Resenha: No Café Kichijouji (volume 1)

Um mangá de comédia, mas que não é lá tão divertido assim…

No ano de 2015, o mês era julho. O dia era 18. Na ocasião, a editora NewPOP, durante o evento Anime Friends, anunciou vários títulos para serem publicados em breve. Entretanto muitos deles acabaram postergados por uma série de fatores, ficando sem data durante anos. Um desses títulos era o mangá No Café Kichijouji, que agora vê a luz do dia.

No Café Kichijouji nasceu originalmente no Japão como uma série de CD Drama’s em 1999, sendo adaptado para mangá em 2001. Com roteiro de Yuki Miyamoto e desenhos de Kyoko Negishi, a versão em quadrinhos foi publicada originalmente no Japão entre 2001 e 2003 na revista de mangás shoujos Wings, da editora Shinshokan, sendo concluído em um total de 3 volumes. Posteriormente, a obra ganhou mais alguns capítulos, sendo lançado um volume especial em 2009.

No Brasil, a NewPOP confirmou a publicação dos 4 volumes e o primeiro saiu em fevereiro. Lemos o número inicial e viemos falar um pouquinho de nessas impressões sobre a obra para vocês. Vejam a seguir^^.

  • Sinopse Oficial

Bem-vindo ao Café Kichijouji! Por favor, sente-se e aproveite os aromas e delícias do lugar! Mas não estranhe os funcionários, tá? Estes cinco não têm absolutamente nada em comum, mas são gente boa! O Jun é muito educado, mas não fale da cara de menina dele que ele vira um monstro! O Tokumi é superanimado, mas tem uma vida difícil, não esquece da gorjeta dele, viu? E aqui é tudo limpinho, o Tarou se certifica disso com a mania dele de limpeza! E se você quer um garçom bonitão, espera um pouco que já chamo o Maki! E fique tranquilo que embora o cozinheiro seja meio bruxo, não tem nada de estranho na comida!

  • História e Desenvolvimento

Suponha que você seja uma jornalista e fosse fazer uma reportagem em alguma cafeteria do bairro, mas chegando lá você encontra um enorme urso em pleno salão. O que você faz? Vai embora, obviamente. Como fazer uma reportagem em um ambiente desses? E como aquele urso chegou lá? Aquela realmente é uma cafeteria séria? Perguntas se acumulam sem respostas e você provavelmente nunca irá descobrir, pois jamais irá botar os pés lá novamente.

Essa é uma situação hipotética e absurda, mas que está intrinsecamente ligada à história de No Café Kichijouji. Esse mangá não é outra coisa senão um slice of life típico, um mangá de vida cotidiana que se passa em uma cafeteria (no caso, justamente o Café Kichijouji) em que acompanhamos o dia a dia dos funcionários do local, juntamente com situações um tanto quanto inusitadas regadas com diversas passagens de humor, tanto o pastelão de pessoas apanhando de outras, quanto do nonsense “chapolinesco”.

Personagens

O mangá não possui uma “história”, uma trama mirabolante e nem nada disso. Trata-se apenas de um amontado de acontecimentos, um após o outro, tendo como foco os empregados do Café Kichijouji, com um tarado por mulheres, um maníaco por limpeza e assim por diante. No meio disso, as já citadas diversas passagens de humor.

Como é sabido, esse tipo de obra, para dar certo, necessita que o leitor se afeiçoe aos personagens, goste deles e, com isso, queira ter mais e mais conteúdo a respeito daquelas figuras. É assim que acontece em diversos títulos do gênero como Yuru Camp ou K-ON, que nos ganha pelo carisma dos personagens. O problema é que No Café Kichijouji não dá muito espaço para o leitor adentrar. Ela já começa com todos os personagens em cena e você não consegue se acostumar direito com eles, muitas vezes nem reconhecendo-os como seres à parte. Todos parecem misturados ao ambiente, de modo que não tenham uma identidade própria. Daí que chega ao fim do primeiro capítulo e você pode nem querer continuar a ler o restante do volume, de tão estranho que pode ter sido a sua experiência. Mesmo as passagens de humor podem não ter sido engraçadas justamente por você não conhecer os personagens e não estar afeito a eles.

A perseverança e o tempo, porém, vai fazendo estimar os personagens e, com isso, a escuridão vai dando lugar para uma manhã ensolarada. Cada um dos funcionários da cafeteria tem uma característica própria e bem marcante e que aos poucos vai delimitando cada um. Tarou, por exemplo, é um protótipo de Danny Tanner, sendo um maníaco por limpeza daqueles mais exemplares, que tentariam limpar até mesmo as embalagens de produtos de limpeza (coisa até mesmo nós somos aconselhados a fazer em tempos de COVID-19 O_o). Já o cozinheiro está sempre com aqueles bonequinhos de vudu pronto para, talvez, quem sabe, causar algum problema a um de seus colegas de trabalho. Maki está sempre querendo ver mulheres bonitas e assim por diante.

O grande problema é que o humor é uma coisa que às vezes não se consegue transmitir uniformemente para todas as pessoas, ainda que as ideias sejam bem reconhecíveis. Isso se agrava bastante com o nonsense. Lá no Chapolin Colorado, por exemplo, quando em uma determinada cena começa a sair leite de pintura de uma vaca e o atendente de um bar pega uma garrafa para pegar o líquido, o humor está bastante claro. Para muita gente é uma das tiradas mais engraçadas da série, para outras é um total tédio sem sentido. No Café Kichijouji trabalha intensamente com um nonsense leve e o humor não funciona para a gente.

Em um determinado momento, por exemplo, eles estão preparando um bolo e a massa começa a gritar do nada. Aí quando eles vão ver a receita, o motivo do grito é ela ter sido misturada de forma incorreta O_o. Está bem evidente o humor da cena, mas o mangá não consegue nos passar toda a carga cômica que deveria ter e o máximo que a gente consegue é dar um leve sorriso. Fica faltando algo que nos mostre que aquela cena é muito engraçada e que deveríamos rir bastante. Algumas expressões caricatas, alguma surpresa gigantesca, etc.

Claro que há cenas memoráveis e que sim nos fazem rir (como quando Jun apresenta as meninas da faculdade e elas não são outra coisas senão caras – ou supostos caras – que parecem saídos de alguma gangue de filmes dos anos 1980), mas são bem poucas e no todo o mangá não consegue nos divertir.

As personagens da imagem são mulheres.

A verdade é que falta um pouco mais de carisma nos personagens, um pouco mais de cuidado do roteiro e um pouco mais de expressão nas cenas. E talvez falte um pouco mais de tempo para a obra nos cativar. Esse volume inicial foi meio sem sal e não nos deu vontade de continuar… A gente gosta de dar chances a mangás desconhecidos, mas esse foi meio… decepcionante.

  • A edição nacional

A edição nacional do mangá vem no formato 14,8 x 21 cm (aquele tamanho maior, parecido com Made In Abyss, Usagi Drop ou os títulos de Osamu Tezuka da editora) com miolo em papel offset e capa cartonada simples. Isso ao preço de R$ 24,90.

É uma edição no padrão de qualidade da NewPOP, então é aquele saldo positivo de sempre, com um mangá bem maleável, com uma boa encadernação e que nos permite ler sem qualquer percalço.

Quanto ao texto, ele é bem fluído, sem gargalos linguísticos. A única coisa levemente questionável é a editora usar o nome da moeda no texto como “reais” em vez de “ienes” sem manter o mesmo padrão nas placas. Em um certo momento a empresa não fez a edição de umas dessas placas que mostram o preço na moeda japonesa. Não há problema em a editora modificar o nome da moeda, mas quando não se faz a edição das placas fica evidente essa falta de padrão, como se as pessoas que cuidaram da edição não tivesse tido acesso à decisão da tradução/adaptação.

Placas de preço em um supermercado no mangá. A moeda indicada nelas é o iene (円)

De todo modo, isso é algo mínimo, mas fica o alerta para a editora tomar mais cuidado, já que os mais preciosistas repararão nessas coisas^^.

  • Conclusão

No Café Kichijouji é um tipo de obra que, para dar certo, necessita que o leitor se afeiçoe aos personagens, goste e queira ter mais e mais conteúdo deles, pois é um daqueles títulos que “”não tem história””, feitos para se divertir com o momento e os acontecimentos. Isso demora a acontecer no mangá, pois inicialmente os personagens não se destacam uns dos outros e, para piorar, quando você finalmente começa a pegar o ritmo da coisa, o mangá termina e é necessário uma releitura para apreender melhor os personagens.

O primeiro volume, portanto, não é de encher os olhos e, ainda que não caracterize o mangá como ruim, ele pouco diverte e torna-se esquecível em pouco tempo, chegando a ser bem decepcionante. Entretanto, dependendo do quão boa é a sua recepção ao humor da obra, talvez você goste bastante. Algumas pessoas leram e gostaram bastante.

De nossa parte, porém, o mangá não cativou e precisaremos de mais tempo para gostar. Por ora, não recomendamos.

  • Ficha Técnica

Título Original: Cafe吉祥寺で
Título NacionalNo Café Kichijouji
Autor: Yuki Miyamoto; Kyoko Negishi
Tradutor: Karen Kazumi Hayashida
Editora: NewPOP
Número de volumes no Japão: 4 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 14,8 x 21 cm
Miolo: Papel offset
Acabamento: Capa cartonada simples
Preço: R$ 24,90
Onde comprar: Amazon