Mangá Aberto: “Gaia”

Veja como está o mangá

Um produto para poucos: com poucas páginas e preço elevado. Esse é o mangá Gaia, de Asagi Yaenaga, lançado agora em maio de 2025 pela editora Darkside Books.

Em mais uma postagem da nossa coluna “Mangá Aberto” (dedicada a avaliarmos a edição física de um mangá), viemos apresentar ele, mostrar fotos do produto e compartilhar a nossa opinião, dizendo se recomendamos a obra ou não.


UM POUCO SOBRE A OBRA


Gaia é o mangá de estreia de Asagi Yaenaga (um ilustrador e mangaká japonês) e foi publicado originalmente na Itália, em 2022, pela editora Hollow-Press, de maneira simultânea nos idiomas japonês, italiano e inglês.

Se trata de uma obra publicada em tamanho A4 (21 x 29,7 cm), feita majoritariamente em caneta esferográfica e possui sentido de leitura ocidental.

Apesar de algumas páginas terem mais quadrinhos do que a média, possui a mesma estilização de um mangá convencional. Então, mesmo com o sentido de leitura ocidental, um leitor de mangás não estranhará a quadrinização.


UM POUCO DA HISTÓRIA


A história de Gaia é um pouco confusa. Ela se passa num mundo em que se acabou e seguimos uma menina que deseja encontrar um certo lugar, ao mesmo tempo em que busca a “felicidade” e/ou a “razão para ter nascido nesse mundo”.

Conquanto vá caminhando e encontrando companheiras, a menina se deparará com inimigos pelo caminho e que buscarão eliminá-las.

É uma narrativa estranha e diferenciada (não exatamente de maneira positiva) e que não deve agradar todo mundo. É uma história que poderia se chamar de “cult”, aquela história mais cabeça, para poucos, muito embora a trama não seja necessariamente desse estilo.


FORMATO E DETALHES DA EDIÇÃO BRASILEIRA


A edição brasileira de Gaia veio  em capa dura (com verniz localizado) e em formato similar à edição original italiana, com o tamanho de 21 x 30 cm. O papel utilizado no miolo, por sua vez, foi o Offset (aquele branco).

Diferença de tamanho entre Gaia e um mangá padrão da Panini

CAPA, QUARTA-CAPA E LOMBADA


A capa da edição brasileira é uma criação própria da Darkside Books. A empresa pegou a ilustração principal da primeira página e contrapôs com um olho, sendo essas duas imagens divididas por uma faixa.

Como é costume nos mangás da editora, os caracteres em japonês e o nome do autor (que, inclusive, aparece duas vezes em letras romanizadas) ganham mais destaque do que o nome da obra. É um estilo que costuma ser bem desagradável e não é diferente aqui, mas particularmente eu não achei tão ruim assim.

A quarta-capa, por sua vez, também têm algumas imagens do mangá em contraposição a um olho, sendo cortado pela faixa. Nela (na faixa) junto ao logo da editora, do código de barras e dos caracteres em japonês, há a sempre importante sinopse para os consumidores de lojas físicas saberem do que se trata e não comprarem algo no escuro.

A faixa (tanto na capa, quanto na quarta-capa e na lombada) são em verniz, então ela tem um leve brilho quando movimentado contra a luz. O restante é em acabamento fosco.

Falando da lombada, especificamente, por ter poucas páginas ela é fina. O que desagrada, porém, é que ela não tem o nome do mangá. A editora colocou o nome do autor em caracteres japoneses e o nome da Darkside e só. Não tem o nome do mangá nem em caracteres japoneses, nem romanizado.

Ao olhar na estante você facilmente poderia confundir com uma edição estrangeira.


GUARDAS, PRIMEIRAS E ÚLTIMAS PÁGINAS


As guardas (as capas internas das obras em capa dura) possuem a mesma ilustração, com algumas dezenas de olhos. A imagem é de uma página dupla importante do mangá.

Após a capa interna da frente temos o logo da Darkside e, em seguida, uma página com a ilustração de um olho. Do lado temos a folha de rosto, com o título, nome do autor, da tradutora, etc.

Após a capa interna de trás temos uma página com o logo da editora. Em seguida uma com o expediente e a ficha catalográfica. Logo depois, uma minibiografia do autor.


PAPEL


O papel utilizado no miolo é o Offset, o famoso papel branco usado em todos os mangás da editora Darkside Books. É também o mesmo usado nas novas edições de InuYasha, 20th Century Boys, dentre outros mangás.

É um papel bem interessante para o mangá, pois grande parte de sua tonalidade é mais escura e acaba ficando um bom contraste entre a página e os diversos tons de preto.


ENCADERNAÇÃO E ACABAMENTO GERAL


Se trata de uma edição de luxo, em capa dura, então o acabamento e a encadernação são excelentes. Não tem mais o que comentar. É um item premium de verdade.


TEXTO


Em relação ao texto, achei ele bom, sem quaisquer problemas linguísticos ou de revisão. É bem coeso, coerente e a tradução e a adaptação me parecem também sem problemas.

O único problema que vi foi fora do contexto da obra. Na ficha catalográfica, a editora colocou o nome da tradutora errado uma vez (Jésica em vez de Jéssica).


CONCLUSÃO


Gaia possui apenas 64 páginas e seu preço é R$ 79,90. É comum se argumentar que, por ser um formato grande, o preço se justifica, apesar da baixa quantidade de páginas. É algo que faz um certo sentido, mas há detalhes que deixam a gente bem desconfortável.

Como dito em tópicos anteriores, Gaia é um mangá normal. Até existem páginas com mais quadrinhos do que a média, mas não é nada que diste tanto e, assim, a história termina voando, de maneira que a gente olha e fica sem entender o porquê de ter gastado o dinheiro.

Vamos reformular: os desenhos de Asagi Yaenaga são bem expressivos, impactantes, ainda que pareça simples. Então, em nossa opinião, a arte (toda sombria) é a melhor qualidade do mangá, pois ela dialoga bem com a história, de um mundo em que se acabou, estranho, esquisito, etc. Só que a história não é lá tão boa e é esse o grande problema.

Mesmo para a gente que gosta de uma história diferente e que foge do padrão, Gaia acaba sendo bem confuso e pouco atrativo, com uma trama que tenta entregar algo bem valoroso, crítico, mas não consegue fazer adequadamente, deixando a gente pensativo não em relação a possíveis questionamentos e sim em buscar entender quais seriam esses questionamentos.

Existe um tema bem óbvio, o fim do planeta terra feito por ela mesma, em vista da destruição causada pelos humanos e tal, só que o todo é muito vazio e a gente lê, lê, relê e fica sem entender se havia mensagens mesmo ou se só houve tentativa.

Gaia só deve agradar a uma pequena parcela do público, que gosta de obras cults, que curte ficar adivinhando significados ocultos (mesmo quando não há ou são mal feitos), etc, etc, etc.

Na verdade, talvez alguns outros de vocês também gostem da trama, pelo lado sombrio e obscuro da coisa, mas para a grande maioria do público, Gaia é apenas um amontoado de coisas sem sentido e isso, aliado ao número de páginas e ao preço faz com que a gente não goste da obra e não recomende para vocês.


Ficha Técnica


Título Original: Gaia (ガイア)
Título: Gaia
Autor
: Asagi Yaenaga
Tradutor: Jéssica Ilha da Silva
Editora: Darkside Books
Número de volumes na França: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 21 x 30cm
Miolo: Papel Offset
Acabamento: Capa dura
Páginas: 64
Classificação indicativa: não divulgado
Preço: R$ 79,90
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Em um lugar em que o conceito de tempo e as leis da natureza deixaram de existir, uma jovem desperta de um longo sono e parte em uma jornada em busca do significado da sua existência. Dotada de poderes especiais e orientadas pelos sentidos, ela e as companheiras precisam trilhar um caminho até a Terra de Origem, onde esperam descobrir respostas para suas dúvidas e o verdadeiro propósito de suas vidas. Tem início então uma batalha sangrenta entre a esperança e o desespero e, diante das mais inesperadas ameaças, a resistência de muitas almas se torna essencial para seguirem adiante. Haverá felicidade ao fim desse percurso? Este é o ponto essencial de Gaia, a primeira obra de Asagi Yaenaga, uma estreia marcante para o mangaká japonês, que desde a infância tinha predileção por filmes e mangás de horror, admirando obras de autores como Shigeru Mizuki e Kenji Tsuruta,. Em seu processo criativo, Yaenaga valeu-se de influências de técnicas de desenho usadas por Junji Ito e Suehiro Maruo para acentuar o estado emocional dos personagens e a atmosfera de horror. A obra traz uma visão singular sobre o equilíbrio da vida e da natureza, inspirada na teoria da autorregulação da Mãe Terra, conceito conhecido como a Hipótese de Gaia. Com uma narrativa subjetiva e repleta de horror surrealista, o autor convida o leitor a refletir sobre a relação entre a humanidade e o planeta, e nos lembra de que a Natureza sempre cobra um preço por toda a destruição ocasionada nos últimos séculos. Em tempos tão desafiadores como os atuais, a obra encontra ressonância com a crescente preocupação a respeito da preservação da Terra, condição essencial de nossa própria existência. Ao tocar na ferida de uma humanidade que de forma contínua e crescente destrói seu próprio ambiente de vida, Gaia serve como um alerta da necessidade de transformação, e reflete que, quando atacamos o grande organismo que nos abriga e permite nossa existência, estamos atacando a nós mesmos e a todos os seres vivos que habitam o planeta. Haverá esperança ou apenas desespero? Somente sua própria alma sabe a resposta.