Resenha: “Blank Canvas #01 e #02”

Aquela autora que a gente adora

Blank Canvas é um mangá de Akiko Higashimura e foi publicado originalmente no Japão entre 2011 e 2015 na revista Cocohana, da editora Shueisha, tendo seus capítulos compilados em um total de cinco volumes. A obra é uma autobiografia em que a autora conta um pouco dos detalhes de seu sonho de virar mangaká e sua trajetória no mundo da arte.

O título conseguiu alguns prêmios importantes no Japão, ganhando o 8º Manga Taisho e o Grande Prêmio da categoria mangá do 19º Japan Media Arts Festival, ambos em 2015.

No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Devir em fevereiro de 2023, durante uma live para o canal Fora do Plástico, e na ocasião foi dito que a pretensão era lançar ainda em abril daquele ano. Entretanto, o tempo foi passando, passando e o lançamento efetivo só ocorreu mesmo no fim de 2024.

Foram lançados os dois primeiros volumes (um em novembro e outro em dezembro) e de posse deles viemos falar um pouco da história para vocês.


A HISTÓRIA EM LINHAS GERAIS


Blank Canvas é uma autobiografia, então a personagem principal é a própria Akiko e veremos ela relembrando os dias de sua juventude, o modo como ela começou a desenhar, o amor dela por mangás shoujos, o desejo de se tornar uma autora, dentre outras coisas.

A história se foca, mais especificamente, no período que compreende o seu último ano escolar (e a sua ânsia de conseguir entrar em uma universidade pública em um curso de artes) e anos seguintes (com ela frequentando a universidade e tudo mais) e veremos ela em meio às típicas crises e anseios da juventude.


DESENVOLVIMENTO


A obra é um grande livro de memórias e a autora não esconde o seu lado infantil de quando era jovem, ela fala de seus desejos grandiosos e irreais (como se achar muito boa no desenho, além de esperar fazer sucesso com mangás ainda na época da faculdade) e de seus grandes arrependimentos, sobretudo em relação a um certo professor de artes, Hidaka.

Embora a história seja de Akiko Higashimura, uma boa parte da trama está envolta nos pensamentos da autora em relação a Hidaka, a quem ela conheceu em seu último ano escolar, quando buscava melhorar sua técnica para conseguir passar em alguma faculdade.

Hidaka é retratado como um professor um tanto truculento, que batia e insultava seus alunos, mandando refazer seus trabalhos a torto e a direito, com Akiko penando em suas mãos. Ocorre que, porém, o mangá parece uma grande ode a Hidaka, com a autora querendo fazer uma homenagem a ele e mostrando que não estaria onde está se não fossem seus ensinamentos.

Assim, a autora mostra em detalhes as facetas dele (embora seja agressivo na questão de aprendizagem, fora da aula  ele era uma pessoa bondosa e que se preocupava com seus alunos) e demonstra um grande carinho para com o passado, desejando ter aproveitado melhor o tempo livre com seu professor e, mais que isso, não ter agido como uma idiota juvenil.

Por mais que a gente olhe para o professor e veja atitudes impensáveis para o mundo de hoje, e com a autora também deixando claro que não gostava de seus métodos na época, Higashimura trata ele como uma certa aura de deidade, como se tudo o que ele fez fosse para o bem dela.

Isso fica bem claro, por exemplo, em um determinado momento da seleção universitária em que ela tem uma enorme facilidade em desenhar a modelo, sendo que seu treinamento foi um enorme sofrimento com ela tendo que desenhar a si mesma por meio de um espalho.

Mas assim como a obra parece desejar mostrar como o professor Hidata a ajudou, o mangá também não deixa de apresentar todos os defeitos juvenis da autora. Isso vai desde questões na época de escolar até o tratamento que ela deu ao seu curso de artes e às pessoas em geral.

Desse modo, a autora vai revelando mágoas consigo mesma (de não ter revelado a Hidaka que queria ser mangaká, de não ter ido ao mar com ele, de não ter sido uma boa aluna na faculdade e não ter tratado bem ao professor quando ele foi visitá-la, etc, etc, etc) e engrandece mais ainda a figura dele a cada instante.

O mangá apresenta essa mescla e faz com que a gente pense também em nossas escolhas, em nossos erros do passado e tudo mais. O segundo volume é bem aflitivo nesse sentido, pois a autora não se poupa em dizer como era sua vida universitária, com ela não aproveitando as dicas e os ensinamentos e sempre matando aula a torto e a direito.

O ponto principal desse mangá ser autobiográfico é que a gente vê a autora falando do “hoje”, do auge da sua maturidade, e mostrando a sua burrice juvenil e desejado voltar ao passado. E a gente fica angustiado com ela, pois inevitavelmente lembramos de nossas mancadas para com pessoas que só nos queriam bem.

Mas Black Canvas não se resume a isso. A autora domina bem a arte do cômico e não tardam passagens de humor em todo o mangá. O delinquente que virou artista, o professor Hidaka cobrando uma aposta, dentre diversas outras coisas. Assim, o mangá mistura aquela emoção do nostalgia do passado (por si só um pouco melancólicas ou dramáticas) com o humor dos bons momentos.

Desse modo, por mais que o drama fique em foco, a obra também nos faz sorrir. Nesses dois volumes de Blank Canvas, o mangá se mostrou uma belíssima obra de vida cotidiana, que nos ensina, que nos traumatiza, que nos faz rir e que nos faz pensar. Blank Canvas é um mangá brilhante.


A EDIÇÃO BRASILEIRA


A edição brasileira de Blank Canvas veio no formato padrão dos mangás básicos da Devir, no tamanho 12,5 x 19 cm, com capa cartão simples e miolo em um papel de cor creme (de uma marca não divulgada). O mangá tem pouco mais de 150 páginas e custou R$ 40,00 por volume.

É um mangá básico, mas tem um acabamento geral bem bom para o meu gosto. A encadernação é mais “leve” do que outros mangás da editora no mesmo formato e isso faz com que ato de ler e folhear sejam mais “macios”. Assim você também consegue abrir as páginas um pouco mais do que o normal.

O papel é de uma cor creme um pouco mais alva do que outros da empresa, então você verá um pouco de transparência aqui e ali, mas não é algo gritante e na maior parte do tempo você nem perceberá que existe.

Em se falando de texto, a tradução (e adaptação) foi muito boa e não vi quaisquer problemas de revisão ortográfica, coesão ou coerência. Nesse sentido, o texto está perfeito.

Entretanto, senti alguns problemas na parte do letreiramento, em especial no primeiro volume. Quem ficou responsável por essa parte foi o Studio Patinhas, que também faz Bokurano para a Devir. Só que diferente de Bokurano, Blank Canvas tem detalhes que incomodaram.

Particularmente o pior problema foram as notas de rodapé, em que algumas partes foram dispostas de uma forma meio equivocada, ficando “perdidas” no meio dos quadrinhos ou sendo de difícil leitura. Nesse mesmo ínterim, achei que o * (asterisco) colocado em textos em japonês foi muito maior do que deveria, destoando um pouco do geral.

O asterisco grande e a nota de rodapé totalmente fora de lugar.
O asterisco grande. Já a nota de rodapé parece normal pela foto, mas na leitura ao vivo tem que forçar a vista para ler.
É a mesma nota do rodapé , e novamente parece normal, mas ao vivo é difícil de ler.

Para além disso, o mangá é repleto de texto, daí que algumas decisões acabaram deixando a página mais cheia ainda do que o normal. No caso, essas placas em japonês, por exemplo, podiam ter sido editadas e traduzidas em vez do colocar notas de rodapé e isso faria com essa questão de poluição visual fosse menor.

Por fim, as fontes dentro dos balões pareceram ligeiramente maior do que precisariam ser, mas em contrapartida algumas partes estavam com um fonte de tamanho muito diminuto (vai entender…).


CONCLUSÃO


Eu já conhecia Akiko Higashimura do mangá Princesa Água-Viva (Kuragehime, ainda inédito no Brasil), então eu tinha grandes expectativas para sua obra autobiográfica. Entretanto, ainda assim, eu fui surpreendido positivamente, com o tom da trama misturando humor e drama de um jeito bem genuíno e interessante.

O primeiro volume já foi digno de elogios de minha parte, mas o segundo foi o suprassumo da excelência, tornando-se uma história bem gostosa de ler, tão boa, mas tão boa que eu não consegui passar nem um décimo da qualidade da obra nessa resenha.

E nem foi por falta de tentativa, eu reescrevi e reescrevi o texto várias vezes e em nenhuma ficou do jeito que eu queria. O que eu posso dizer, então, é que você tem que ler o mangá para compreender o quão bom ele é.

***

O trabalho da Devir poderia ser melhor, mas acho que a edição nacional está boa e vale a pena a aquisição.


Ficha Técnica


Título Original: かくかくしかじか
Título: Blank Canvas
Autor
: Akiko Higashimura
Tradutor: Karen Kazumi Hayashida
Editora: Devir
Número de volumes no Japão: 5 (completo)
Número de volumes no Brasil: 2 (ainda em publicação)
Dimensões: 12,5 x 19 cm
Miolo: Papel Offwhite (marca desconhecida)
Acabamento: Capa cartão
Páginas: 156 páginas
Classificação indicativa: não divulgado
Preço: R$ 40,00
Onde comprar: Amazon

SinopseBlank Canvas é um mangá autobiográfico da premiada autora Akiko Higashimura (Princess Jellyfish e Tokyo Tarareba Girls). Ela conta, de forma muito sincera, toda a sua jornada para se tornar uma mangaka de sucesso. A estudante do ensino médio Akiko tem um grande sonho: ela quer se tornar uma mangaka popular antes de terminar a faculdade. Mas ela precisa melhorar muito no desenho se quiser atingir esse objetivo. Procurando uma solução fácil, ela se inscreve em um curso de arte, por sugestão de uma amiga, para aumentar suas chances de entrar em uma boa faculdade. Para a surpresa da jovem, seu novo professor dá aula empunhando uma espada de bambu e não se importa nem um pouco com mangás. Mas talvez esse professor não convencional seja exatamente o que ela precisa para realizar seu sonho!