Resenha: “Migi e Dali #01”

O mangá daquele anime

Completo em 7 volumes e publicado originalmente entre 2018 e 2021 pela editora Enterbrain, do grupo Kadokawa, Migi e Dali foi o último trabalho de Nami Sano, que faleceu em agosto passado, em decorrência de um câncer descoberto um mês antes. Ela tinha apenas 36 anos e com a morte prematura não chegou a ver a adaptação em anime de sua obra, que foi ao ar entre outubro e dezembro de 2023.

Nami Sano já era conhecida de nós brasileiros pela sua inventividade no mangá Quem é Sakamoto?, mas parecia difícil imaginar que uma nova obra dela viria para o país. Mas eis que – talvez justamente pela adaptação em anime – a editora Panini licenciou seu mangá derradeiro e o anunciou no dia 31 de outubro de 2023. A previsão inicial é que ele fosse lançado em janeiro de 2024, mas houve um pequeno atraso e ele só saiu em fevereiro.

Com o mangá em mãos e com a leitura do primeiro volume feita viemos falar um pouquinho sobre esse título que, notadamente, tem a marca da autora…

Na obra, um casal adota um menino de 13 anos, a quem é chamado de Hitori. O casal sempre quis ter filhos, mas como não podiam acabaram ficando a sós até que resolveram adotar alguém. Trata-se de um casal, neste sentido, carente e o filho Hitori vem justamente para preencher todas as lacunas emocionais dos dois, assim eles cozinharão juntos, brincarão juntos, etc.

Tudo isso parece simples, tudo parece normal, mas a verdade é que não existe nenhum Hitori. Ou até existe, mas não um só. Hitori, na verdade, é um nome inventado e sua figura é dividida pelos irmãos Migi e Dali, daí o nome do mangá. O casal não sabe disso e os meninos se revezam no papel de Hitori… E para quê? Por um certo motivo que só se descobre no final do primeiro volume…

Migi e Dali é um mangá bem diferente no que concerne ao modo de contar a história. O roteiro (quando se descobre tudo ao final do primeiro volume) pode parecer bem simples, mas ele tem muitas especificidades em seu desenvolvimento, apelando, de certa maneira, para o “sem sentido”.

Os irmãos estão sempre com a mesma roupa e fazem tudo juntos, mas sempre de uma maneira para que seus pais adotivos não percebam que eles são duas pessoas, daí que fica um clima de “sem sentido” em diversas cenas, de uma maneira muito similar ao outro mangá da autora (Quem é Sakamoto?). Por exemplo, enquanto a família está comendo, um deles do nada se esgueira para baixo da mesa, ou eles trocam de lugar, etc, etc, etc.

Tudo isso gera um clima de humor, daqueles em que você não dá gargalhadas, mas está sempre com um sorriso no rosto. Esse humor também se mostra com a falta de conhecimento e a interpretação equivocada por parte dos irmãos a respeito de determinadas coisas dentro da casa, o que faz com que a gente já se prepare para um acontecimento futuro já sorrindo.

O nosso relato não dá a dimensão do quão diferente que é o mangá, mas acredite a atmosfera de Migi e Dali é muito interessante e pouco usual. Não é algo totalmente fora do comum, entretanto. É uma narrativa básica, mas com certos elementos e trejeitos diferenciados e que dão um grande destaque a ele, de modo que você é levado a falar em alguns momentos “isso aqui é impossível!”.

Fora isso, o mangá possui poucos quadros e pouco texto, daí que ele é de uma leitura leve e rápida e em cerca de 30 minutos você consegue terminar o volume sem problemas. Você começa a ler pela estranheza, a história empolga e logo você já terminou o volume inicial^^.

Em resumo, esse primeiro volume foi muito bom e eu adorei a leitura, sendo um daqueles mangás que me prendem desde o início. Acho que vale a pena dar uma chance, pois ele pode te encantar de um jeito único. Para quem deseja uma prévia antes de comprar, como dito, há uma adaptação em anime e ela está disponível no Brasil pela Crunchyroll. Dê uma olhada nos episódios iniciais e se gostar, certamente irá gostar do mangá também.

***

A edição brasileira é uma edição padrão da Panini com o tamanho usual (13,7 x 20 cm), papel usual (offwhite 66g) e capa cartão simples (sem orelhas, sem sobrecapa, sem verniz localizado, etc) em acabamento fosco. É uma edição bem simpleszinha, mas sem problemas de encadernação ou acabamento. O papel tem um pouco de transparência, mas é quase imperceptível.

Em relação ao texto, ele usa honoríficos, mas fora esse problema não há mais nenhum demérito, sendo um texto bem coeso, coerente e sem erros de revisão.


O preço é R$ 40,90 por volume, mas eu comprei o primeiro na pré-venda da loja online da editora com 28% de desconto (e FRETE GRÁTIS), fazendo-o sair por R$ 29,45.  A obra possui 7 volumes no total e sairá um número novo por mês.


Ficha Técnica


Título Original: ミギとダリ
Título: Migi e Dali
Autor
: Nami Sano
Tradutor: Mateus Britto
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 7 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel offwhite
Acabamento: Capa cartão
Páginas: 176
Classificação indicativa: 14 anos
Preço: R$ 40,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini

Sinopse1990 – Distrito Norte da cidade de Kobe. Aqui é o novo bairro planejado Vila Origon, construído usando os subúrbios americanos como modelo.  Neste local, onde vivem famílias riquíssimas, chega “um” rapaz. O nome desse jovem, adotado pelo casal Sonoyama, que é incapaz de ter filhos, é Hitori. Hitori é bonito e inteligente, por quem os Sonoyama se encantam de imediato. No entanto, ele tem um grande segredo e um objetivo assustador.


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2 Comments

  • Anônimo

    Por que usar honoríficos seria um problema?
    Não é bom pra manter a autenticidade de um mangá, já que no ocidente não existe algo que replique exatamente a hierarquia dos sufixos?
    Não é uma crítica, só curiosidade mesmo..

    • Quando se traduz algo de uma língua para a outra, vai haver perdas. SEMPRE. Não importa o que seja, se você está lendo uma tradução você está lendo uma versão, uma adaptação da obra original, com perdas maiores ou menores.

      Por exemplo, no português brasileiro a gente tem uma construção que é responder afirmativamente usando uma palavra que usualmente tem o significado de ser negativa. Exemplo.

      -Quer ir comigo no parque?
      -Não, estava só esperando o convite, vamos.

      Se você for traduzir isso para uma língua em que não tem essa construção, você não pode em hipótese nenhuma usar isso, pois não é algo que faça sentido para essa outra língua. Isso é algo cultural nosso e se lá nesse outro país não tem isso, não faz sentido replicar, pois ficará totalmente antinatural na leitura. Em outras palavras, se isso for colocado será uma tradução mal feita…


      Dito isso, olhe essas palavras romanizadas do japonês:

      Ore
      boku
      Watashi
      Atashi

      Essa quatro palavras (e existem outras), quando traduzidas para o português, normalmente são traduzidas como “eu”. Essa é a tradução fiel das palavras, então não tem nenhum erro em traduzir elas para “eu”. Só que essas palavras não querem dizer a mesma coisa, por assim dizer. Uma é usada por meninos, outras por meninas, outra de maneira mais formal, outra menos informal, etc, etc.

      Na maioria das vezes é impossível manter essas nuances quando se traduz para o português, mas isso não impede de as editoras traduzirem para “eu”. A gente “perde” essas coisas, mas não faz sentido deixar o termo em japonês só porque a língua e a cultura japonesa tem esse tipo de nuance que a nossa não tem.

      Quando essa nuance é algo realmente necessário para fazer sentido, os tradutores precisam se virar para conseguir arranjar um jeito. Tipo, em “Your Name.” quando a Mitsuha está no corpo do Taki e ela na escola está com os amigos dele, ela usa um “eu” que só meninas usam, então eles estranham. E ela vai falando até chegar num “boku”. As pessoas responsáveis por traduzir o mangá e o filme tiveram um trabalho para fazer. Não me recordo como ficou, mas lembro de ao menos eu não gostar do que foi feito na dublagem do filme.


      Eu acho que você já deve ter entendido que com honoríficos a coisa é igual. Deixar eles é o mesmo que deixar um “boku sou brasileiro” ou um “watashi sou brasileiro” em vez de “eu sou brasileiro” em uma frase buscando uma nuance da língua e da cultura japonesa que não tem no nosso idioma. Então quando tem honoríficos na tradução, se está colocando uma coisa que não existe na língua portuguesa, é um problema de tradução, é um erro, é um gargalo linguístico.

      Uma coisa é manter um nome em japonês (de comidas, por exemplo, afinal é um nome) ou alguma coisa estritamente necessária, outra bem diferente são manter honoríficos que podem ser suprimidos e adaptadas de alguma forma (o -chan, por exemplo, é constantemente adaptado para -inho, mas pode ser um apelido carinhoso qualquer, que dá uma nuance semelhante). Muitas vezes, eles não fazem falta, e quando fazem as editoras conseguem adaptar de algum jeito.

      É por isso que é um problema.

      E, assim, basicamente com exceção da Panini (e da Mythos) as editoras brasileiras não usam honoríficos mais, salvo em condições ultra especiais. E por que não usam? Porque não é algo que faça sentido usar, como eu disse não são termos que fazem parte da nossa língua.

      E a minha percepção é que mesmo a Panini sabe disso e só coloca por gosto de certa parcela do público. Digo isso, pois normalmente a editora coloca honoríficos nos mangás que se passam no Japão (ou presumidamente no Japão, mesmo os de fantasia), mas não coloca nos que não se passam.

      Todos os mangás no Japão, via de regra, vão ter honoríficos, pois é a língua deles, mas a Panini escolhe usar apenas nos mangás que se passam no Japão, como se fosse para enfatizar que é uma obra japonesa que se passa no Japão. Se fosse algo realmente necessário para entender todas as nuances de todas as obras, todos os mangás da editora teriam honoríficos mesmo os que não se passam no Japão, concorda?

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