
Um mundo surreal…
Parasitic City é um mangá de autoria de Shintaro Kago e começou a ser publicado originalmente na Itália, pela editora Hollow-Press, em 2022 e ainda segue em andamento, atualmente com 3 volumes publicados, além de 3 extras.
A Hollow-Press, para quem não conhece, é uma empresa italiana que costuma contratar alguns autores japoneses para criarem alguns mangás e os lança em três idiomas simultaneamente, o italiano, o inglês e o japonês. Há também mangás sem texto.
Kago já havia publicado com a editora anteriormente com Industrial Revolution and World War (2015, inédito no Brasil), Tract (2016, inédito no Brasil), A Princesa do Castelo Sem Fim (2019/2021, publicado no Brasil pela Pipoca & Nanquim) e Dia da Cabeça Voadora (2017-2019, a ser publicado pela Tábula), mas Parasitic City além de ser sua obra atual é a mais longa até então.
Shintaro Kago publica um volume por ano, mas antes do livro principal (160 páginas e em preto branco) é também lançado um extra de poucas páginas (chamados de volumes Os), sendo todas coloridas, Assim antes do volume #01, saiu o 0.1; antes do #02, saiu o #02; e antes do #03, saiu o 0.3.
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Conrad em março de 2025 e ela começou a publicá-lo em setembro do mesmo ano, com o lançamento do volume 0.1 na coleção HQ Para Todos, com 32 páginas e lombada canoa. Fizemos uma resenha desse volume (clique aqui para ler).
Em março de 2026, a Conrad publicou o primeiro volume da série principal. Agora com 160 páginas, todas em preto e branco e um tamanho enorme. E é dele que viemos falar agora.
Parasitic City acontece em um mundo fantasioso em que reencarnação existe e certas determinações do budismo são reais e conhecidas por todos, assim as pessoas sabem que precisarão reencarnar diversas e diversas vezes, e acumular pontos nessas vidas para, eventualmente, atingir a iluminação e sair desse ciclo.
Nesse ínterim, tudo é controlado pelo governo (?!), existindo ministérios, checagem de pontos, dentre diversas outras coisas. Além disso, se uma pessoa comete crimes, ela começa a passar a mal e, dependendo da gravidade da coisa, a polícia chega em instantes, dando mais liga nesse ambiente todo vigiado.
Fora isso, um dado importante é que todos sabem também que as reencarnações, via de regra, são aleatórias e em sua próxima reencarnação não necessariamente você nascerá humano, podendo vir a existir, por exemplo, como um parasita…
E em Parasitic City móveis, carros e próteses são feitas a partir de criaturas vivas, de parasitas, sendo criados em “fazendas” e vendidas normalmente para todos. Assim, como existe toda essa questão de vidas passadas e tudo mais, quando algum “biomóvel” apresenta determinadas falhas as pessoas até mesmo pensam que tal biomóvel foi algum bandido em outra encarnação.
Essas são as linhas básicas do mundo criado por Shintaro Kago.
Na história acompanhamos duas pessoas em específico, Matsuya Heidegger, um comandante da Tropa de Choque do Escritório de Segurança Pública do Ministérios dos Três Cadáveres (i.e: responsável por prender as pessoas que cometem crimes), e Culkin Strauss, um chefe da linha de produção de biomóveis, ligado ao Ministério dos Organismos.
O primeiro é um homem que combate o crime e participa de investigações, mas também é uma pessoa privilegiada, capaz de lembrar de suas vidas passadas e de “manter seu status” em suas novas existências. Ele é alguém que tem acesso a certas “falhas” do sistema, que conhece pessoas “importantes” e que consegue “comprar” pontos para si, daí o seu status.
O segundo, por outro lado, é alguém comum, que não vê sentido nos sofrimentos do dia a dia, que acha horrível a quantidade de vezes que terá de reencarnar e, em meio a isso, e ou por causa disso, pratica certas maldades para com as pessoas.
O que acompanhamos na obra, então, é um conjunto de acontecimentos estranhos acontecendo, com Matsuya buscando investigar, enquanto Culkin (alheio a isso ou não) faz seus pequenos crimes e sofre as consequências do mundo.
Embora as descrições do mangá possam parecer um tanto quanto insossas, a verdade é que Parasitic City é um mangá brilhante.
O volume #0.1 já havia sido bem intrigante, com uma grande loucura desvairada acontecendo e gerando mais dúvidas do que respostas (só dúvidas na verdade). Já o volume #01 deixou o mundo mais claro (ficamos sabendo tudo que Shintaro Kago montou) e começou a contar uma história mais linear, ainda que com uma loucurinha delirante de sempre.
Assim, a gente acompanha um mundo muito bem criado, com ótimos detalhes e tudo embasado no budismo e outras crenças, ao mesmo tempo em que vemos uma história de suspense e investigação se desenrolar e que fica mais e mais emocionante a cada página lida.
Eu não consigo relatar a vocês de maneira eficiente o quanto esse primeiro volume é legal, mas eu posso dizer que vale muito a pena a leitura.
E eu só não digo que é o melhor mangá de Shintaro Kago que eu já li para não superestimar as expectativas de vocês. Pois o ideal é você mergulhar na história sem muita ânsia….
A questão é que o mangá tem um quê de diferente, o que é comum ao autor, com uma inventividade marcante, ao mesmo tempo em que vemos (de maneira sub-reptícia ou até de maneira exposta) críticas aqui e ali a um estilo de viver, a um jeito do mundo, que torna a obra bem chamativa e digna de leituras e estudos mais aprofundados.
Por exemplo: está tudo bem todo o universo ser controlado pelo governo? Está tudo bem todo mundo ter que viver milhares de vidas para sair do ciclo do sofrimento? O mundo fantasioso de Shintaro Kago faz uma reflexão sobre o nosso próprio mundo: apenas os mais abastados podem obter a felicidade?
Por fim, é importante dizer que se trata de um mangá +18 mesmo. Tem cenas bem eróticas, sem censura, e que pode deixar muita gente desconfortável, com as poses, o sexo, etc.
Mas esse é o estilo do autor e muito disso é o que agrada em sua obra, com determinados choques que o leitor leva em meio à crítica social…
A EDIÇÃO BRASILEIRA
A edição brasileira de Parasitic City veio igual ao original italiano no tamanho 21 x 29,7 cm. É um tamanho enorme, um dos maiores mangás publicados no Brasil e que, salvo engano, só perde para os mangás do Louvre da Pipoca & Nanquim.
Ele tem capa cartão simples (sem orelhas e sem sobrecapa) com verniz localizado e miolo em papel Offset (aquele branco). São 160 páginas ao todo, todas em preto e branco e em sentido de leitura ocidental. O preço é R$ 99,90.
FICHA TÉCNICA
Título Original: Parasitic City
Título: Parasitic City
Autor: Shintaro Kago
Tradutor: Edward Kondo
Editora: Conrad
Número de volumes no Japão: 3 (ainda em publicação)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 21 x 29,7 cm
Miolo: Papel Offset
Acabamento: Capa Cartão
Páginas: 160
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 99,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Parasitic City apresenta um mundo distópico em que os pecados das pessoas são controlados por parasitas e as almas e reencarnações em vidas futuras podem ser compradas, desde que você tenha acumulado pontos Haramitsu suficientes. Neste mundo, uma série de incidentes estranhos, aparentemente sem conexão, chamam a atenção de Matsuya Heidegger e Vishnu Deridda, funcionários dos Ministérios dos Três Cadáveres e dos Organismos, respectivamente. Parasitic City é uma mistura de referências filosóficas, temperada com os princípios de algumas das maiores doutrinas religiosas orientais e o estilo inconfundível de Shintaro Kago, mestre indiscutível do Ero-Guro.