
Clássico do shoujo
Entre os meses de maio e julho, a editora Pipoca & Nanquim publicou no Brasil o mangá Fire!, de Hideko Mizuno. O título (conquanto possa ser desconhecido para muita gente) é um clássico dos mangás shoujos, sendo um dos pioneiros em diversas temáticas e abordagens.
Fire! foi publicado originalmente no Japão entre 1969 e 1971 na revista Seventeen, da editora Shueisha, sendo compilados em um total de 4 volumes, estes pela editora Asahi Sonorama. Posteriormente, a obra ganhou diversas edições por outras editoras, como a Shogakukan e a Akita Shoten.
Em 2023, o título foi republicado mais uma vez no Japão, dessa vez pela editora Bungei Shunjuu, em uma edição compilando tudo em 2 volumes no total. Além da história original, esses volumes possuem dois contos extras, até então nunca publicados em volume, um sobre a banda Pink Floyd e outra sobre o pianista e compositor Keith Jarret.
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Pipoca & Nanquim no dia 9 de fevereiro de 2024 e tinha previsão inicial de ser lançado em abril. Por conta de alguns entraves, porém, o primeiro volume só foi lançado em maio.



A HISTÓRIA DO MANGÁ
O mangá Fire! se passa nos Estados Unidos na década de 1960 e tem como personagem principal o jovem Aaron. Ele era um rapaz simples que morava apenas com sua mãe e a ela se dedicava, mas, em um certo dia, acaba sendo preso injustamente e vai parar em um reformatório.
No local, entre as agruras do ambiente, ele ouve uma música e se encanta por ela e também pela pessoa que produzia aquele som, um delinquente chamado Fire Wolf.
Fire Wolf era um rapaz que tinha um incessante sonho de liberdade, não da cadeia em si, mas de tudo, como se todo o mundo o oprimisse de um jeito inexpugnável. Aaron se apaixona por Fire Wolf e essa liberdade desejada por Wolf acaba guiando o rapaz a partir de então.
Ao sair do reformatório e já sem ter Fire Wolf ao seu lado, o jovem Aaron passa a trabalhar e descobre a sua felicidade na música. Assim, em pouco tempo, nasce a banda “Fire!” que encantará a todos por onde passa.

O mangá começa com a gente já sabendo que Aaron fez um grande sucesso na música e que ele carrega uma intensa fama.
E o que veremos durante a obra é a história detalhada ou a história não contada, como se fosse uma documentário para os fãs de Aaron, para eles verem o que não conheciam do ídolo.
Assim, a gente acompanha no mangá desde os primórdios da vida dele, com a prisão do rapaz quando jovem, a paixão dele por Fire Wolf, a descoberta da música como profissão, as mulheres que amou, seus dramas pessoais, o início da banda até seu sucesso e, evidentemente, sua dissolução após diversos e diversos acontecimentos de uma história intensa em vários sentidos.

DESENVOLVIMENTO E OPINIÕES
Fire! é um mangá que fala da importância da música e sobre o sentido de viver, tudo isso em uma época conturbada, em uma época de transformação social e que havia intensa repressão contra o que era diferente…
O protagonista da obra, Aaron, é um rapaz que expressa seus sentimentos por meio da música, um sentimento que busca uma liberdade impossível de se alcançar e que mostra o amor dele pelas pessoas em sua volta e das que passaram em sua vida.
E é desse sentimento e desse talento que advém a banda fictícia “Fire!”, que também dá título ao mangá, mantendo é um sentimento consome ele, que consome muita gente, como um fogo em busca queimar mais do que a chama, que busca um algo além, um fogo que queima em busca do céu impossível.
Nesse sentido, Fire! é também um drama intenso, um drama humano e pessoal em que veremos a busca de uma pessoa por um lugar num mundo que não foi feito para ele.
Assim, Aaron não é uma outra coisa senão um daqueles astros do Rock que se veem deslumbrados pela fama, mas não desejam sucumbir ao sistema, querendo que a música seja apenas uma forma de expressão e não de ganhar dinheiro e ficar rico. E dessa sua atitude advém muito do interessante drama da obra.

Agora falando em questão de forma narrativa, o mangá tem um tom muito novelesco, com muitos acontecimentos em profusão, choros a torto e a direitos, brigas, paixões não correspondidas, etc, etc, etc.
Fire! daria, sem qualquer problema, um bom dramalhão mexicano como um A Usurpadora ou Maria do Bairro, com os núcleos principais e o aparecimento e o reaparecimento de personagens em momentos chave, muitas tramas se sucedendo, dentre várias outras coisas.
A autora coloca uma carga dramática forte a (quase) todo momento e que encanta por causa disso, com diversos desdobramentos intensos e que angustiam ao vermos a aflição dos personagens, seja na questão da briga pelo sucesso (outras bandas que rivalizam com a “Fire!”) ou os amores correspondidos e não correspondidos (de Aaron ou por Aaron).

Para além disso, o mangá também tem críticas sociais. A obra se passa nos Estados Unidos na década de 1960 e a autora não deixa de lado os problemas do país.
Fire! critica o tratamento desumano dos presos na época, fala sobre dar uma segunda chance às pessoas, apresenta a perseguição aos negros (ainda que de forma um pouco superficial) e apresenta o modo como as bandas poderiam ser vistas se fossem minimamente diferentes do “padrão”.
O final (toda a parte final) é bastante inteligente nesse sentido, pois ela coloca essas críticas e junta com tudo o que vinha sendo trabalhado no mangá (os dramas pessoas e profissionais do protagonista, o fogo por algo além, o desejo da “música pura”, etc) e cria uma resolução muito justa.
A autora crítica o mundo da época, a maneira como as pessoas tratam a arte, mas também mostra o que acontece com quem deseja uma realidade utópica.
Fire! termina de um jeito sensacional, reunindo àquela chama, aquela paixão pela liberdade, e mostrando uma resolução perfeita, mostrando que às vezes é necessário se rebelar contra o mundo para poder se encontrar em paz consigo mesmo, mas que infelizmente o mundo não aprovará isso e isso trará consequências desagradáveis.
Em outras palavras, a obra mostra de um jeito inteligente que é possível lutar por um ideal, mas que se deve estar pronto para os impactos claros e óbvios que um mundo cruel, dominado pela “normalidade” e pelo “dinheiro”, poderão impor a você.

A FORMA NARRATIVA E AS DUAS PARTES DE UM MESMO MANGÁ
Quando falamos de forma ou modo narrativo, Fire! pode ser dividido em duas partes no quesito qualidade. Uma primeira parte que compreende cerca de 200 páginas, e uma segunda parte com o resto.
Na primeira parte se trata de um mangá com uma quantidade de acontecimentos insana, um após a outro, quase sem fôlego: em um momento estamos diante de um atropelamento, em outro a mãe do protagonista aparece e quase em seguida já vemos uma “briga” no ramo musical com a “estreia” de Aaron.
Nesse sentido, o mangá não dista muito de algumas obras mais juvenis de Osamu Tezuka e demais autores das décadas de 1960 e 1970, com essa sucessão de acontecimentos constantes, de maneira que não é um estilo que a gente já não conhecesse, mas igualmente não é um estilo que agradará todo mundo.
Aqui a gente ainda está conhecendo os personagens e essa sucessão de acontecimentos sem pausa faz com que a gente demore a apreender suas figuras e a nos importarmos melhor com eles.
Em outras palavras é como se a gente estivesse em uma festa com uma música alta e não conseguisse se aconchegar naquele lugar, pois de um lado tem gente falando uma coisa, de outro lado tem gente se beijando, no outro dançando e assim por diante.

De um lado, isso acaba sendo uma experiência ruim para nós leitores, pois esse ritmo frenético e essa bagunça na história acaba cansando, principalmente pelo excesso de texto. Desse modo, é preciso sempre dar pausas para conseguir descansar o corpo e a mente e conseguir acompanhar a trama.
Por outro lado, esse estilo representa bastante a figura do protagonista. Aaron é essa pessoa que não sabe o que fazer da vida, que está perdido, sem rumo e que só vê graça na música. E um turbilhão de coisas acontece em sua vida após ele sair da cadeia e ele acaba tendo que se virar e se adaptar até o momento em que ele reúne e banda e comece a fazer sucesso.
A segunda parte é melhor. Ainda acontece uma profusão de acontecimentos um após o outro, mas agora com um pouco mais de calma e parcimônia. Para além disso, a gente já entende bem os personagens principais e tudo começa a fluir melhor, o romance ganha mais destaque, o drama pesa a mão em alguns momentos e assim por diante.
É aqui que a obra nos passa mais emoção em cada um dos acontecimentos, como os primeiros pedidos na Rádio, os primeiros discos vendidos, o sucesso instantâneo, melhores críticas sociais, etc, etc, etc.
E embora a gente possa dividir o modo narrativo em duas partes, é tudo uma coisa só, uma coisa intensa, que não deixa que a gente respire adequadamente. O que pode ser algo bom ou ruim, a depender do que se espera…

CONCLUSÃO: CLÁSSICOS SÃO CLÁSSICOS?
Clássicos não são clássicos apenas por serem antigos, mas sim por terem coisas inovadoras, características únicas ou marcarem uma época, influenciarem gerações posteriores, etc, etc, etc. Há livros inteiros dedicados a explicar o que são clássicos e os motivos deles continuarem em voga e a importância de lê-los.
Isso não quer dizer que todos os clássicos funcionem hoje em dia, principalmente quando falamos de mangás e cultura pop. Algumas obras, quando você vai ler parece o clichê do clichê, mas na época era uma novidade que ninguém havia feito antes. Outras acabam datadas em termos de conteúdo e temas, dentre diversas outras coisas.
Quando Fire! foi anunciado no Brasil gerou uma grande comoção, pois era um título que muita gente do meio conhecia a importância, mas ninguém (ou quase ninguém) havia lido de fato. Tanto que a edição da Pipoca & Nanquim foi a primeira a sair no ocidente.
Basicamente, a obra era conhecida por ser o primeiro mangá shoujo (dedicado ao público feminino juvenil) a ter um protagonista masculino, além de mostrar cenas de amor e sexo. Para além disso, sua autora era conhecida por sua luta política (ter ajudado na formação de um sindicato) e por suas abordagens contestadoras.
Assim, Fire! chegou ao Brasil com expectativa, como uma obra interessante e importante para a demografia shoujo, coisa que não se via desde, talvez, Rosa de Versalhes em 2018/2019.
Entretanto, ao contrário do citado Rosa de Versalhes, Fire! não necessariamente agradará boa parte dos leitores. Quando falamos de temáticas e acontecimentos, Fire! poderia facilmente ser um mangá criados nos dias de hoje que não estranharíamos em nada, a formação de uma banda, o amor, o confronto, etc. O que complica a obra é a forma.
O estilo novelesco, com coisas acontecendo o tempo, além do drama exacerbado em diversos momentos, pode fazer com que as pessoas estranhem e desistam do título em poucas páginas.
Mesmo quem continuar pode acabar não gostando, pois a gente não tem muito tempo para respirar e refletir sobre os acontecimentos.
Pode ser algo impactante ou algo trivial, a história apenas continua, sem que a gente tenha um tempo para pensar no que aconteceu e isso deixa uma sensação de vazio, como se a obra não quisesse apresentar e nem dizer nada, o que obviamente não é o caso.
A grande questão, na minha opinião, é que a obra é feita para a gente “sentir”. Sentir a mesma angústia de Aaron, sentir o mesmo desejo de liberdade, sentir que estamos presos em uma corrente (chamada “dinheiro”, chamada “capitalismo”) e que precisamos nos libertar.
Nem todo mundo vai conseguir sentir, nem todo mundo vai se libertar. E a obra acabará talvez sendo relegada por essas pessoas. Ainda assim, Fire! é um mangá que eu recomendo para vocês tentarem ler, pois é algo diferente e que vale conhecer.
De minha parte, a exceção do início onde não foi possível se conectar com os personagens, o restante do mangá foi excelente, mas é tudo na questão do sentir, do interpretar a trama por meio de nossos sentimentos, do que estamos vendo e do choque que aquilo causa, mesmo sem uma explicação.
Se você tiver dinheiro sobrando, pense com carinho em Fire!, pois ele pode ser um grande surpresa para vocês, com ele mostrando o poder de um clássico. MAS é preciso ter em mente que talvez o início não lhe agrade e talvez você queira abandonar a obra em algum momento…
Esta resenha só foi possível graças à editora Pipoca & Nanquim que nos enviou os dois exemplares.
Ficha Técnica
Título Original: ファイヤー!
Título: Fire!
Autor: Hideko Mizuno
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Número de volumes no Japão: 2 (completo)
Número de volumes no Brasil: 2 (completo)
Dimensões: 15 x 22 cm
Miolo: Papel Pólen Bold 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 458
Classificação indicativa: não divulgado
Preço: R$ 109,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Estados Unidos, final da década de 1960. Preso injustamente em um reformatório, o jovem Aaron encontra refúgio na música e nas mensagens de liberdade de seu colega delinquente, Fire Wolf. Após sair de lá e conhecer um grupo de músicos em Detroit, ele decide espalhar a palavra de Wolf pelo mundo, encantando a todos com sua voz e o violão herdado de seu amigo, enquanto alcança o estrelato e estoura nas paradas de sucesso com a banda de rock Fire! Lançado originalmente entre 1969 e 1971 na revista Seventeen, da editora Shueisha, Fire! logo se destacou entre os mangás shoujo (voltados para o público feminino jovem) de sua época, por seu estilo moderno e contestador. Repleto de mensagens libertadoras, reviravoltas surpreendentes e homenagens a grandes clássicos do rock, foi um dos primeiros quadrinhos japoneses de sucesso a abordar temas como amor e sexo, racismo contra negros, drogas e o movimento hippie, tornando-se uma febre entre adolescentes de todos os gêneros.
NOS SIGA EM NOSSAS REDES SOCIAIS
