
I
Em mais uma manhã sem ônibus em minha cidade, aproveitei para ver alguns vídeos no Youtube e me deparei com um canal chamado Comix Zone, de um canadense-brasileiro fanático por mangás e quadrinhos. No vídeo mais recente, ele mostrava a edição francesa de Hokuto no ken e contava alguns detalhes da história. Sobre o vídeo em si, não há muito o que falar, mas um comentário de um dos expectadores me chamou a atenção, por ser o tipo de fala corriqueira de um consumidor comum, que não entende e nem busca compreender a dinâmica do mercado de mangás:
O ponto que me chamou a atenção é a pessoa insinuar que as editoras não dão chance a outros mangás por causa do relançamento de uma série de sucesso. É bem evidente os equívocos de pensamento, mas é possível que alguns leitores do blog pensem de forma semelhante, então resolvi elucidar, de forma resumida, essa questão^^.
II
As editoras de mangás são empresas. Como toda empresa elas querem ter lucro. Se Naruto está em sua terceira publicação no Brasil e Cavaleiros do Zodíaco está na quarta significa que esses dois mangás são lucrativos e possuem um público consumidor cativo ou seu público é renovado com o tempo, justificando a criação de novas versões desses mangás.
Nunca se deve esquecer que os dois títulos tiveram animação exibida na televisão e foram febre em nosso país, fazendo-os ficar no imaginário das pessoas mais do que outras séries. Não será surpresa, portanto, se após a conclusão de Naruto Gold, a Panini anunciar uma quarta versão. Também não será surpresa se daqui a alguns anos, após o kanzeban de Cavaleiros do Zodíaco terminar, a JBC lance uma outra.
É a coisa mais normal do mundo e não há nada de errado com isso. Se os mangás vendem e dão lucro para as editoras, elas têm todo o direito de fazer quantas novas versões elas quiserem. Isso não é ruim para o consumidor e não o afetará negativamente em nada. Pelo contrário, o sucesso dessas séries pode ser extremamente benéfico, pois quanto mais lucro a editora tiver, mais autonomia financeira a empresa terá, podendo trazer mais e mais mangás, talvez até mesmo aquele título super complicado de trazer que o consumidor queira.
Em outras palavras, reclamar que a editora está trazendo uma série de sucesso é o mesmo que reclamar da existência de um mercado de mangás no Brasil. Se ela quer comprar mangás em língua portuguesa, ela deve querer que as editoras tenham lucro e se para isso elas precisam republicar séries de sucesso, que seja assim, então quanto mais Naruto e Cavaleiros do Zodíaco, melhor.
III
As pessoas falam de Naruto e Cavaleiros do Zodíaco de um modo como se as empresas só lançassem eles e isso não é verdade. Nos últimos dois anos, entre mangás, light novels e databooks, foram lançados cerca de 150 obras novas. Ainda que boa parte deles seja bastante curto, é um número bastante alto. Desses, menos de 10 pertenciam às franquias de Masashi Kishimoto e Masami Kurumada. Além disso, todos os meses há pelo menos 30 volumes de mangás em publicação, desses no máximo 3 delas pertencem a essas franquias.
É um número tão ínfimo e irrelevante que não faz qualquer sentido a pessoa reclamar da vinda de novas versões dessas séries e dizer que as editoras não investem em obras novas, sendo que elas estão dando sempre oportunidades a novas séries. A pessoa simplesmente enxerga o que ela quer e não a realidade que se mostra aos olhos dela. O que parece é que a pessoa pega sua rejeição ou indiferença a essas séries e acha ruim a publicação delas, como se estivesse “roubando” a vaga do seu título preferido. Quem não se lembra do chilique dos leitores quando a Panini anunciou Naruto Gold?
Mas não é nada disso, leitor. Se os mangás que a pessoa gosta não vieram para o Brasil ainda é mais por falta de editoras, do modo como elas trabalham, com periodicidades muito curtas, ou da imaturidade do mercado, com poucas obras longas e falta de variedade. Não é uma ou duas franquias que são responsáveis pelo título preferido do consumidor não vir ao Brasil…
***
Em tempo (1): É claro que se as editoras só ficarem relançando obras, ficará mais difícil ainda a vinda de obras, porém essa não é a nossa realidade. Temos alguns relançamentos, mas temos muito mais títulos inéditos…
Em tempo (2): Cassius Medauar, da editora JBC, já disse que tentou publicar Hokuto no ken, mas segundo ele não existe licença aberta para o Brasil. Se isso é verdade ou não, não temos como saber, mas acreditando nas palavras dele, esse mangá já deveria estar sendo publicado no Brasil, mas não está porque os japoneses ainda não liberaram a licença. A reclamação da pessoa do print perde ainda mais sentido…
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