Biblioteca Brasileira de Mangás

Light Novels: alguns comentários sobre a publicação delas no Brasil

Falando um pouco sobre livros…

O resumo deste post que você lerá é o seguinte: o nosso mercado de light novels ainda é muito pequeno, então as chances de uma light novel que você quer aparecer no Brasil é também extremamente remota, independente de qual for ela. Mas se você quer ter um mínimo de esperança de que tal ou qual obra venha, não basta pedir para as editoras trazerem, você tem que apoiar o mercado de light novels comprando as que estão saindo no momento. Quanto mais você comprar, mais aumentam as chances da série que você quer aparecer no Brasil. É isso o que falaremos e explicaremos detalhadamente no post a seguir.

I

Nos últimos anos com o aumento do número de animês advindos de light novels, tornou-se mais comum o público otaku requisitar a publicação desses livros nos países ocidentais. No Brasil, porém, o mercado de light novels ainda é minúsculo, de modo que as chances de uma dada série aparecer ainda é perto de zero.

Ovelord #01, Editora JBC

Já falamos isso em outra postagem ano passado, e eu sei que é bastante desanimador, mas temos que repetir, pois não podemos ficar acreditando em supostas verdades que não passam de ficção. Então é importante que você tenha isso em mente: se você gosta de uma light novel, não importa qual seja ela, você não deve nutrir esperanças de que ela apareça no Brasil, pois o mais provável é que ela nunca venha 🙁 .

Está bem evidente que uma ou outra light novel está sendo licenciada no Brasil, mas o número é tão pequeno perto da produção japonesa e perto do que vem se tornando popular no oriente que ainda é muito cedo para qualquer um de vocês se sentir esperançoso com a publicação desses livros por aqui.

Sword Art Online – Aincrad #01, Editora Panini

Semana passada, por exemplo, a gente fez uma postagem em que listamos cinco light novels que gostaríamos no Brasil e o público do blog escreveu diversas outras séries nos comentários. No total foram mais de 40. Desse total, a gente pode dizer sem medo de errar que uma deve aparecer com toda certeza dentro em breve, talvez duas, três ou quatro, cinco se tivermos sorte, mas as outras trinta e cinco permanecerão inéditas, ao menos por um booooooooom tempo.

Não estamos sendo pessimistas. Na verdade, estamos sendo otimistas em relação aos dados do passado/presente. Para você ter uma ideia e entender o porquê de pensarmos assim, de 2014 para cá, apenas 13 séries de livros (aquelas que tem mais de um volume) foram licenciadas no Brasil e isso é um número ínfimo, pequeno demais. Até o fim do mês de maio só a Panini terá lançado mais mangás novos este ano do que o número de séries de light novels que foram licenciadas no Brasil em todo esse período (2014-início de 2019).

Então, esses números mostram claramente que ainda é muito cedo para qualquer um de nós ter esperança na vinda de uma light novel específica. É claro que se um animê advindo de light novel está fazendo muito sucesso, as chances da obra original aparecer aumentam, porém isso não é garantia já que outros animês advindos de light novels também volta e meia fazem muito sucesso e, no momento, ainda não há como tudo ser lançado. Na verdade, não há nem como 1/5 de tudo o que se torna famoso ser publicado por aqui.

O nosso país provavelmente ainda não tem público consumidor suficiente para justificar ter diversos lançamentos simultâneos, por isso ainda estamos em um estágio em que cada light novel anunciada deve ser comemorada, ainda que você não a conheça, seja indiferente a ela ou mesmo se você não gosta dela. Sim, a realidade atual é essa: anunciaram uma light novel que você não gosta? Comemore, pois isso é sinal que esses livrinhos japoneses estão vendendo e outros podem aparecer ao longo dos anos.

Morte #01, uma light novel completamente desconhecida. Editora NewPOP.

Precisamos remoer esse assunto, pois realmente é necessário ficar claro que por ser um mercado muito pequeno não faz sentido reclamar que trouxeram a light novel X em vez de trazer a light novel Y. Isso porque não foi terem trazido X a causa de não terem trazido Y. A causa foi ser um mercado pequeno, de modo que não dá para trazer um monte de coisas ao mesmo tempo.

Na época que a NewPOP anunciou Zero no Tsukaima, em dezembro passado, apareceu um mundo de pessoas na página da editora e nas redes sociais em geral reclamando da empresa ter trazido essa light novel em vez de trazer To Aru Majtsu no Index e é bem evidente para nós que elas só estavam reclamando porque não trouxeram a obra que elas queriam e num mercado minúsculo, isso é totalmente sem sentido. O ponto é que fora serem de gêneros semelhantes e serem obras mais antigas não existe relação entre uma obra ter vindo e outra não. Em outras palavras, na verdade, a editora não deixou de trazer uma light novel, ela trouxe uma.

Zero no Tsukaima #01 (Lançamento no Japão em 22/06/2004)

Explicando melhor o parágrafo anterior: as chances de a light novel Zero no Tsukaima ser lançada no Brasil era a mesma de To Aru Majtsu no Index: praticamente nenhuma. Ambas tinham mais de 20 volumes e, por mais que Index tenha ganhado um novo animê, eram obras mais distantes no tempo que ficaram famosos em meados dos anos 2000 (Zero em 2006, Index em 2008) e, para piorar o cenário, a NewPOP já havia licenciado uma light novel nas mesmas condições (Shakugan no Shana, cuja primeira temporada do animê foi ao ar em 2005 e com a light novel tendo mais de 20 volumes também). Em suma, não parecia nada provável que editora investiria em outra com características semelhantes. Afinal o mercado é pequeno e não dá para trazer de tudo, como já comentamos.

Por conta disso, você podia olhar para Zero no Tsukaima e To Aru Majtsu no Index e dizer sem medo de errar que as duas light novels dificilmente viriam ao Brasil, pelo menos em um futuro próximo. No entanto, uma delas foi licenciada, Zero no Tsukaima, e isso deveria ser motivo de comemoração para os fãs de Index e não para revolta. Sim, pois se Zero apareceu mesmo nesse cenário, aumentam as chances de, no futuro, Index também vir.

Index #01 (Lançamento no Japão em 10/04/2004)

É claro que se Shakugan no Shana e Zero no Tsukaima forem um fracasso de vendas e Index não for anunciado antes, as chances dessa light novel aparecer podem diminuir também, afinal ficará marcado que obras antigas de fantasia e que são ou foram populares não vendem bem. Mas é aí, é nesse momento, que entra o público consumidor de Index, aí entra o verdadeiro desejo dos fãs, o apoio ao mercado brasileiro de light novels.

Não adianta desejar a vinda de uma light novel se a pessoa não compra as que saem no país, pois é o mesmo que dizer para as editoras que não existe público para a mídia. Enquanto não há um mercado formado de fato, é importante sempre apoiar o que sai por aqui comprando o que tiver para que ele consiga se estabelecer, ser incrementado e, com o tempo, outras obras virem aparecendo.

Note que as editoras, ou antes uma editora, estão fazendo a sua parte e investindo no mercado trazendo obras bem variadas dentro dessa micro-realidade. A NewPOP trouxe light novel de animê da temporada e que estava em alta, as chamadas modinhas, (caso de No Game No Life e Re: Zero, por exemplo) trouxe também obras ligeiramente atuais que se estabeleceram como Fate/Zero e também está trazendo obras clássicas como Toradora!, Shakugan no Shana e logo mais Lodoss War. A maioria é obra de ação e fantasia, mas tem comédia romântica também, além de uma série de livros com traços de shonen-ai.

Não há uma extensa variedade porque não há como, mas tem um pouquinho do que as pessoas querem. Você quer uma obra popular que se tornou famosa pelo animê, a editora lançou. Você quer uma obra mais antiga no tempo que se estabeleceu na comunidade otaku? A editora também lançou. Podem não ter vindo as que você queria, mas não se pode acusar a NewPOP de não ser bem eclética e trazer tanto o atual, quanto o antigo.

Sendo assim, se você quer light novels no Brasil, você tem que comprar light novels. Não adianta reclamar que não lançam a light novel que você quer se você não compra as que estão saindo no momento, pois pode ser justamente isso que não está fazendo mais obras virem ao mesmo tempo e, consequentemente, a que você deseja não ter sido licenciada ainda. O capitalismo é bem claro, quanto mais gente estiver comprando um determinado produto, mais desse produto será lançado.

De modo geral, eu sempre fui contra essa ideia de comprar para apoiar o mercado, pois não acho que as pessoas devam comprar uma coisa que elas não queiram ou não gostem, com a vã esperança de que uma dada obra talvez apareça no futuro. Entretanto se você é um otaku hardcore, fã de uma série de light novels que ainda não foi licenciada no Brasil e quer que ela apareça por aqui, você deve ser consciente que o mercado desses livrinhos japoneses é nanico e que ele precisa de mais consumidores. Então se você se encontra nessa situação e ainda não é consumidor de light novels publicadas no Brasil, você deve, sim, começar a ser e comprar alguma das que estão saindo.

Então, eu acho que quem quer Index no Brasil obrigatoriamente tem que comprar Shakugan no Shana e Zero no Tsukaima. Não só essas duas, mas principalmente elas por serem “”””””””parecidas”””””””” (se tornaram famosas há muitos anos, tem muitos volumes, são de fantasia, etc). Não que isso garanta a publicação dessa light novel em específico, mas garante que as editoras irão ver que existe um bom mercado consumidor desses livrinhos japoneses por aqui, que ele está crescendo, e continuarão a investir no filão.

Ficar pedindo obras nas páginas das editoras ou mandando sugestões pelos meios oficiais não é suficiente, é necessário que você compre o máximo possível de light novels para mostrar que existem mais consumidores do que as editoras pensam e, assim, “forçar” elas a trazerem mais obras ao mesmo tempo (sim, é com dinheiro que você “força” uma editora a trazer mais de um produto e não com extensos pedidos). Se você não fizer isso, vai ser do jeito que eu disse, uma vai vir, mas um monte não vai. E nada garante que a que vier será a que você deseja.

 Então se você quer uma light novel vá no Cantinho de Sugestões da NewPOP (clique aqui) ou no site da JBC (clique aqui) e peça a obra que você deseja. Ao mesmo tempo, se você tem algum dinheiro sobrando, compre as que estão saindo para as editoras saberem que existe público (ou que existe MAIS público) para light novels. Compre uma ou duas da NewPOP, compre o Overlord da JBC, compre o Sword Art Online, da Panini. Um mercado pequeno precisa desse tipo de incentivo.

Uma das light novels que eu mais gostaria que as pessoas incentivassem é Toradora!. Eu estou acompanhando Toradora! porque gosto da obra, mas estaria fazendo isso mesmo se o título não fosse de minha predileção, pois ela foge à regra da maioria das outras light novels lançadas no Brasil. Quase todas as outras são de ação, aventura e fantasia, enquanto Toradora! é uma comédia romântica. Eu quero que Toradora! dê certo não somente por gostar muito do título, mas sim para que outras light novels de gêneros semelhantes venham, caso de Golden Time, por exemplo, que é da mesma autora, Sakurasou ou Bunny Girl. Variedade sempre é importante.

E é assim que nós temos um limite para o “apoiar o mercado”. É difícil pensar que Golden Time viria se eu comprasse No Game No Life ou Fate/Zero, por exemplo, mas com Toradora! a coisa muda de figura. A gente já falou sobre isso na nossa postagem “Comprar para apoiar o mercado? Por quê?” em que discutimos exatamente essa questão de onde e até onde vai essa necessidade de comprar para apoiar o mercado.

II

É claro, no entanto, que existem casos em que a explicação para não vinda de uma obra é mais complexa e aí comprar outras light novels para apoiar o mercado não adianta nada. No nosso entender, por exemplo, seria muito difícil alguma editora ir atrás da light novel Highschool DxD depois da adaptação em mangá não ter tido boas vendas. Para quem não lembra, no início de 2018 o mangá sofreu dois reajustes de preço no mesmo volume, totalizando três reais de aumento, numa época em que isso não era nada comum na Panini. A empresa fez um comunicado falando que a obra perdeu muitos leitores e a editora teve que diminuir a tiragem e aumentar o preço para não cancelar o mangá.

Ou seja, se mangá (que sempre têm apelo maior do que livros) precisa ter um reajuste tão grande para não ser descontinuado, as editoras já sabem de antemão que a obra não tem público suficiente para manter a publicação no azul por tantos volumes (são mais de 20) e não arriscariam na publicação da light novel. A obra pode até ser popular na Internet (o anúncio do mangá foi bastante comemorado em 2014), mas isso não se reverteu em vendas. Então a gente não acredita que essa light novel apareça.

Highschool DxD #01 (Lançamento no Japão em 20/09/2008)

Outro caso tem a ver especificamente com a editora NewPOP. Ela dificilmente lançaria obras como Crônicas de Guerra: Tanya the Evil e The Irregular at Magic HighSchool, visto que a Panini tem os direitos sobre os mangás e a editora brasileira utiliza-se da chamada política de boa vizinhança, não indo atrás de obras que estão com a concorrência. Ou seja, essas light novels só viriam pela NewPOP se a Panini deixasse claro que não tem mais interesse na franquia, como aconteceu recentemente com Lodoss War, cujos mangás a empresa italiana publicou muitos anos atrás e agora a NewPOP lançará a série de livros originais.

Também poderia ocorrer caso a NewPOP tivesse negociado em separado e concomitantemente essas light novels com as editoras japonesas, enquanto a Panini negociava os mangás, como aconteceu há alguns anos com o caso de Fate/Zero (light novel) e Fate/Stay Night (mangá) que foram anunciados no mesmo evento por NewPOP e Panini respectivamente. Mas até o momento nem Tanya, nem Irregular foram anunciadas o que, talvez, deve indicar que não é o caso. Obvio que isso não quer dizer que elas não vão vir, só quer dizer que pela NewPOP não deve ser muito provável por enquanto.

Então se você quer essas duas light novels em específico, talvez você devesse comprar os mangás da Panini, para mostrar que há muito público para essas obras. Isso nem de longe serve como incentivo para light novels, mas se os mangás não venderem pode acontecer o mesmo que com Highschool DxD e se tornarem improváveis de aparecer por causa do fracasso dos mangás.

Fora isso, existe sempre possibilidades outras, como a licença de uma light novel não estar aberta para o Brasil (acontece muito com mangás), a editora japonesa ter pedido um valor que a brasileira não conseguiria arcar, entre diversos outros motivos. De todo modo, o que dissemos segue valendo, o que aparecer de light novel deve ser comemorado, mesmo se você não for um fã daquela obra, pois o mercado é minúsculo. Reclamar de que algo não veio, ainda é muito sem sentido, assim como é sem sentido achar que uma light novel é questão de tempo. O ideal realmente, se você deseja mais light novels no Brasil, é comprar o que tiver saindo, claro tudo dentro do seu próprio orçamento e dos gêneros que você gosta…


Importante ficar claro que “comprar para apoiar o mercado” não garante que o mercado cresça efetivamente, pois existem diversas variáveis que passam desde a crise econômica, com o grande número de desempregados no país, e chegam até o inevitável ponto de que muita gente não gosta de ler livros. Então, se todo mundo que quer light novels e não compra as que saem por aqui, começarem a comprar talvez seja insuficiente para mostrar a existência de um grande público consumidor, mas não comprar é pior, pois fica tudo do jeito que está.

Que se registre, por fim, que o texto não está falando em momento nenhum que a culpa do mercado de light novels ser pequeno é do consumidor. O consumidor nunca é culpado pelo fracasso de uma série ou por um dado nicho de mercado ser pequeno. O texto visa enfatizar e mostrar que o mercado é nanico e, por conta disso, não há razão para reclamar que a light novel que você deseja não saiu no país, pois provavelmente nunca vai sair ou vai demorar muitos anos. Porém, se você é fã de light novels e quer um mercado forte, tendo chances de a sua favorita ser lançada, comprar as que estão saindo no momento acaba sendo uma maneira de ajudar…

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