográfica é o que significa ser mangá!! Entenda, Tezuka é conhecido por ser o pai do mangá exatamente por essa sacada, simplesmente teletransportar seu personagem de um lugar para o outro te deixa no mesmo nível da Turma da Mônica, não que seja ruim, mas não é mangá.

E não é apenas nesse quesito que há necessidade de estudo, você previamente deve estudar vestimentas, armas, expressões faciais, personagens e qualquer coisa recorrente da sua história. Todos os detalhes, como se movimentarão, como reagirão, temperamentos, personalidade, deve ser tudo pensado. Para fazer todos esses estudos é necessário quilos, não, toneladas de pesquisas.

Essa falta de pesquisa é muito óbvia nos mangás nacionais. Vai fazer uma história com plantas? Tá na hora de pesquisar botânica. Na época vitoriana? Pesquise até a cor do sapato da época. Não que não haja uma liberdade autoral, mas só dizer que aquilo aconteceu em tal lugar e em tal época não funciona. Sem estudos e pesquisas sua história não passará o ar que você almeja, ao invés passará aquele ar infantil e amador. Mesmo que decida criar um mundo e época, você precisa criá-los de fato, definir mapas e áreas. Pegue Game of Thrones, se o autor não tivesse definido as casas e mapas desde o começo a obra não teria a mobilidade e fluidez que tem.

Pesquisa e estudos vão muito além de objetos e localidades, movimentos também são muito importantes. Autores que trabalham com obras de luta, esportes e similares têm coleções absurdas de fotos de atletas e lutadores em milhares de posições, exatamente para passar movimentos verdadeiros, palpáveis, com a emoção do esporte. Slam Dunk não seria o sucesso que foi sem esse detalhe da movimentação fluida dos personagens, da emoção dos jogos.

Além do velho Google, que nem sempre é o bastante, autores devem estar preparados para procurar em bibliotecas, buscar pessoas especializadas naquilo, sair com sua câmera e tirar fotos para todo lado, encontrar pessoas que façam aquilo, como um esporte, e acompanhar treinos, jogos, etc. Infelizmente esse cuidado e trabalho de obra é algo que poucos fazem, ou fazem bem-feito. Um grupo que faz com muito cuidado é o Studio Seasons, isso fica claro em Helena, obra baseada em Machado de Assis, que nos apresenta um mundo palpável, estável e factível para a época. Dizem que o Diabo está nos detalhes, de fato, uma obra bem-feita tem todos os detalhes em harmonia, em Helena os armários e prateleiras dos planos de fundo são autênticos, tem o ar de “casa de vovó”, rs.

Aqui vem minha segunda crítica, a preguiça de estudar e pesquisar acaba criando ambientes e mundos artificiais, irreconhecíveis. Logo não é possível se identificar com aquilo proposto. Isso já é um problema porque os autores insistem em fazer fantasias em mundos inexistentes e totalmente aleatório, sem nenhuma base real ou pelo menos uma base pensada. Só porque o mundo não existe, não significa que não possa ser baseado em algo e logo deva ser estudado. É esse cuidado na criação que criam mundos icônicos e que às vezes fazem mais sucesso que a obra em si. A ideia do mundo Steampunk, por exemplo, você já deve ter ouvido falar, mas que obra deu à luz esse mundo ou pedaços específicos dessa realidade, você sabe?

Fundos baseados em fotos reais da área de Tóquio, clique para ver maior.

Mas voltando ao problema de identificação. Pode ser novidade para você, mas a maioria dos mangás que se passam no Japão acontecem especificamente em certas cidades e ao fundo é possível reconhecer pedaços específicos desses locais. Em Fort of Apocalypse, por exemplo, o autor usa pedaços de Tóquio e suas regiões vizinhas para criar problemas e soluções na movimentação dos personagens. É como criar um mangá acontecendo em São Paulo e usar localidades específicas como o Minhocão e as estações de metrô para navegar a cidade e conseguir soluções.

E por que fazer isso? Porque envolve o leitor. Um ataque zumbi em São Paulo, para um paulista, é uma obra onde ele pode se identificar muito mais e realmente ver os personagens se movimentando. Ele pode acompanhar os personagens utilizando sua própria cidade e localidades para escapar das situações e hordas de zumbi, não simplesmente ficar aguardando a próxima invenção totalmente conveniente que o autor trará para o mapa.

Envolver o leitor com sua própria realidade é uma estratégia batida, porém efetiva. Você encontra em músicas, Luiz Gonzaga, por exemplo, escreveu músicas sobre diversas cidades brasileiras; nos seriados americanos, cada série de detetive se passa em diferentes cidades: Chicago, Nova Iorque, Miami, Washington, etc; o mesmo ocorre nos mangás, em cidades como Tóquio e Quioto. Quem nunca reconheceu uma cidade brasileira num filme estrangeiro e imediatamente se conectou com a obra? Aquele sentimento de familiaridade com o que está sendo mostrado?

Essa identidade cultural e espacial vai além de simples mapas, está na linguagem, nas piadas com nossa língua, costumes e cultura que apenas um mangá brasileiro conseguiria trazer para um brasileiro. E é aqui onde ele tem a vantagem frente aos mangás japoneses ou de sei lá onde; apenas um mangá brasileiro seria capaz de envolver o leitor nesse nível e mergulhá-lo totalmente naquele mundo.

Ironicamente, até hoje, não vi nenhum mangá nacional que se aproveite dessa grande vantagem. Os autores insistem em fazer obras em cidades genéricas, em mundo genéricos, sem nenhuma profundidade ou qualquer detalhe que os torne palpável e factível. Na verdade, é mais fácil até achar mangás brasileiros se passando no Japão, quer dizer, no que ele acha que é o Japão, ou se propondo a por japonês nas páginas sem qualquer razão, apenas pela vibe de “japonês”, cometendo erros óbvios e gravíssimos.

Por quê?! Por que alguém iria se propor a produzir algo num mundo no qual não conhece nada e arriscar produzir uma obra falha e artificial? As melhores histórias saem daquilo que mais temos experiência e afinidade. O autor de Samurai X (Rurouni Kenshin) praticava kendô, o autor de Slam Dunk praticava basquete, o autor de Ajin não sai dos shooters… Quanto maior sua afinidade naquilo que você se propõe, mais preparado estará e mais facilmente trará insights que ninguém mais será capaz. E é esse momento que a sua obra ganha vantagem sobre todas as outras.

Qual a minha birra com os mangás nacionais? Despreparo, desvalorização da pesquisa e estudo, completa artificialidade e falta total de identidade brasileira. Autores que insistem em criar mundos “medievais”, “japoneses” ou lugares totalmente genéricos, sem qualquer originalidade ou memorabilidade.

Se você conhece um mangá brasileiro que faz seu dever de casa direitinho, aproveita e indica aí! 🙂

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