Mangá Aberto: “A Sala Secreta do Lago”

O primeiro lançamento da editora Novo Verso

A Sala Secreta do Lago é um mangá de autoria de Kennosuke Niizeki e foi publicado originalmente no Japão na década de 1940. Ele está em domínio público desde 2024, quando completaram 70 anos da morte do autor.

Com tradução de Larissa Shibuya Comba, o mangá foi trazido ao Brasil pela editora Novo Verso em 2025, primeiramente em formato digital e posteriormente de maneira impressa, esta tendo saído nos últimos dias do ano.

O lançamento impresso ocorreu em parceria com a Cedet, empresa responsável pela impressão e distribuição de livros para algumas editoras. Adquirimos o volume ainda ano passado e agora viemos mostrar o mangá para vocês. Antes, porém, faremos um pequeno disclaimer sobre a editora e o status da nossa postagem.

  • A EDITORA NOVO VERSO

A Novo Verso é uma nova editora, fundada em 2025 e com sede no Piauí. É a primeira editora de mangás nascida nesse estado, o que configura uma grande novidade e um passo bem importante para o mercado de mangás, pois se trata de uma expansão para fora do eixo São Paulo/RJ/SUL.

Ademais, a editora iniciou com uma proposta de trazer mangás em Domínio Público, isto é, obras antigas, de autores que faleceram há mais de 70 anos e que, portanto, não precisam de longas e demoradas negociações com detentores das licenças. Mais que isso, a vinda de tais obras nos apresenta uma nova faceta dos quadrinhos japoneses (pré-Osamu Tezuka) e que dificilmente teríamos acesso pelas editoras tradicionais (ou mesmo por “meios alternativos”).

O próprio A Sala Secreta do Lago é um mangá de um estilo bem diferente, mais juvenil e que lembra muito uma história de aventura dos Duck Tales ou Turma da Mônica.

Então, todo esse involucro do surgimento dessa editora e da escolha editorial é muito valioso para nós e para o mercado de mangás, pois é uma nova história, um acréscimo necessário para a ampliação dos quadrinhos japoneses no Brasil, de maneira que o BLOG BBM deseja que a editora dê certo, cresça bastante e mais e mais publicações apareçam por ela.

  • MANGÁ ABERTO

Mangá Aberto é uma coluna de resenhas em que a gente apresenta a edição física de um mangá, geralmente um lançamento, mostrando suas características (físicas e editoriais) e emitindo algumas opiniões aqui e ali, sempre buscando expor da forma mais transparente possível as nossas impressões, sejam elas positivas ou negativas.

Isso serve tanto para que vocês, leitores, possam ter uma base para decidir comprar ou não o produto, quanto também para que as editoras vejam o que precisam e o que não precisam melhorar.

Por ser a primeira obra a empresa, a presente postagem terá muitos apontamentos à edição brasileira de A Sala Secreta do Lago e, mesmo a gente desejando o sucesso da editora, não deixaremos detalhar os problemas, pois é uma questão de lisura para com vocês.

Dito isso, vamos à postagem em si:

A capa do mangá

A edição impressa de A Sala Secreta do Lago veio no formato 14 x 21 cm, com um papel do tipo offwhite e capa cartão. São 72 páginas no total, todas em preto e branco.

É uma edição daquelas bem simples e básicas, com miolo apenas colado. Por ter poucas páginas, a sensação de simplicidade é maior, como se a gente tivesse em mãos um dos famosos meio-tankos do passado. Entretanto, possui uma boa encadernação, sendo possível ler e folhear o mangá sem problemas.

Acerca da capa, o material é bem semelhante ao da maioria dos mangás no Brasil, sendo daquelas comuns e não possuindo nem orelhas, nem sobrecapa. O acabamento é em laminação fosca, mas sem detalhes adicionais.

Em questão de design, a editora usou a mesma ilustração da versão original dos anos 1940, mas com tudo traduzido para o português obviamente.

A lombada do mangá

Sobre o tamanho, em largura o mangá é semelhante aos da Panini, MPEG e Baú e em altura é igual a alguns títulos premium como 20th Century Boys, Sanctuary, Soul Eater Perfect Edition e Neon Genesis Evangelion – Collector’s Edition.

Como é uma obra com poucas páginas, a lombada é fininha e ela até desaparece da estante, ainda mais por não ter nada chamativo nela.

Agora acerca da quarta-capa temos a importante sinopse, o logo da editora, o código de barras com o ISBN e uma ilustração. É uma composição bem simples no geral.

Tanto na capa, na lombada e na quarta-capa foram usadas fontes padrão (ou que parecem padrão) e isso, aliado ao design simplista, mostra pouco refinamento gráfico nesse primeiro lançamento da editora, parecendo um produto dos anos 1990 ou início dos anos 2000.

A quarta-capa (parte de trás) do mangá

Entrando agora dentro do mangá, as capas internas são inteiramente brancas. Isso é bastante normal em livros e mangás e não há nenhum demérito em ser assim, mas como algumas editoras costumam colorir essa parte, é importante mencionar também para vocês, leitores, saberem.

Ainda nesse ínterim, após a capa interna da frente temos uma folha em branco, seguida de uma folha de rosto e um sumário. Logo depois já começa a história do mangá.

Capa interna da frente

Após a capa interna de trás, temos o tradicional aviso de “Pare!” e aí descobrimos o porquê do nome da editora ser Novo Verso (o verso nos mangás fica onde em publicações ocidentais é o começo, por isso é um “novo verso”).

Assim como na maioria dos mangás, o aviso é composto por um pequeno texto e um desenho explicativo, sempre importante para leitores novatos. Esse é um ponto muito positivo, pois existem editoras novatas que apenas colocam um texto, sem especificar como se deve ler.

Após essa parte temos uma pequena biografia do autor e, em seguida, a página com o expediente e ficha catalográfica. Novamente, esse é um ponto positivo, pois há editora no mercado brasileiro com quase 20 anos de existência que não coloca ficha catalográfica em seus mangás.

Capa interna de trás e o aviso de “Pare!”
Biografia do autor, expediente e ficha catalográfica

Falando do conteúdo, o mangá é composto por 6 capítulos de poucas páginas cada um, contando a história que dá título ao mangá. Diferente da versão digital (que possui tons de laranja em todas as páginas), a versão impressa é toda em preto e branco.

Particularmente, eu acho isso um demérito, pois as cores da versão digital são bem bonitinhas e seria bom ver elas no papel também.

Acerca do papel, ele é do tipo offwhite (aqueles de cor creme), mas não há o nome da marca divulgada. Parece o Pólen Bold em alguns momentos, mas não tenho como dar certeza.

Embora em algumas fotos pareça que ele tem problemas de transparência, o papel, na verdade, é bem bom e não há esse óbice, principalmente porque o mangá é por inteiro em tons mais escuros…

Se você forçar a vista você consegue ver as letras da parte de trás, mas no ao vivo é praticamente imperceptível.

Agora falando sobre a fonte usada, ela me causa uma grande estranheza. Eu não sei se é pelo tamanho empregado ou se é por ser do tipo padrão (ou parecer), mas a gente fica o tempo todo com um certo desconforto, de que algo está errado.

A diagramação dentro dos balões está ok na maioria das partes, mas existem alguns em que o texto preenche o balão por inteiro, causando uma certa poluição visual. Entretanto, mesmo quando os balões têm pouco texto, a gente sente que tem algo errado, ou é o tamanho da fonte ou o tipo de fonte, etc.

Notem que está tudo bem centralizado, direitinho e sem problemas. Mas há alguma coisa no jeito que foi feito que causa estranheza, pois é bem diferente dos mangás de outras editoras.
O primeiro quadrinho superior à direita está carregado, poluído visualmente. O “A” de “As Noites” chega a encostar nas bordas do balão, o mesmo vale para o ponto final.

Já as poucas onomatopeias são mantidas no original e a editora coloca uma legenda nelas, como é comum na maioria das editoras.

Entretanto, as legendas ficam meio dispersas, não estando integradas às onomatopeias. Isso acaba acarretando certos problemas, pois o tamanho da fonte usada nelas é exagerado e às vezes a tradução fica meio jogada dentro dos quadrinhos,

A legenda ficando muito jogada no primeiro quadrinho.
Novamente legenda totalmente jogada e dispersa em relação à onomatopeia.

Para título de comparação vejam abaixo como as outras editoras deixam as legendas bem integradas às onomatopeias, em alguns casos até mesmo com o uso de fontes semelhantes.

Mangás Vampeerz #04 (JBC) e Correspondência do Fim do Universo #01 (Baú)

Agora, em relação ao texto em si, eu senti alguns incômodos na questão da coesão, na continuidade textual em certas passagens aqui e ali, mas muito disso me pareceu ser algo vindo do original, que trabalhava com poucos balões.

Em questão de revisão, a editora deu duas derrapadas marcantes. Logo na página 7 temos um balão em que parece que a editora mudou de ideia sobre a forma que seria a adaptação e esqueceu de apagar o anterior.

Podia ser: “Tem uma pessoa estranha ali fora, tome cuidado” ou “Uma pessoa estranha está ali fora, tome cuidado”.

Por fim, outro ponto de deslize foi logo na quarta-capa, com um problema no uso de vírgulas na sinopse, faltando em um lugar e com o excesso em outro. Na verdade, o problema foi mais de construção, pois toda a sinopse foi escrita em um único período, sendo que ficaria melhor com orações mais simples. Após o “revolucionária”, por exemplo, seria possível colocar um ponto e iniciar um outro período.

Esse é um ponto que precisa de bastante atenção por parte da editora, pois a sinopse faz parte da apresentação do produto e tendo qualquer problema ali, pode significar uma venda a menos…


UM VEREDICTO


A editora Novo Verso é uma empresa novata e a ideia de trazer quadrinhos japoneses em domínio público foi bem encantador, pois a gente pode ter a oportunidade de conhecer obras mais longínquas e que até então não estavam disponíveis em língua portuguesa, nem oficialmente, nem “paralelamente”.

A publicação em formato digital foi um grande incentivo, principalmente por seu preço baixo (apenas R$ 5,99), de maneira que – apesar de certos problemas – valia a pena comprar e apoiar a novata editora para que mais publicações assim viessem.

No que toca à edição impressa, ela é bem simples, como abordado, simples até demais em alguns aspectos, mas isso não chega a ser um problema. O papel é bom, a encadernação é ok, então ele cumpre bem a sua função de produto, que é a gente poder ler.

A questão principal diz respeito aos aspectos editoriais. A escolha de fontes, o design, o pouco trato com as onomatopeias, tudo é muito pueril e precisa de melhorias para as próximas publicações da editora.

O preço da versão impressa também é bastante alto para o número diminuto de páginas, mas novamente a questão é mais pelos aspectos editoriais do que pelo valor em si. Pelo preço a gente gostaria de encontrar algo melhor, com um design e letreiramento mais profissional, dentre outras coisas.

Para a versão digital, a gente não exige tanto de uma empresa nova, visto o preço ser baixo, mas para a versão impressa a gente precisa ter algo verdadeiramente bem feito e bem tratado.

***

Eu desejo que a editora dê certo, cresça e traga mais e mais obras para o Brasil. No entanto, também é necessário que a empresa melhore os aspectos apontados.

Acerca desse primeiro mangá, então, ele só é recomendado para quem deseja ajudar a editora ou ter uma versão para registro histórico. Para a maioria do público, eu acho que o ebook tá de bom tamanho…


FICHA TÉCNICA


Título Original: 湖の秘密室
Título: A Sala Secreta do Lago
Autor
: Kennosuke Niizeki
Tradutor: Larissa Shibuya Comba
Editora: Novo Verso
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 14 x 21 cm
Miolo: Papel Offwhite
Acabamento: Capa Cartão
Páginas: 72
Classificação indicativa: Livre
Preço: R$ 34,90
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Em A Sala Secreta do Lago, somos apresentados a Isamu e seu pai Dr. Shigeno, um cientista muito inteligente que criou uma invenção revolucionária, porém, um antigo aliado de pesquisa, o Dr. Kusai, passa a perseguir nossos protagonistas que terão que fazer de tudo um pouco para que a fórmula secreta não caia em mãos erradas.