Desmistificando: Estaria o Mercado realmente maduro?

CavaleirosGlobo, UOL e falas que nos fazem duvidar…

Ultimamente temos testemunhado uma porção de notícias sobre os mangás e quadrinhos no Brasil em redes televisivas, jornais e canais digitais. Alguns chegam a informar que este seria o auge dos mangás em nosso país. Mas até onde isso é verdade?

Quantidade de títulos e anúncios

De fato, uma simples comparação ano a ano mostra um aumento considerável de quantidade de obras lançadas anualmente, mas esse número vem de mãos dadas com a diminuição absurda de número total de volumes. A JBC, por exemplo, teve uma explosão de títulos nos últimos 2 anos, a grandíssima maioria de obras entre 1 a 5 volumes.

O mesmo ocorre com as editoras de menor expressividade como a Nova Sampa  (Jens), L&PM, NewPOP, Abril e Alto Astral, que possuem catálogos abarrotados de séries curtas.

Logo essa aparente evolução do mercado na verdade é fruto exatamente de uma queda de vendas e estabilidade. Mercados “fracos” não suportam séries gigantescas e longas, já que requerem consumidores fieis por longos anos, ainda mais em periodicidades curtas, mensais e bimestrais (entenda por que).

Dessa forma, embora inicialmente pareça ser uma prova do “auge”, na verdade é uma forma de mascarar uma queda ou mudança do consumo.

Quantidade de lançamentos mensais

É verdade que o recorde de maior quantidade de mangás lançados em um único mês pode, sim, ter sido recentemente com a entrada de várias outras editoras, especialmente entre 2013 e 2015. Mas várias delas perderam o fôlego, o que por si só não é um bom sinal.

Mas será mesmo que há mais mangás sendo lançados todo mês? Selecionamos os últimos meses e, aleatoriamente, alguns outros até 2012:

Panini JBC
jan/16 14 jan/16 14
dez/15 17 dez/15 19
nov/15 15 nov/15 18
ago/15 16 ago/15 15
mai/15 15 mai/15 10
jan/15 13 jan/15 14
ago/14 19 ago/14 12
fev/14 16 fev/14 17
ago/13 18 ago/13 13
jun/13 17 jun/13 12
nov/12 12 nov/12 15
mai/12 12 mai/12 11
média 15,3 média 14,1

Note que há uma variação grande, na Panini por conta dos bimestrais que se alternam e na JBC por conta os novos volumes de séries encostadas no Japão. Mas, embora haja uma variação, a média desses meses selecionados não destaca nenhum aumento real na quantidade de mangás sendo lançados mensalmente.

Na verdade dá para perceber que as duas maiores editoras encontraram um número confortável faz um bom tempo. E que os poucos aumentos como o da JBC em dezembro de 2015 são pontuais, devido a retornos, eventos ou alinhamento dos planetas.

Aqui também não vemos muita novidade para justificar ser chamado de “auge” e, se houve um amadurecimento, o mesmo já ocorreu faz tempo.

Variedade

Outra coisa destacada é a variedade, “nunca se teve tantos estilos lançados”. Será mesmo?

É inegável que nos últimos anos tivemos a volta dos hentais (desde os lançamentos da Conrad, como Sade e Ero-Guro), a chegada do boy’s love (yaoi/shounen-ai), a volta de clássico do Tezuka (de novo, desde Adolf da Conrad), a maior quantidade de light novels, databooks e mangás de terror (que desde a Conrad já existiam por aqui, mas foram lançados pontualmente desde então), além de um reinvestimento nos shoujos de peso e fortalecimento da produção nacional.

Tudo isso parece lindo e maravilhoso dito assim, mas a realidade é bem diferente. Foram apenas alguns hentais de volume único lançado, 1~2 volumes de Tezuka ao ano (o resto dos muitos clássicos e seus autores continuam a ver navios), a mesma coisa para todos os outros: alguns lançamentos pontuais que não representam quase nada no total de lançamentos.

Sim, porque o Brasil ainda é predominantemente shounen, a única mudança significativa que tivemos envolvendo demografias é que ao invés de lançarmos apenas coisas para 12-18 anos (shounen), agora lançamos coisas também para 18-24 (young seinen).

O fato da maioria dos seinens lançados serem exatamente das mesmas marcas (exemplo, da Shounen Jump para a Young Jump) mostra que essa “inovação” não passa da mesma coisa de sempre com um nível de violência e conteúdo adulto maior.

Vale a pena comentar que existem várias revistas seinen no Japão, mas para faixas etárias diferentes, inclusive é comum se colocar o termo “young” nos próprios nomes para diferenciar as de 18-24, como Young Jump, Young Ace, Young Animal, Young Sunday, Young Champion, Young Gangan, Young King e Young Magazine.

Muito recentemente as editoras passaram a trazer um seinen um pouco mais maduro, da faixa dos 24-30 anos. Nos últimos anos dois anos, tivemos Planetes e Vagabond (da revista Morning), Hideout (da Big Comic Spirits), Zero eterno, Orange e O cão que guarda as estrelas (da Manga Action), além das publicações das revistas Afternoon e Evening, como Éden, Blade, Parasyte e Vinland Saga e a coleção Fim de Verão (de várias revistas).

Mesmo assim pouquíssimo dos seinens lançados no Brasil são os voltados para a meia-idade ou terceira-idade. Os famosos gekigá e ero-guro, gêneros adultos, mal dão as caras no Brasil e passam anos esquecidos.

A coisa fica ainda mais engraçada quando notamos que muitos mangás shoujos vieram ao Brasil para atrair o público masculino. Vários shoujos baseados em anime ou franquias famosas deram as caras desde sempre, como Cowboy BeebopLodoss War: a história de DeedlitTrinity Blood, Blood+ Yakou Joushi, Blood+ Adágio, Darker Than Black, Code Geass e agora mais recentemente o spin-off de Ataque dos Titãs, Ataque dos Titãs – Sem Arrependimentos.

Numa comparação imbecil, dizer que o Brasil tem variedade de gêneros e demografias é como ir àqueles buffet de 50 tipos de saladas, mas serem todas variações de tomate e alface, com uma de rúcula e uma de repolho.

Temos muitos tipos de mangá… Shounen. E shoujos com cara de shounen e seinen com cara de shounen, até os kodomos que saíram são versões shounen para menores de 12 anos. Aí, claro, temos shounen a la jump, shounen a la kodansha, shounen de esporte, de luta, de aventura, de comédia, de comida, de romance. Muita variedade dentro de uma única demografia, isso nós temos.

Exagero? Não, de forma alguma, de todos lançamentos mensais da Panini, cerca de 80% é shounen de verdade, e quase sempre os outros 20% são os “young seinen”. A JBC é um pouco diferente, ela tem lançado 40-50% de shounen, 40-50% de seinen e o resto de shoujo e outras coisas perdidas.

Dizer que há variedade no Brasil é uma piada, a impressão é que os outros gêneros só “lançam para dizer que tem”. O mercado de mangás aqui ainda é “coisa de criança”, centrado nos lançamentos infantojuvenis. Se for este o quesito para definir a maturidade, diria que o mercado continua infantil. Onde está a maturidade deste mercado supostamente maduro?

Em outros mercados verdadeiramente maduros, como o coreano, o americano, o francês e o chinês, vemos uma quantidade significativa de todos os estilos, autores e demografias. Com uma porção de obras clássicas e adultas, autores novos e velhos, indo muito além dos mangás de anime.

Dependência

Outro ponto interessante é notarmos que ainda hoje o que é lançado está diretamente conectado com anime e filmes. A grandíssima maioria das obras só vêm ao Brasil após o anime ou ao mesmo tempo. Achar séries que não tenham sido adaptadas para outras mídias ou não sejam parte de franquias é uma missão quase impossível.

Isso mostra mais uma imaturidade do nosso mercado: a venda de mangás é parte do consumo de animes. Se houvesse uma “calamidade” e não houvesse forma alguma de um brasileiro assistir anime, haveria mangás no Brasil?

Compare ao mercado de Comics, por exemplo, vários super-heróis que nunca (ou quase nunca) viram adaptação em cartoon ou similares eram lançados no Brasil, antes mesmo do mais recente boom. E se de repente a Disney desistir de fazer mais filmes dos Avengers (Vingadores), o consumo de comics americanos pode diminuir, mas continua forte e independente.

O mesmo não acontece com mangás, inclusive muitos chegam a descrever mangá como “versão em quadrinho de anime”. Mangá não é visto como uma forma independente de produção e história, mas como um apêndice dos animes.

E isso é tão forte que todo mundo assume que se você lê mangá, você também assiste anime. Tente dizer que você não gosta de anime e veja a cara de interrogação das pessoas, “Como alguém gosta de mangá e não de anime?”.

Representatividade

Uma boa forma de julgarmos a maturidade de um mercado é ver se as obras publicadas representam as melhores obras daquele universo.

Se formos falar em venda, de fato dos 30 títulos mais vendidos no Japão, 16 foram lançados no Brasil (embora alguns tenham sido cancelados). Mas quando vamos falar em prêmios, a maioria das obras premiadas dentro do Japão nunca foi lançada por aqui. O mesmo vale para autores, tanto os autores clássicos quanto os mais modernos, pessoas reverenciadas no Japão nunca tiveram seus muitos títulos no Brasil. Quando falamos de clássicos então, atualmente temos Osamu Tezuka, ponto.

Note que catálogo pobre nós temos, aqui só chega o que tem anime e vende muito no Japão, obras de importância histórica e cultural não tem espaço algum.

Tiragens e vendas

Mas, talvez, o auge seja no número de vendas! Será?

Todas as vezes que alguém abre a boca para falar sobre vendas ouvimos sobre crise, diminuição de tiragem, reajustes de preço e estratégias, mangás entrando no freezer invisível sem data de retorno, etc. De fato ouvimos bastante, mas ninguém veio falar de aumento de vendas devido a sucesso já faz um tempo.

O clima no mercado atual é de retração: uma soma do consumo menor devido à crise mais aumentos dos custos, especialmente quando o produto depende de licenças internacionais e importações.

Em meio a isso tudo seria surpreendente se o mercado estivesse de fato crescendo em vendas e arrecadação total.

Público consumidor

Só resta então que a causa do “mercado maduro” seja o consumidor, uma estabilidade e crescimento dos leitores.

Entretanto não é isso que vemos, de fato animes e mangás andam em queda no Brasil, poucas crianças têm acesso aos animes como as gerações passadas, a moda anda muito mais voltada aos cartoons, super-heróis e Disney.

O público original envelheceu e vários abandonaram o barco. A nossa própria cultura desestimula que adultos mantenham os hábitos de crianças, como jogos (games), quadrinhos e desenhos animados.

Como testemunha do envelhecimento dessa geração, é particularmente fácil para esta redatora ver os amigos perdendo o interesse e passando a serem consumidores casuais, seja pela falta de interesse, emprego ou família. Até o ponto de ser a última teimosa.

E, obviamente, se há pouca criação de novos leitores e perda continua dos velhos, o público consumidor está longe de qualquer estabilidade.

***

Mas veja que a “culpa” não é das editoras, para um mercado amadurecer o público precisa amadurecer também. Todas as tentativas de venda de gekigás e seinens adultos foram mal de venda. Seton, por exemplo, de Jiro Taniguchi foi um dos fracassos de vendas mais tenebrosos da Panini, e olha que é um mangá de qualidade inegável e de um dos autores mais premiados na França.

Então por que Seton e vários outros não vendem no Brasil? Provavelmente pela falta de maturidade de grande parte dos consumidores, que só está interessado nas adaptações de anime e shounen, e/ou porque mangá ainda é visto pelo público maduro e de colecionadores de quadrinho (potenciais consumidores) como obras infantis e não há de fato nenhum esforço sendo feito para mudar essa visão.

Não, o mercado não está maduro, ainda é jovem, incompleto, instável e viciado. Agora, seria esse o auge? Ou seria esta apenas uma turbulência causada pela crise no país com um futuro de crescimento nos aguardando? Será que dá para sonhar num crescimento do mercado? Na diversificação de obras e autores?

Esta redatora espera que estejam todos errados e este não seja o auge, porque se for, o mangá realmente fracassou no Brasil e morrerá imaturo.


Desmistificando é uma coluna semanal, lançada nas quintas-feiras, sobre o mercado e mangás brasileiros e internacionais. Você pode ver todas as outras postagens anteriores desta coluna aqui. Sugestões e comentários também são sempre bem-vindos! 🙂

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