Memória: Há 20 anos, mangá “Dragon Ball” era lançado no Brasil pela primeira vez

Duas décadas

O primeiro mangá (que se tem conhecimento) a ser publicado no Brasil foi Lobo Solitário, ainda em 1988, pela editora Cedibra. A partir de então, de tempo em tempos aparecia algum mangá por aqui, mas na época não eram conhecidos por esse nome e nem eram lançados de forma constante e em profusão.

O grande marco do mercado brasileiro de quadrinhos japoneses aconteceria só doze anos depois, com a estreia de Dragon Ball pela Conrad Editora. Dragon Ball foi o primeiro mangá a ser lançado no país seguindo o estilo de leitura oriental (da direita para a esquerda), um tremendo risco para a época, mas que acabou dando certo e moldou o jeito como consumimos mangás hoje em dia. Agora, completam-se vinte anos desde que o primeiro volume chegou às bancas de revista.

A história sobre como Dragon Ball veio parar na Conrad passa por muito pelo histórico da editora, como o sucesso e declínio da revista Herói e o estrondoso sucesso das revistas de Pokémon, segundo contou Rogério de Campos, um dos fundadores da empresa, em um podcast do Universo HQ. Para Rogério de Campos, a experiência do passado foi o que o levou a ir atrás de Dragon Ball.

A revista Herói havia sido um sucesso enorme nos anos 1990, com tiragens chegando à marca de um milhão de cópias por semana, mas com o tempo chegaram diversas revistas concorrentes e o as vendas caindo, caindo e caindo. Pokémon, por sua vez, veio para abalar as estruturas novamente, com as revistas vendendo muito bem. Entretanto, Rogério de Campos sabia que a febre não duraria para sempre e ele começou a pensar em produtos que pudessem vir a substituir a série dos monstrinhos de bolso. Foi então que ele lembrou de Dragon Ball.

Anos antes, Marcelo del Greco (que depois viria a publicar mangás na JBC) ficava falando incessantemente da série de Akira Toriyama, de como era bom e tudo mais. Lembrando disso, Rogério resolveu ir atrás dos quadrinhos. O processo não foi fácil e levou algum tempo. No início a Shueisha (que licencia o mangá) nem queria negociar nada com o Brasil, mas depois, com a insistência e conversas, as coisas andaram.

A ideia original da Conrad, no entanto, era publicar o título todo colorido (talvez os anime comics), mas os representantes da Shueisha disseram que primeiro era preciso publicar o mangá em preto e branco. A ideia de publicar quadrinhos juvenis em preto e branco era estranho para Rogério de Campos e ele achou que não iria dar certo.

Ainda assim, após mais uma rodada de negociações, a ideia da Conrad Editora era comprar os direitos tanto da versão colorida, quanto da preto e branco e aí a empresa lançaria a versão em preto e branco em uma tiragem minúscula, já que ela não acreditava no potencial da série naquele formato. Entretanto, logo em seguida a Shueisha exigiu uma tiragem mínima de 50 000 exemplares.

Ainda segundo Rogério de Campos, a editora resolver fazer novamente uma “gambiarra”, pagaria os royalties em relação a 50 000 exemplares, mas imprimiriam apenas 10 000. Esse era o plano, mas na reunião seguinte a Conrad teve um outro banho de água fria, ela descobriu que teria que lançar a obra de trás para frente, como no original japonês. Isso era o limite.

Muita gente achou que a leitura oriental não iria dar certo. A própria Conrad tinha medo disso e havia muita relutância em publicar o título desse modo, mas no fim a empresa resolveu arriscar. E acabou sendo um sucesso enorme. Para Rogério de Campos, o mérito de Dragon Ball aparecer no Brasil e iniciar uma nova era não é dele e nem de ninguém, senão do japonesinho da Shueisha que “obrigou” eles a lançarem assim.

Vale recordar que pouco depois a Conrad lançou também Cavaleiros do Zodíaco. Ele entrou no pacote porque a Shueisha queria que a empresa comprasse dois títulos de uma vez. Foi oferecido Video Girl Ai (que viria depois pela JBC) e a editora não quis, escolhendo em seguida a série de Masami Kurumada.

***

Em vinte anos muita coisa mudou. A Conrad não publica quadrinhos japoneses há algum tempo, Dragon Ball agora está com a Panini e o mercado tem vários títulos saindo ao mesmo tempo, por diversas editoras. Claro que o Brasil ainda é um mercado pequeno perto dos países da Europa e da América do Norte, mas ainda assim temos mangás para consumir e o grande marco inicial foi Dragon Ball.


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