
Você talvez possa não saber e sequer imaginar, mas os mangás shoujos foram e ainda são muito importantes para o desenvolvimento da sociedade japonesa. E é sobre isso que essa postagem irá tratar. Para entendermos o quão importante é a cultura do mangá shoujo no desenvolvimento social japonês, precisamos relembrar a história do próprio mangá e a sociedade onde tal ocorre.
Os mangás como conhecemos hoje, com suas revistas e formato típico, começou com homens, pessoas como Osamu Tezuka e seus predecessores. Eram eles quem produziam os mangás para garotas, os chamados shoujos. O resultado disso eram obras que apresentavam o ponto de vista patriarcal de como uma mulher devia se portar e se tornar, reflexo da sociedade da época em que mulheres deviam crescer para se tornar mães e donas do lar. Quando eram obras de heroínas e mulheres “guerreiras”, as histórias eram afastadas do dia a dia das leitoras, sempre em mundos fantasiosos, com personagens que nunca buscavam o amor ou seus próprios sonhos, algo bem distante e inatingível.
Com o fim da 2ª Guerra Mundial, o aumento das publicações e boom da economia, algumas mulheres tiveram a oportunidade de entrar no mercado, na maioria das vezes usando pseudônimos, e as coisas começaram a mudar. Oprimidas pelo ideal masculino e patriarcalismo japonês, essas mulheres colocaram nas páginas de suas obras toda sua ousadia, força e determinação. Autoras como Riyoko Ikeda, de Rosa de Versalhes, e outras do chamado Grupo do ano 24 (Nijuuyo-nen Gumi), como Moto Hagio, Yumiko Oushima e Keiko Takemiya, desafiavam tabus e normas da sociedade repetidamente em seus trabalhos, dando voz às mulheres e influenciando suas leitoras com histórias maduras e profundas.
O shoujo passou a ser a casa de mudanças, autoras (e alguns autores também) começaram a questionar o papel de gêneros na sociedade, as definições do que era ser mulher, estimulando que entrassem no mercado de trabalho, que batalhassem pelos seus sonhos. Foi também nos shoujos que os primeiros personagens homossexuais apareceram, realmente escandalizando a sociedade da época; onde as primeiras mulheres independentes eram protagonistas e onde viver pela família às custas de seus sonhos não era prioridade.
Foi nessa categoria que surgiu os primeiros mangás com toques de boys love (yaoi) (na época chamados de shonen-ai) e os primeiros de yuris (na época shoujo-ai). Até mesmo hoje, shoujos continuamente discutem a sexualidade da mulher, a homossexualidade, a visão de gênero, cross-dressers, o desejo de independência financeira, a desconstrução do casamento arranjado (que por muitos anos era a norma) e a valorização da mulher como igual.
Posteriormente suas autoras começaram a produzir joseis, explorando ainda mais a sexualidade, com o surgimento do boys love propriamente dito, pornografia diretamente direcionada para mulheres. Outras passaram a produzir seinens e quebrar as barreiras do gênero mais uma vez, agora impactando a vida das gerações masculinas também. Uma nova geração de autoras que cresceram lendo esse shoujo passaram a entrar no ramo, inclusive produzindo shounens, que até então eram exclusividade masculina.
O mangá shoujo, mais do que o produto final de entretenimento, foi e ainda é uma revolução cultural que não só molda a si próprio, mas toda a indústria de mangá e anime. As autoras e leitoras dessa demografia contribuíram para diversas mudanças sociais, começando com a educação de crianças e jovens. E atualmente tornando tal separação por gênero ultrapassada, já que mulheres representam uma porcentagem considerável do total de leitores de shounen e seinen.
Por outro lado, essas autoras também exploraram diversos tipos de traços, ferramentas de expressão e técnicas de desenho, fazendo do shoujo um gênero rico em estilos únicos dentro do mercado japonês.
Por mais restrito que seja o público leitor de fato das publicações shoujo, é inegável a importância do mangá shoujo na indústria japonesa e sua influência vai muito além do seu número de vendas.
* * *
Para nosso desgosto, no Brasil, clássicos são uma coisa rara, clássicos shoujo então… Felizmente pelo menos uma editora, a JBC, lançou no passar dos anos séries mais datadas, mas muito importantes na evolução do gênero demográfico:
Sailor Moon: A mãe do “mahou shoujo” (garotas mágicas), foi a série que solidificou o tema. Colocando as mulheres como heroínas em situação de ação, sem perder seu lado feminino e, ainda por cima, retratadas como garotas comuns, não diferentes das leitoras. A série também quebrou tabus com a presença do crossdressing e personagens claramente homossexuais.
Cardcaptor Sakura: Outro mahou shoujo importante, conseguiu trabalhar as ideias de Sailor Moon e trazer ainda mais reconhecimento ao novo gênero, reconhecido pelo forte foco no desenvolvimento dos personagens e seus sentimentos, ao invés o romance em si, atípico para o seu período e que serviu de referência para toda uma geração de obras. Além de apresentar uma heroína forte e ao mesmo tempo sensível, insegura e sonhadora, a série adentrou os gêneros shoujo-ai e shounen-ai da época.
NANA: Além da história realista que trabalha a maturidade e desejos de uma jovem mulher começando sua vida independente, NANA se destaca por ser uma das únicas obras do gênero shoujo a ter alcançado a casa dos milhões de cópias por volume, igualando-se ao poder de alcance dos grandes nomes do shounen, apenas ultrapassada por Chibi Maruko-chan, um shoujo para o público infantil. A série claramente discute a situação social da mulher no Japão através das duas Nanas, sem esconder sua sexualidade e ambições.
A Princesa e o Cavaleiro: Um marco histórico de Osamu Tezuka, foi um dos primeiros a trabalhar o crossdressing e as definições de gênero, mas sem muito aprofundamento. A obra, entretanto, serviu de base para várias outras histórias como as duas abaixo.
Rosa de Versalhes: Além de um enorme sucesso de venda, muito acima do que se esperava do gênero na época, Rosa foi importantíssimo no desenvolvimento do shoujo, de uma demografia imatura e infantil, para algo mais maduro e sério. A série foi o primeiro shoujo de uma autora que apresentou cenas sexuais, também utilizou-se extensamente de violência e realismo atípicos nos shoujos da época, além de ter trabalhado gêneros e sexualidade com seus personagens andróginos.
Utena: Ou Shoujo Kakumei Utena, foi um dos primeiros mangás shoujos a flertar abertamente a homossexualidade das personagens principais e questionar as definições de gênero de forma mais madura. A série também é uma crítica ao shoujo da época, preso nas fantasias, conto de fadas, príncipes encantados e intrigas românticas, desconstruindo-o totalmente.
- Outros trabalhos e autores clássicos e importantes no desenvolvimento do gênero que um dia esperamos ver no Brasil:
Keiko Takemiya: A mãe do boys love (yaoi), figura de importância inegável no desenvolvimento do gênero, além de trabalhar temas de ficção científica. Destaque para sua obra: “Kaze to Ki no Uta“.
Moto Hagio: Figura importantíssima, criadora daquele estilo de olho cheio de “brilho e glitter”, conhecida por trabalhar shoujo e ficção científica, até então atípico para o gênero; também explorou personagens de diversas sexualidades, inclusive personagens assexuais; além de ter sido uma enorme influência no gênero ao trazer temas maduros, profundos e realistas. Possui um catálogo imenso, destaque para: “They Were Eleven” (Juuichinin Iru!) e “Poe no Ichizoku“. A autora ainda pública séries até hoje.
Erica Sakurazawa: Autora de enorme importância no desenvolvimento do shoujo maduro e surgimento dos joseis, além da exploração da homossexualidade feminina voltada para o público feminino. Obra de destaque: “Love Vibes”.
Quem sabe no futuro a própria JBC se arrisque a continuar a trazer essas obras-chaves da história do mangá shoujo, por isso mesmo não deixem de apoiar o futuro lançamento de Rosa de Versalhes!.