
Novo mangá do autor de Hideout
Se lhe oferecessem uma fruta proibida, dizendo que se você a comer terá a vida eterna você aceitaria? Você gostaria de viver sem o medo de perder a própria vida ou a de pessoas queridas?
Yomotsuhegui: O Fruto do Mundo dos Mortos é um mangá de autoria de Masasumi Kakizaki que irá permear isso. Completo em 3 volumes no Japão, o mangá começou a ser publicado recentemente pela editora Panini e apresenta como protagonista Nawa, um ex-policial que foi preso após tentar matar os assassinos de sua esposa e filha.
A obra começa alguns anos depois do crime, com Nawa recebendo liberdade condicional e decidindo ir atrás de um dos bandidos que sobreviveu. O que ele não esperava é que sua tentativa de assassinato iria falhar de novo, com o bandido ressuscitando na sua frente. E esse incidente, juntamente com a aparição repentina de uma deusa da morte que quer que ele a ajude a acabar com todos os imortais que existem na terra, o levaria a estar envolvido em algo sobrenatural a partir daí.



Yomotsuhegui é um tipo de mangá que eu não gosto, pois ele mistura um monte de coisas e não mostra aonde quer chegar. Ele tem muitas premissas interessantes (o embate entre mortalidade e vida eterna, a maldade inata do ser humano que é pior do que qualquer coisa sobrenatural, e, por outro lado, a própria fragilidade do ser humano, dentre outras coisas) e não as trabalha direito, deixando as coisas meio enevoadas.
VAI TER SPOILERS A PARTIR DAQUI
O protagonista, por exemplo, é uma “boa pessoa”, entretanto nutre um sentimento de ódio e vingança incontrolável que o leva a querer acabar com a vida de um outro criminoso. Em contato com ele, o mangá mostra que o bandido se regenerou e está vivendo uma vida pacata. Só que isso não é verdade, ele é um grande bandidão, pratica diversas e diversas maldades, deixando uma mensagem de que mal é mal e pronto e de que humanos são seres malvados por natureza.
Mas é isso mesmo? Ou é só isso? A obra não consegue nos dizer claramente o que quer. A gente pode deduzir que a imortalidade nas mãos de gente inescrupulosa é muito ruim e, portanto, ela não deveria existir. Esse é, sim, um ponto se pensar, mas o modo como a obra faz é cheia de engasgos, principalmente por conta do protagonista, cuja personalidade não é lá muito crível.
Nawa, como dito, é uma “boa pessoa”, mas diante de uma grande perda ele decide matar, por conta própria e sem se importar com a justiça, quem matou sua família. Lembremos que ele era um policial e devia presar pela justiça (real, oficial) e não fazer isso com as próprias mãos.

Ok, pessoas não são um bloquinho definido preto no branco, elas tem diversos lados, bons e ruins e fazem coisas que podem ser inimagináveis, mas dentro do contexto do mangá o personagem não faz sentido. Ele é tido como a “justiça”, ele é tido como alguém que vai fazer as coisas, que vai mudar o mundo e… fica tudo um grande vazio.
É legal que personagens sejam ambíguos, que tenham suas falhas, que sejam incoerentes e tal, pois isso os torna mais realistas, só que a obra não se aproveita disso e faz as coisas ficarem nubladas, dispersas, sem sentido, colocando uma vingança como mote inicial de um personagem e só isso. Sim, a grande característica do protagonista não é ambiguidade de seu caráter, não é nada. Ele só é definido como alguém “do bem”, mas que quer vingança. Daí que é a lembrança das falas de sua família é que acabarão pouco a pouco o fazendo ajudar a deusa da morte…


Fora isso, a própria discussão sobre mortalidade x vida eterna não é bem feita nesse volume inicial. A gente viu a imortalidade como algo ruim (pois pode ter gente má e que pode fazer outros sofrerem de maneira eterna), mas meio que fica nisso mesmo, sem qualquer espécie de aprofundamento. Muito pelo contrário há até uma contraposição falando sobre felicidade, fim do sofrimento da perda de entes queridos e a gente fica meio perdido…
Na verdade, em grande parte desse volume inicial essa discussão é mais um “é importante ter” de um lado e um “é ruim ter” de outro, sem maiores explicações. Ficou parecendo que o autor decidiu o tema e não pensou nas diversas camadas envolvendo o assunto, fazendo com que o volume ficasse bastante raso.

O fato é que Yomotsuhegui é uma obra de fantasia, com um pouco de drama e de ação e ele faz isso até que bem, você se diverte, você fica apreensivo com os acontecimentos, etc, etc, etc. Só que quando a gente para (seja no meio da leitura, seja no final) e analisa a história a gente consegue notar todos os problemas.
A grande verdade é que Masasumi Kakizaki tem um desenho impecável, mas o roteiro não é lá grande coisa e a gente sai do mangá sem saber o que ele quer passar. Talvez o melhor nesse caso seja a leitura dos três volumes de uma vez, assim a gente tem uma melhor compreensão do todo e pode fazer uma análise mais justa.
Entretanto, eu não senti vontade nenhuma de continuar a ler. Se for para ler uma obra de fantasia com um pouco de ação e drama eu prefiro ler algo mais bem feito, algo que passe a mensagem desde o início ou que não passe mensagem nenhuma e deixe isso também claro desde o começo. Não é o caso de Yomotsuhegui. Para quem já leu muitos mangás, esse é só mais um na multidão e que provavelmente será esquecido com o tempo. Então, pela leitura do volume #01, eu realmente não recomendo esse mangá.
Ficha Técnica
Título Original: ヨモツヘグイ 死者の国の果実
Título: Yomotsuhegui: O Fruto do Mundo dos Mortos
Autor: Masasumi Kakizaki
Tradutor: Lucas Cabral
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 3 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel offwhite 66g
Acabamento: Capa cartão
Páginas: 240
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 40,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini
Sinopse: O ex-policial Kanetsugu Nawa perdeu a esposa e a filha em um incidente terrível. Tomado pelo ódio, ele ganha acesso a uma forma monstruosa graças ao poder do fruto da imortalidade — Yomotsuhegui!! Ao lado de Ren, uma deusa da morte, Nawa terá que dar fim à vida eterna de outros indivíduos que desfrutam dessa mesma maldição…! Uma história dramática que retrata as batalhas envolvendo humanos imortais e deuses da morte!!
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