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A morte necessária e inevitável em Lúcifer e o Martelo

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Hoje é dia de análise de um dos mangás mais queridos por nós…

Ontem fizemos uma postagem sobre mangás desconhecidos, no qual citamos alguns títulos que no Brasil eram um tanto quanto desconhecidos, mas que gozam de popularidade no site My Anime List e um dos títulos citados foi o mangá Lúcifer e o Martelo, de Satoshi Mizukami. A obra não era muito conhecida do público brasileiro e foi muito subestimada inicialmente (existindo até postagens de alguns blogs falando que se tratava de mais um shonen genérico), mas a história terminou por agradar muita gente e provou ser um título de respeito e qualidade inquestionável.

Hoje viemos fazer mais uma experiência em nossos textos. Queremos realizar uma análise de um mangá destacando apenas um ponto específico da obra e escolhemos Lúcifer e o martelo como cobaia. Realizaremos uma análise desse mangá destacando um dos temas fundamentais do título: a questão da morte.

Atenção: A ANÁLISE É DESTINADA A QUEM JÁ CONHECE E LEU A OBRA, POIS CONTERÁ TODOS OS SPOILERS DO MUNDO!

Preâmbulos e sinopse

Lúcifer e o martelo ou Hoshi no Samidare foi publicado originalmente nas páginas da revista seinen Young King Ours, da editora Shonen Gahosha, entre 2005 e 2010 e rendeu, ao todo, 10 volumes encadernados. Na história acompanhamos a luta entre a Princesa Anima e a ordem dos cavaleiros das feras contra o feiticeiro Animus e a ameaça dos bonecos de barro e do Biscuit Hammer.

Certo dia, o protagonista Yuuhi Amamiya acorda e se depara com um lagarto falante na sua cama chamado Noi Crescent. Ele convoca Yuuhi a se tornar um serviçal do anel, lutar contra os bonecos de barro ao lado dos outros cavaleiros, proteger a princesa e evitar que o “martelo de biscoito” destrua a terra. Amamiya não acredita e joga o lagarto pela janela.

Yuuhi jogando Noi Crescente pela janela

Porém, a história dos cavaleiros mostra-se verdadeira e Yuuhi é obrigado a aceitar a realidade e se transformar no cavaleiro de lagarto. No entanto, a narrativa não é uma simples luta de bem contra o mal: ela é mais complicada do que se supunha e surge uma terceira frente de batalha. Amamiya une-se à princesa Samidare – coincidentemente ou não, sua vizinha – em um plano bem mais ousado: salvar o mundo da destruição para depois eles mesmos o destruírem.

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Fórmulas e histórias

Lúcifer e o martelo é um mangá que, à primeira vista, parece realmente seguir a fórmula das típicas histórias de aventura e de luta de bem contra o mal. Porém, a narrativa logo de cara dá um tapa na cara nas expectativas do leitor e mostra que não é apenas isso, desenvolvendo-se de uma forma muito mais madura e interessante.

Isso mesmo: ao contrário do que possa parecer, Hoshi no Samidade não é simplesmente uma história sobre salvar o mundo, é antes uma história sobre o crescimento e o amadurecimento dos personagens. Trata-se de uma narrativa sobre o que é “ser adulto” e do como “se tornar adulto”. Capítulos e mais capítulos, frases e mais frases, acontecimentos e mais acontecimentos são dispostos pura e simplesmente para construírem a relação dos personagens e irem demonstrando, pouco a pouco, o seu amadurecimento.

Nesse sentido, as mortes em Lúcifer e o martelo são pontos importantes na narrativa. Embora a comparação seja injusta, por se tratarem de obras diferentes e com propósitos diferentes, Lúcifer e o martelo em muito se distância de um mangá como Dragon Ball, por exemplo.

Na obra de Akira Toriyama, as mortes ocorrem como resultado das lutas entre os mocinhos e os vilões; por sua vez, as que ocorrem no mangá de Satoshi Mizukami são quase todas consequências da inter-relação entre os personagens. Nenhuma morte é gratuita. Cada uma delas tem uma razão de ser e um significado no enredo e na vida dos personagens. Mesmo a morte “final” é o resultado dessa inter-relação e não propriamente da luta em si. As mortes querem te dizer alguma coisa, te mostrar uma situação ou um aspecto da humanidade, são mortes necessárias e inevitáveis. Essa diferença é uma das coisas que fazem Lúcifer e o martelo ser uma obra quase perfeita. Dito isso, quais e como foram essas mortes? Qual o impacto dela para os personagens e para a história? Vamos ver agora…

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A morte de Hangetsu Shinonome

Os dois primeiros volumes de Lúcifer e o martelo são emblemáticos para conhecermos a personalidade do depressivo estudante universitário Yuuhi Amamiya. O protagonista não possui amigos e está inteiramente preso aos traumas de infância provocados por seu avô que o impedia de ter amizades. Yuuhi não se importa com nada e sequer aceita a incumbência de salvar o mundo.

A presença da princesa Samidare e posteriormente do cavaleiro de cachorro Hangetsu Shinonome começam a minar as correntes que prendiam Yuuhi e o rapaz vai, aos poucos, deixando de ser um jovem complexado e depressivo, e passando a sorrir mais para o mundo. Contudo, essa mudança não é fácil e muitos acontecimentos perpassam essa quebra das correntes. Yuuhi é uma pessoa extremamente infantil até esse ponto da história, procurando os meios mais sórdidos para que seus objetivos sejam cumpridos, pensando até mesmo em arquitetar a morte de Shinonome para evitar que ele seja um obstáculo para o plano de destruição do planeta orquestrado por Samidare.

Yuuhi não executa a ideia e sequer a planeja, porém o cavaleiro de cachorro acaba sucumbindo no campo de batalha, sacrificando-se para salvar Amamiya de um ataque dos bonecos de barro. A morte de Shinonome é um divisor de águas, um ponto necessário, inevitável e muito impactante para o rumo da história. Seu sacrifício é completamente inesperado e coloca uma marca no cavaleiro de lagarto. Um tanto desorientado, Yuuhi não entende a atitude de Shinonome e as correntes de seu passado acabam afrouxando-se um pouco mais pelo gesto de amizade e heroísmo de Hangetsu.

O boneco de barro acertando em cheio Hangetsu Shinonome

Boa parte do crescimento e amadurecimento de Yuuhi passa por essa morte. É como se o mangá dissesse a nós, leitores, que para crescermos realmente precisamos passar por tristezas inesperadas, por golpes duros e, também, por demonstrações de amizade verdadeira. Yuuhi só compreende o quanto Hangetsu era seu amigo após sua morte, só o reconhece como amigo após o seu falecimento.

Porém, a morte de Shinonome é significativa para a história em diversos outros níveis. A derrota final de Samidare está também relacionada ao prematuro fim de Hangetsu. Além da diminuir a personalidade infantil de Yuuhi, a morte de seu amigo também lhe dá poderes para enfrentar a princesa (quase) de igual para igual. Pouco antes de morrer, Hangetsu deseja que suas técnicas sejam transferidas para Amamiya e este acaba tornando-se mais forte, talvez O mais forte entre os cavaleiros… Yuuhi é, desde o princípio, o único que poderia dissuadir a princesa de destruir o planeta, o único que poderia salvá-la, porém ele não tinha qualquer força para se proteger, menos ainda para derrotar Samidare.

A morte de Hangetsu Shinonome tem mais impactos na histórias. Em uma espécie de efeito borboleta inúmeras relações e variados acontecimentos não teriam vez se o cavaleiro não tivesse perdido a sua vida. Talvez a única coisa a lamentar seja o não desenvolvimento do romance entre Hangetsu e a professora Asahina, mas mesmo esse desfecho triste tem uma função na história como todos sabem:  a mudança do futuro para que nem o feiticeiro Animus, nem sua irmã Anima nasçam…

A morte de Inatika Akitani

Desde o volume 3, quando aparecem pela primeira vez as estudantes Subaru e Yukimachi, respectivamente cavaleiras de galo e tartaruga, ficamos sabendo que Inatika Akitani, cavaleiro de Peixe-espada, havia falecido em combate contra um boneco de barro. Contudo, as circunstâncias de sua morte e o motivo de isso acontecer só são desvendados no quarto volume.

Akitani é um ser especial que teve o privilégio de viver 500 anos, possuindo inúmeros poderes antes mesmo da guerra contra o biscuit hammer começar. Praticamente um imortal, ele se sacrifica para salvar suas discípulas e sucumbe para provar a elas que ele e os demais não passam de seres humanos: não importa quem você é, ou o que faça, todos acabarão sucumbindo a esse destino final, de uma forma ou de outra.

O cavaleiro de peixe-espada sendo atingindo ao proteger suas discípulas

Akitani, já sabendo que morreria na batalha contra o sexto boneco de barro, queria demonstrar para Subaru e Yukimachi o que era a morte, mas no final o seu verdadeiro legado foi a humanidade de todos os seres envolvidos naquela batalha. Mesmo Animus, o grande inimigo e criador dos bonecos de barro, não poderia ser outra coisa que não um ser humano como outro qualquer.

A morte de Akitani era inevitável e necessária para o rumo da história, tanto que prestes a morrer e sem ainda ter feito o seu pedido, ele se nega a pedir a cura dos seus ferimentos, atestando que o maior desejo da humanidade – a vida ininterrupta – pode não ser tão desejada quando você é um adulto e a experimenta.

A morte de Taro Kusakabe

A morte de Hangetsu Shinonome teve um peso muito grande para Yuuhi Amamiya e para a princesa Samidare. Já a morte de Taro Kusakabe, o cavaleiro de Rato, obteve uma experiência semelhante para os demais cavaleiros. É ali que a maioria dos personagens entende o quão perigoso é a luta e o que significa enfrentar os bonecos de barro e o feiticeiro. E, principalmente, é ali que alguns deles descobrem o que é o amor e a amizade…

Apaixonado por sua vizinha e amiga de infância Hanako Sorano, Taro se joga na frente de um ataque e se sacrifica para salvar o seu amor. Kusakabe, como o próprio mangá diz, toma uma atitude digna de um herói de verdade, pois ele já havia desejado que se Sorano fosse ferida gravemente, ela deveria se curar imediatamente, e mesmo assim ele se jogou na frente do ataque para proteger a sua amada.

Taro e Sorano sendo atingidos pela lança do boneco de barro

Apesar dessa morte ter um impacto emocional em todos os personagens, ela é necessária e importante na história especificamente para três pessoas: Hanako Sorano, Taiyo Akane e, novamente, Yuuhi Amamiya. É a partir da morte de Taro que Yuuhi se empenha mais em treinar e se tornar forte. Ter deixado o seu amigo morrer significou para ele um grande baque, pois foi ali que ele percebeu de modo mais enfático que os poderes herdados de Shinonome não seriam suficientes por si só para que ele pudesse derrotar o inimigo. Sem essa morte, Amamiya não teria ficado forte o suficiente para enfrentar todos os demais cavaleiros ao mesmo tempo e, posteriormente, derrotar e salvar Samidare…

Já Hanako Sorano era uma pessoa muito fria e sem desejos para o futuro até aquele ponto da história e o sacrifício de seu amigo de infância a fez “acordar” e a mudar o rumo de sua vida. Sorano torna-se mais amigável com os outros cavaleiros e abraça para si os anseios de seu amigo de infância, decidindo se tornar uma cozinheira. O mangá mostra mais uma vez que às vezes é preciso um choque de realidade, às vezes é preciso passar por diversas provações, para que as pessoas possam começar a amadurecer.

Por fim, o grande impacto ocorre com Taiyo Akane. É a morte de Taro que faz Akane – até então aliado do feiticeiro Animus – perceber o que poderia lhe acontecer e temer um fim trágico como o do cavaleiro de rato. Embora aos poucos já estivesse sendo balançado pelos encontros fortuitos com outros cavaleiros, foi a morte de Taro o grande iniciador de sua mudança que se concretizaria pouco tempo depois ao descobrir o seu poder de cura e ao derrotar sozinho um dos bonecos de barro…

A morte do avô de Yuuhi

As três mortes anteriores foram resultado da amizade e do amor dos cavaleiros por seus companheiros. Eles se sacrificaram na tentativa de salvar os seus amigos, morreram como heróis de guerra em combate e serviram cada um a um propósito distinto. A morte do avô de Yuuhi é diferente e, por isso mesmo, uma das mais interessantes no mangá. Ela é necessária para demonstrar duas coisas importantes no enredo: a mortalidade de todos os seres humanos, independente de lutas contra feiticeiros e bonecos de barro; e o total amadurecimento de Amamiya.

Como já foi dito, Yuuhi possuía muitos traumas decorrentes do período de dez anos em que viveu com seu avô. Ele o impedia de ter amigos e repetia incessantemente para que o menino se afastasse das pessoas. Yuuhi tinha ódio por seu avô, porém ao visitá-lo no hospital ainda nos primeiros capítulos do mangá ele usou o desejo –  que tinha direito por lutar contra os bonecos de barro –  para salvá-lo, naquele momento se encontrando à beira da morte. Assim foi feito e o avô de Yuuhi foi salvo.

Apesar disso, Yuuhi não tinha perdoado o seu avô completamente. Era nítido que o rapaz o evitava sempre que possível, inclusive não atendendo telefonemas. Contudo Yuuhi cresce e torna-se capaz de ligar para seu avô e conversar com ele. A luta contra os bonecos de barro seguia firme e forte e sem perdas humanas, porém no oitavo volume do mangá, eis que a morte bate a porta e o avô de Yuuhi falece atropelado por um caminhão.

Um simples acidente. Sua morte é para isso mesmo, mostrar que acidentes acontecem e que o ser humano é mortal. Você não precisa arriscar sua vida em uma batalha, inevitavelmente sua morte acontecerá de uma maneira ou de outra.

A reação de Yuuhi ao acidente, entretanto, é bastante madura. Enquanto Noi acha injusta a morte do avô, visto que Yuuhi havia usado o seu desejo para salvá-lo, Amamiya está bem centrado e pensa ser natural esses infortúnios do destino. Nesta altura da história ele já é um bom adulto, ele já está ciente de sua missão de ser o salvador da Samidare e quase não havia mais resquícios de sua personalidade distorcida do início da história…

A morte de Animus

A última morte vem para colocar um ponto final na luta do bem contra o mal. O fim de Animus vem para demonstrar que mesmo as crianças mais mimadas um dia terão que enfrentar a realidade e compreenderem que não são onipotentes. A guerra entre Animus e Anima era uma guerra infrutífera em que uma pessoa adulta buscava retirar os limites e os sonhos absurdos de uma criança megalomaníaca. Animus julgava-se um deus e queria, a todo custo, o maior conhecimento do mundo, destruindo a terra inúmeras e inúmeras vezes até conseguir chegar ao início de tudo.

Por se considerar um deus, Animus achava-se protegido de tudo e não imaginava que pudesse ser derrotado por ninguém. Sua morte vem provar que não existem deuses, que Animus, assim como os demais participantes da batalha, é um mero ser humano, falível e passível de ser morto.

A morte de Animus era necessária e inevitável para dar mais visibilidade à diferença entre adultos e crianças. Enquanto um verdadeiro adulto, Inatika Akitani, recusou-se a fazer um pedido para continuar vivendo, em seu oposto, a criança megalomaníaca, Animus, estando prestes a morrer desejava continuar vivendo, mesmo após ter vívido séculos e séculos.

A imortalidade é um desejo que apenas pessoas não amadurecidas desejam e o mangá deixa isso bem mais claro com a atitude de Anima após a derrota de seu irmão. Ela, ao ver assegurada a paz da terra, também decide falecer e gozar do descanso eterno. Ela é uma pessoa adulta por natureza e sabe que era e sempre será humana apesar dos seus poderes e o seu destino final também deveria ser o de todo mortal. E essa diferença entre Anima e Animus é realmente a síntese do mangá Lúcifer e o Martelo, a diferença entre ser adulto e ser criança…

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Comentários Finais

Ser criança ou ser adulto não é uma questão de idade e sim de pensamentos e atitudes. No mangá, Nagumo – cavaleiro de Cavalo – dá uma demonstração interessante a esse respeito ao exaltar a estratégia montada por Subaru e Yukimachi para destruir os bonecos de barro. Não fosse o comprometimento e a ideia delas, talvez a ordem dos cavaleiros das feras não tivesse conseguido derrotar tão facilmente o último inimigo. Subaru e Yukimachi são crianças, mas instruídas pelo “Mestre” tornam-se pessoas bem maduras e com ideias consistentes, enquanto Animus era um adulto com alma de uma criança super mimada, e sem um mestre seu maior desejo era a destruição da terra e a vida eterna…

Importante mencionar também que a diferença entre ser adultos e ser criança é demonstrada de outras formas também e não somente na diferença de atitude entre a Anima e o Animus. A mudança de Yuuhi do primeiro volume para o último é sensacional e deixa bem clara essa diferença entre uma personalidade infantil  e uma personalidade madura.

Entretanto, não devemos reduzir Lúcifer e o martelo a apenas nessa questão do amadurecimento e da morte. Há várias e várias questões abordadas durante o mangá que podem e devem ser exploradas mais afundo, e que renderiam horas e horas de discussão, páginas e páginas de texto.

Lúcifer e o martelo é um mangá quase-perfeito em termos de enredo, narrativa, referências e desenvolvimento de personagens. É uma obra que todos deveriam ler, principalmente se você está cansado de battle shonens genéricos…

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Essa foi a nossa postagem de hoje. Todas as imagens foram retiradas do Crunchyroll Mangás. Se você não comprou Lúcifer e o martelo, mas sabe inglês e possui uma assinatura do Crunchyroll, você pode lê-lo clicando aqui.

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