Resenha: “Gachiakuta #01”

Um dos novos mangás da Panini

É difícil definir o que faz um mangá ser interessante, pois além de não ter uma fórmula (a ficção é uma arte, então ela está sempre buscando novos caminhos e novas maneiras de transgredir), muitas vezes depende do leitor “aceitar” (apreender, entender) ou não o que está sendo contado e da maneira que está sendo contada.

Gachiakuta é um mangá de autoria de Kei Urana e ele não inventa a roda em momento nenhum, seguindo um caminho convencional (coloca alguns pressupostos para depois desenvolvê-los), mas consegue agradar bastante, mesmo quem já está cansado de ler histórias de fantasia, pois parece colocar certas questões a mais em jogo…

Gachiakuta pega dois elementos bastante comuns nesse tipo de história (a injustiça e o desejo de vingança) e faz um primeiro volume com muita ação, combates, reviravoltas, tudo isso calcado em um pano de fundo que parece discutir temas importantes para a sociedade, ainda que algumas pessoas não percebam isso.

A obra se passa presumidamente no Japão (ou uma espécie de Japão imaginário) em que uma determinada cidade ou lugar tem uma divisão entre a “sociedade” e a  “choldra”, um lugar afastado, à beira de um abismo, onde pessoas supostamente descendentes de bandidos moram.

Rudo, o protagonista da história, mora em uma casa à beira do abismo e um dia ele decide roubar lixo “dos ricos”, pois ele tem a ideia de que os objetos podem ter “alma”, além de compreender que muitas coisas jogadas fora por eles ainda servem e podem ser úteis.

Ocorre, porém, que ele é visto e ,um tempo depois, por uma infelicidade do destino (leia-se armação de alguém), ele acaba sendo acusado de assassinato e, nesse mundo, os bandidos são jogados no precipício, de um abismo escuro.

O jovem é atirado lá, mas consegue sobreviver e a história vai começar de verdade aqui, com a presença de monstros, poderes e coisas sobrenaturais. Rudo precisará sobreviver nesse local para conseguir encontrar um jeito de voltar ao mundo lá de cima e conseguir sua vingança contra aqueles que armaram contra ele.

Talvez você já tenha ouvido falar que a gente não enxerga a realidade, a gente enxerga o que nós somos (nossos conhecimentos limitados, nossos moldes pela sociedade, etc, etc, etc) daí que as percepções que fazemos do mundo podem ser muito equivocadas.

Gachiakuta parte da dualidade entre o que é “de dentro” e o que é “de fora”, entre o “legal” e o “ruim”, entre a sociedade civilizada e barbárie, entre a grã-finagem e o lixo, etc, etc, etc. Entretanto, o que é lixo, o que é de fora, o que é ruim, o que é bárbaro, é advindo de um ponto de vista e esse ponto de vista pode estar sempre enviesado, com diversas coisas ocultas, preconceitos, etc.

A obra parte justamente disso, da existência de pontos de vista negativos a respeitos de pessoas ou de uma sociedade inteira, baseado apenas e tão somente pelo lugar em que a pessoa vive, por seus aspectos físicos ou mesmo por sua filiação. Pontos de vistas estes que tendem a estar completamente equivocados, assim como é na vida real.

O protagonista da obra é um misto disso tudo, ele é julgado por fazer parte da “escória” da sociedade, ele é julgado por suas aparência (especialmente as luvas muito velhas), e ele é julgado por ser, supostamente, filho de um assassino. E, além disso, quando ele é jogado no abismo, ele é julgado pelas pessoas de lá por ser de um outro local.

O mangá não trabalha exatamente em mostrar explicadinho as coisas. Há elementos muito explícitos, mas muitas dessas coisas ficam no ar para que o leitor capte e tente fazer conexões. É muito interessante, por exemplo, o fato de que Rudo é excluído em uma sociedade e seja excluído em outra por fazer parte daquela mesma sociedade da qual ele era excluído, dando uma perspectiva de existir camadas de exclusão.

Gachiakuta deixa em perspectiva que o mundo é cruel, que as pessoas só veem o que quer e o que é mais conveniente para elas.

O ponto central, no entanto, é como isso será posto nos próximos volumes. Sim, pois, Rudo (ao ser alvo de alguém) está disposto a ter uma vingança contra a sociedade que o excluiu, contra as pessoas que tramaram uma armadilha e ai tudo o que foi desenvolvido nesse volume pode ser algo incidental e que não será aproveitado.

Ainda assim, esse primeiro volume foi muito satisfatório, tanto por esse pano de fundo (essa dualidade das questões sociais), quanto pela narrativa que é ágil, com muita ação.

O primeiro volume de Gachiakuta passa voando e é possível que – justamente por essa agilidade – muita gente não preste atenção no subtexto do mangá (quem nem é totalmente subtexto, é texto mesmo), e se foque mais com a aventura e com as cenas de ação, o que pode ser um grande erro.

Se você está lendo esta resenha, ainda não comprou o mangá e ficou interessado em comprar, leia o mangá com calma, observe o que está sendo dito, pois isso fará a sua leitura irá enriquecer ainda mais.

Gachiakuta ainda está em andamento no Japão, atualmente com 9 volumes publicados. A edição brasileira pela Panini vem no formato padrão da editora, no tamanho 13,7 x 20cm, com miolo em papel offwhite e capa cartão.

O preço é R$ 36,90 e eu comprei o meu exemplar na loja da Panini em uma promoção com 30% de desconto, passando para R$ 25,83.


Ficha Técnica


Título Original: ガチアクタ
Título: Gachiakuta
Autor
: Kei Urana
Tradutor: Felipe Monte
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 9 (ainda em publicação)
Número de volumes no Brasil: 2 (ainda em publicação)
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel offwhite 66g
Acabamento: Capa cartão
Páginas: 192
Classificação indicativa: 14 anos
Preço: R$ 36,90 (vol. 1) / R$ 39,90 (vol. 2 em diante)
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini

SinopseO jovem Rudo habita em um gueto de descendentes de criminosos e vive recolhendo lixo e sendo discriminado, até que certo dia, ele é acusado injustamente de um crime que não cometeu e como punição é enviado a um local em que todos temem! Lá, o rapaz conhece conhece Enjin e acaba tendo um vislumbre de toda a verdade sobre o mundo e também começa a manifestar a sua habilidade: Dar vida às coisas! Assim, começa a jornada de Rudo e seu objetivo de mudar por completo o mundo de merda em que vive!!


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