
Mais bons contos?
As Esculturas sem Cabeça é mais uma coletânea de contos dos primeiros anos de carreira de Junji Ito, com as histórias tendo sido pré-publicadas originalmente no Japão entre 1990 e 1992 na revista de terror dedicada a meninas Gekkan Halloween, da editora Asahi Sonorama, e atualmente estão reunidas neste volume com compõe a coleção de obras-primas do autor.
No Japão, As Esculturas sem Cabeça é o sétimo volume dessa coleção, mas não há necessidade de ter lido os outros números, pois cada tomo é um livro diferente, uma obra própria, com contos autocentrados. Tanto é assim que no Brasil a editora Pipoca & Nanquim não seguiu a ordem e tampouco colocou uma numeração.
Assim, As Esculturas sem Cabeça pode ser o seu primeiro Junji Ito, se assim desejar. Mas, por ser uma obra do início da carreira, será que os contos são bons? Bem, Morada do Desertor (1987-1990) não tem contos tão bons assim, mas O Beco (1991-1993) e O Encanamento que Geme (1993-1994) já apresentam histórias bem melhores. Seria, então, As Esculturas sem Cabeça um meio termo? Bem, veremos a seguir.



As Esculturas sem Cabeça é uma coletânea de 12 contos sobre os mais variados temas, muitos deles bastante caros ao autor, como é o caso do conto “Vida Curta”, uma história interessantíssima sobre beleza e morte.
Em “Vida Curta” veremos novamente Junji Ito tratar da obsessão pela beleza, tal qual os contos “Monstro cor de Carne” (de O Encanamento que Geme) e “Lembranças” (de O Beco). Nesse conto, as garotas de uma escola, de repente, começaram a ficar bonitas e de uma forma completamente deslumbrante, como nunca antes elas tinham sido. Outras garotas, ao saberem que isso poderia ser um tipo de contágio, começam a ficar perto dessas meninas (que antes desprezavam) para também ficarem belas. Ocorre que, porém, pouco tempo depois da beleza repentina, também repentinamente elas morriam (daí o título do conto) causando um enorme desespero.
Esse conto é, de fato, mais uma obra em que o autor utiliza para afirmar os perigos do culto à beleza, à obsessão que levam as pessoas a fazerem qualquer coisa, mesmo sem saber se tal coisa resultaria em algum perigo. “Vida Curta”, entretanto, não é só isso e ele vai também para o caminho do maldade humana e do tudo ou nada, com as garotas buscando assassinar as outras apenas e tão somente por um boato qualquer.
Obsessão pela beleza não é o único ponto que Junji Ito repete em suas obras. A própria obsessão pura e simples (por diversas coisas) também é utilizada pelo autor e, nesse sentido, podemos falar de “Disco Velho”. Nesse conto, um disco com uma música melódica acaba causando um certo fascínio nas pessoas e elas fazem de tudo para obter o disco e poder escutar mais e mais. Assim como “Vida Curta”, “Disco Velho” é um conto excelente, que coloca cara a cara os perigos de uma obsessão. A diferença, porém, é que “Disco Velho” coloca um pé nas questões do “além”, como se a obsessão viesse apenas e tão somente por causa de um algo oculto.

“O Circo Chegou” e “Colmeia” também faz parte dessa lista de contos sobre obsessões ocasionadas por algo do “além”. “O Circo Chegou” acompanha um circo em que todos os artistas acabam morrendo em suas apresentações, literalmente, na frente do público. A obsessão aqui é novamente a beleza, mas a beleza de uma jovem, que faz todos os homens de um local quererem fugir com o circo e, posteriormente, acabarem morrendo também. Esse é um conto bem bobo no geral, em que não tem muita coisa para ver, se divertir e analisar. É praticamente dispensável.
“Colmeia” é um conto um pouco mais elaborado, mas também não é um conto muito bom. Aqui nós temos um rapaz que é obcecado por insetos, como abelhas e suas colmeias, e isso acaba gerando certos problemas, incluindo um crime. Aqui o sobrenatural está presente, mas não é exatamente o “além” e sim alguma coisa da natureza. Aliás, se tem algo que podemos salvar desse conto é a crítica ao desmatamento desenfreado e que faz os animais perderem os seus habitats naturais.

Já que estamos falando de histórias ruins, é legal falarmos logo de “Fio Vermelho do Destino”, o primeiro conto da coletânea. Ele usa uma lenda japonesa para criar uma história de horror com ares sobrenaturais, entrando em questões supersticiosas, mas não se atendo a isso. Toda a história gira em torno de um rapaz que terminou com sua namorada e viu o seu corpo, pouco a pouco, ficar recheado de linhas vermelhas. Em uma primeira leitura a história até agrada, você se surpreende com algumas coisas, faz elocubrações, mas basta acabar a leitura que você sente que perdeu tempo.
Isso também acontece com o conto “O presenteador”. Nessa história, um homem é contratado para hipnotizar um sujeito malvado, para que ele comece a fazer o bem. Anos depois, esse homem volta ao local e descobre que sua hipnose continuava ativa, mas que tinha tido alguns problemas. Agora o filho daquele sujeito malvado passava os dias tentando dar presentes às pessoas, no caso um boneco com a imagem do próprio pai. É uma história meio boba no geral, mas que enquanto estamos lendo acaba nos intrigando um pouco, porém como as questões do “além” já eram visíveis e não tinha nada a mais, o final do conto joga um banho de água fria, fazendo parecer uma história dispensável.

O conto que dá título ao mangá “As Esculturas sem Cabeça” é sem pé nem cabeça (com o perdão do jogo de palavras). Ele é outro conto meio vazio e que faz com que a gente sinta um enorme enfado na leitura. Na história, um professor vive a fazer esculturas sem cabeça e um dia ele é assassinado. Já dá para imaginar o que aconteceu só com isso, mas Junji Ito tenta criar um suspense, querendo despistar, para então fechar o mangá com o que já imaginávamos. O autor costuma fazer isso em várias obras e é algo bem legal, na verdade, mas nessa história não funcionou…
Saindo (mais ou menos) dessa lista de contos ruins, podemos falar de “Calafrios”. Essa é uma história intensa sobre uma suposta doença que faz furos nas pessoas, causando calafrios e fazendo as pessoas irem a óbito algum tempo depois. Num todo, ele é um conto ótimo, mas ele não é bonito visualmente, sendo difícil olhar para as páginas, com os personagens cheio de buraquinhos. Então o mais ou menos falado no início do parágrafo é porque esse conto é bem bom mesmo, mas eu não recomendo ler.

Falta falar de 4 contos e deixamos para o final quatro que consideramos muito bons, quase todos envolvendo o “além” de uma maneira ou de outra.
“Ponte”, por exemplo, é uma história de horror sobrenatural com tema de fantasmas. No conto, uma neta está indo visitar a avó e no local está cheio de espíritos que não puderam fazer a passagem. Todos eles estão esperando que a avó se junte a eles. É um ótimo conto, cheio de reviravoltas e mesmo quando parece que o autor vai por um lugar ruim, ele trai a nossa expectativa a faz a narrativa ficar perfeita. Assim como alguns dos contos ruins falados mais acima, “Ponte” não tem uma mensagem propriamente dita, mas não chega a precisar, pois o roteiro é muito bem feito e muito bem executado.
Agora uma história com uma boa mensagem e com um bom roteiro é “Cidade dos Mapas”. Neste conto, uma dupla de recém casados está viajando de férias e para em uma cidade repleta de mapas. Nesse local, os moradores só conseguem andar se seguir eles, senão se perdem. É uma história que fala um pouco sobre crendices e coisas sobrenaturais, mas o ponto mágico aqui é, como em outros contos do Junji Ito, a maldade do ser humano, no caso a ganância. A história tinha tudo para ser leve e boazinha, mas a ganância humana acaba sendo feroz e causa tumultos desnecessários, sendo o grande mote da história. Outro ponto interessante, porém, é que, tal qual “Colmeia”, esse conto também faz uma crítica à atividade humana em invadir locais de florestas. A diferença é que em “Colmeia” a destruição ocasiona problemas para humanos e animais e aqui para humanos e seres míticos.

“Bilhete Suicida” é um história de horror genial. Ele fala sobre uma garota que se suicida deixando um bilhete e falando que voltará para levar alguém junto. A família acha que é uma maldição a ela e, em pouco tempo, o fantasma aparece. A história não tem uma mensagem, mas o roteiro é sem igual, com uma reviravolta que eu gostei bastante.
Para terminar, deixamos por último o conto “Espantalho”. Ele, mais do que uma história de horror, é um conto denso sobre a dificuldade de enfrentar uma perda e também sobre a maldade humana. Na obra, as pessoas começam a perceber que se colocar um espantalho no local em que está enterrado o ente querido, o espantalho começa a tomar forma da pessoa que morreu. É uma história que chega a ser triste e inquietante, mostrando como certas coisas podiam ser evitadas, como o ser humano é mal, e como a gente vive preso a determinadas coisas, não conseguindo seguir em frente. Eu não diria que é o melhor conto de Junji Ito que já pude ler, mas sem dúvida é o que mais me deixou pensativo.
***
Perguntamos no início do texto: “Seria, então, As Esculturas sem Cabeça um meio termo?”. E eu creio que a resposta é sim. Morada do Desertor possui uma ou outra história excelente, mas no geral os contos são todos meio fracos e sem um algo a mais, então não é um mangá que a gente recomende.
O Beco, por sua vez, tem alguns contos meio fracos, mas no geral a maioria é muito bom e eu recomendo. O Encanamento que Geme, a mesma coisa. As Esculturas sem Cabeça fica no meio disso. Embora a proporção não seja exatamente essa, metade é excepcional, enquanto metade não é lá essas coisas, daí que é difícil recomendar esse mangá.
Eu acho que tem contos nesse volume que são muito ótimos mesmo, que todo mundo deveria ler, mas tem outros que, definitivamente, não. Então, se você nunca leu nada de Junji Ito e quer uma obra para começar, o melhor é ir em outro título, como (o já citado) O Beco, Contos Esmagadores, dentre outros.
Essa resenha foi feita graças a um exemplar cedido a nós pela editora Pipoca & Nanquim, a quem agradecemos a parceria. As opiniões a respeito das histórias independem disso.
Ficha Técnica
Título Original: 首のない彫刻
Título: As Esculturas sem Cabeça
Autor: Junji Ito
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 22 cm
Miolo: Papel pólen bold 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 396
Classificação indicativa: não informado
Preço: R$ 86,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: As Esculturas sem Cabeça é a mais nova compilação das principais publicações do início da carreira do mestre dos mangás de horror Junji Ito, com doze tenebrosos e inesquecíveis contos. Lançados originalmente entre 1990 e 1992 na clássica revista Halloween, da editora japonesa Asahi Sonorama (atual Asahi Shimbun), eles agora integram a coleção de obras-primas do mangaká! Na história que dá título à antologia, Shimada e Rumi participam do clube de arte de sua escola, e seu professor, o senhor Okabe, é um escultor em meio a preparativos para a exposição de suas peças — uma coleção de esculturas sem cabeça. Os dois alunos concordam em ficar até mais tarde para ajudá-lo,sem desconfiarem que essa seria a pior decisão de suas vidas. As esculturas sem cabeça não são meros objetos… São algo mais! Entre os demais contos, temos uma vila que sofre com o retorno dos mortos após seus rituais fúnebres; um circo comandado pelo próprio diabo; uma cidade onde é impossível andar sem acabar completamente perdido; garotas que ganham beleza em troca de tempo de vida; uma rixa entre amigas que ultrapassa a barreira da morte… Histórias focadas em acontecimentos de ordem sobrenatural incompreensível, um dos temas favoritos de Junji Ito!
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