Resenha: Prophecy

Uma interessante narrativa policial…

Muitos mangás são lançados no Brasil e, por um motivo ou outro, acabam esquecidos ou relegados pelos consumidores locais. Alguns deles, porém, mereciam uma oportunidade por parte de todos devido à trama interessante e bem feitinha. Um desses é o mangá Prophecy.

De autoria de Tetsuya Tsutsui, Prophecy foi publicado no Japão entre 2011 e 2013 na revista Jump X (ou Jump Kay), da Shueisha, sendo concluído em um total de 3 volumes. Na obra acompanhamos uma interessante história policial em que a Lei está atrás de criminosos cibernéticos.

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Prophecy #01. Foto: Editora JBC

A obra chegou ao Brasil em 2014 pelas mãos da editora JBC, completando o título naquele mesmo ano. Lemos o mangá ainda naquela época e agora, depois de uma releitura, viemos comentar nossas impressões para vocês.

  • Sinopse Oficial

O mais novo “viral” do famoso portal de postagem de vídeos são os vídeos de um misterioso homem que usa máscara de jornal e que anuncia os delitos que cometerá em um futuro próximo. Quando a polícia se dá conta de que os crimes estão realmente sendo cometidos conforme anunciados, o departamento anti-crimes cibernéticos entra em ação para desmascarar o criminoso e deter futuros anúncios! Abrem-se as cortinas da peça que retrata o terrorismo em tempos que a informação transborda todas as barreiras da sociedade!

  • História e desenvolvimento

Prophecy é uma história sobre o mundo cotidiano e que debate de forma circunstancial diversos aspectos da sociedade moderna. Na história acompanhamos Erika Yoshino, sub-delegada que está a cargo do departamento anticrimes cibernéticos, e a sua busca por um grupo de criminosos conhecidos como Homem-jornal.

Tal grupo vem oferecendo punições a pessoas que, por algum motivo, causaram um mal-estar na sociedade com o uso da Internet. Só para se ter uma ideia, eles violentaram um sujeito que disse que uma mulher merecia ter sido estuprada, fizeram um sujeito comer barata frita (isso mesmo, barata) por ele ter dito que faria esse prato no restaurante em que trabalhava, fazendo o estabelecimento perder credibilidade, entre diversos outros casos.

A história é basicamente uma investigação policial que busca encontrar esses criminosos e compreender os motivos que estariam por trás da atitude deles. Yoshino não mede esforços nessa sua caçada, chegando a arriscar seu emprego e até a comprar vários computadores caríssimos apenas para conseguir descobrir uma senha que poderia levar ao endereço dos criminosos.

Yoshino seria uma espécie de Capitão Nascimento? Foto: Blog BBM.

Durante os volumes vários assuntos são discutidos. Logo no primeiro capítulo temos, por exemplo, todo um apanhado sobre a pirataria na internet, mostrando que por mais retórica que se use para justificar os downloads ilegais, tudo não passa de um discurso vazio e sem sentido, e que a verdade é que a pirataria é um crime passível de punição como qualquer outro.

Não somente isso, temos em Prophecy uma discussão sobre Flame War (que no Japão ganha níveis surreais) e o anonimato na Internet: o modo como as pessoas, camufladas pelo anonimato adotam atitudes e expressam pensamentos que não teriam coragem de fazer na vida real. No entanto, todas essas questões estão envoltas em uma discussão maior no mangá, a problematização da mídia e das estratégias de manipulação de massa. A obra mostra o quanto a opinião pública pode ser moldada e influenciada pela mídia, seja ela a mídia oficial e tradicional, seja a própria internet.

Homem-Jornal. Foto: Blog BBM

O líder do grupo homem-jornal sabe como as coisas funcionam e planeja todos os passos de sua equipe buscando gerar justamente um clima que propicie à mídia tradicional voltar seus olhos para a rede mundial de computadores. Várias situações no mangá mostram essa estratégia de manipulação. Os membros de uma organização chamada Sea Guardian que tentam editar uma fala da policial, o discurso da mídia e, principalmente, o deputado que contratou um grupo de pessoas para escreverem na Internet à favor de sua ideia de acabar com o anonimato na internet. A obra mostra muito bem como um fato aparentemente inocente pode ganhar grandes proporções e ser usado por pessoas poderosas para se promover.

Sem dúvida alguma, Prophecy é um mangá absolutamente genial, discutindo temas extremamente atuais e de uma maneira muito boa. Talvez tivesse uma aceitação maior se o final dele não fosse tão controverso.

A PARTIR DAQUI HAVERÁ MUITOS SPOILERS QUE PODEM AFETAR SUA EXPERIÊNCIA DE LEITURA DO MANGÁ, LEIA POR CONTA A RISCO

-O controverso final

O líder do grupo Homem-jornal conheceu seus companheiros em uma situação de semi-escravidão. Tinham que trabalhar por horas carregando pedras e não ganhavam quase nada. Eram tratados como peças descartáveis e que não mereciam qualquer consideração. Quando um dos amigos morre e contam ao patrão, este diz para eles enterrarem-no em qualquer lugar e que logo alguém virá substituí-lo. É o fim. Um deles não aguenta e enfia a pá no cara. Os outros, em seguida, fazem o mesmo. Matam o sujeito. Seriam presos. Talvez até condenados à pena de morte.

Porém, Gates (apelido do líder) decide que eles fariam uma coisa antes de se entregarem, dentro de três anos. Essa coisa seria justamente a série de crimes anunciados pela Internet. Mas para quê eles fariam isso? A resposta final diz que o motivo é que eles queriam que o corpo do amigo que morrera fosse entregado ao pai. Vindo das Filipinas, o amigo não sabia quem era ele, apenas sabia que era algum político japonês.

Sim, era isso. Eles fizeram uma série de crimes para que a própria polícia conseguisse descobrir o paradeiro do pai do rapaz. Não resta dúvida de que tudo foi planejado desde o início. O mangá nos mostra isso, nos apresenta cenas nos primeiros capítulos que se desenvolverão perto do final, mas, de todo modo, o final deixou uma sensação em todo mundo de “é só isso?”. O próprio mangá, em seu capítulo final, mostra as inúmeras falhas do plano elaborado pelo homem-jornal.

Isso passa a impressão de que o autor não soube o que fazer e não planejou perfeitamente o final. Contudo, é só uma impressão. O mangá possui todo um background que é mostrar o quão o mundo perfeito japonês não o é de fato. Gates foi demitido de um emprego porque seu chefe não quis efetivá-lo, Nelsin (o filipino) morreu porque precisou vender um rim para viajar clandestinamente ao Japão e o país não ofereceu o suporte necessário para que pudesse viver.

A própria discussão sobre a mídia, a manipulação da massa, pirataria, anonimato na internet serve para questionar e mostrar que o padrão japonês de vida não é perfeito e possui suas inúmeras falhas. Logo, mesmo um plano falho tem sua razão de existir, ele é falho porque a própria sociedade japonesa é falha…

A única coisa inexplicável de verdade no final do mangá é o porquê de Gates ter se suicidado. Não há nada que indique uma razão clara e objetiva para isso. Fica o demérito. De todo modo, Prophecy mostra-se como um título sensacional, com várias possibilidades de interpretação e que merecia mais atenção por parte das pessoas…

  • Conclusão

Prophecy é uma narrativa policial das melhores possíveis. Para muita gente o final deixa a desejar? Sim, mas toda a discussão apresentada no mangá faz valer a pena mesmo assim. Concluído em apenas 3 volumes, a obra é um prato cheio para você experimentar um título desconhecido que foi lançado no Brasil e que ficou meio relegado, mesmo sendo excelente. Se tiver a oportunidade, compre, pois vale muito a pena.

  • Ficha Técnica

Título: Prophecy
Autor: Tetsuya Tsutsui
Tradutor: Edward Kondo
Editora: JBC
Dimensões: 13,5 X 20,5 cm
Miolo: Papel Jornal
Acabamento: Capa cartonada simples. Capas internas coloridas
Classificação indicativa: 16 anos
Número de volumes no Japão: 3
Número de volumes no Brasil: 3
Preço: R$ 13,90
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3 comentários

  1. Eu tenho um carinho bem grande por Prophecy, porque ele foi o primeiro título que comprei para realmente começar a colecionar mangás. É um título bem legal, que eu vi na banca na epoca e simplesmente não tinha noção do que era, fui, comprei e me surpreendi positivamente.

    Fiquei até com vontade de reler depois dessa review kkkk… vou encaixar na pilha de leitura do mês.

    E para quem não conhece, dê uma chance, é um ótimo título, curtinho e barato para os termos de hoje.

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  2. A obra faz uma boa crítica a sociedade japonesa, mas de resto não me cativou, os personagens não foram carismáticos e tinha partes forçadas do enredo como um hacker que apareceu apenas pra entregar alguma informação.
    Gostei do final e da história do “palito”.

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