
Do mesmo autor de O Cão que Guarda as Estrelas
Recentemente eu fiz uma compra de mangás da Argentina (leia mais aqui) e um dos mangás que comprei foi Shonen to Inu ou El Chico e El Perro (como foi chamado no país vizinho) e que poderíamos chamar no Brasil de O Menino e o Cachorro.
A obra é uma adaptação de um livro de mesmo nome escrito por Seishu Haze, livro este publicado no Japão 2020 pela editora Bungei Shunju e que ganhou o 163º Prêmio Naoki Sanjugo, referente àquele ano. A adaptação ficou a cargo de Takashi Murakami (O Cão que Guarda as Estrelas) e começou em agosto de 2021 no site Bunshun Online, também da editora Bungei Shunju, e terminou em março de 2022. O volume impresso foi lançado em junho do mesmo ano no Japão.


A versão argentina do mangá foi lançada pela Distrito Manga (editora do grupo Penguin dos países de língua espanhola) em outubro de 2023 e teve uma tiragem de 2500 exemplares. Ela veio no formato 15 x 21 cm (semelhante às edições brasileiras de Fênix e Diário dos Gatos), com miolo em papel offset (o papel branco de Fênix) e capa cartonada com orelhas.




Embora seja uma adaptação de um livro, o simples fato de ter o nome Takashi Murakami na capa e ser sobre um cachorro já nos indica o teor da obra, com muito drama na história, afinal tudo nos remete a O Cão que Guarda as Estrelas, título do autor que tivemos acesso no Brasil. E embora a trama seja bastante diferente, realmente a atmosfera de drama está presente no mangá do início ao fim.
Shonen to Inu é uma coletânea de contos que tem como figura central um cachorro chamado Tamon. Ele morava na região do terremoto de 2011 e sua antiga dona falecera no desastre, provavelmente por consequência do tsunami. A obra se passa alguns anos após a tragédia e veremos o cachorro tendo contato com pessoas, ficando com elas por um tempo e partindo após certos acontecimentos.
Cada capítulo é um conto próprio e nomeado (“O Homem e o Cachorro”; “O Ladrão e o Cachorro”; “A Prostituta e o Cachorro”; “O Idoso e o Cachorro”; e, finalmente “O Menino e o Cachorro”), com a história começando, se desenvolvendo e sendo concluído naquele mesmo capítulo. A obra, porém, tem uma continuidade, com o cão sempre olhando para uma certa direção, uma direção a qual ele deseja seguir, a alguém que ele quer encontrar…
Em todos os capítulos, o personagem central percebe o olhar do cachorro e entende que ele deseja ir a um lugar, mas, ainda assim, o cão permanece ao lado da pessoa que o encontrou e a pessoa deseja ficar com ele, seja por companhia, por trazer sorte, etc, etc, etc.

Falar especificamente de cada capítulo é um pouco complicado, pois cada um deles apresenta uma história própria, todas carregadas de uma carga dramática mais intensa do que a outra. Temos um homem que precisa entrar para o mundo do crime para poder cuidar de sua mãe doente, temos uma pessoa que se tornou ladrão desde pequeno devido às péssimas condições de vida, uma mulher que era obrigada a se prostituir para bancar o marido e um homem que está afetado por um câncer e não deseja tratamento.
Todas as histórias são, de verdade, muito intensas, daquelas que a gente sente total empatia com os personagens, sofre com eles, sendo impossível não derramar uma lágrima sequer. São problemas sociais, traumas, tudo colocado um após o outro que fazem com que os acontecimentos não sejam apenas dos personagens, mas nossos também.

O capítulo final (e que dá nome ao mangá) é talvez o pior de todos, pois ele faz com que os traumas sejam agigantados. A obra trabalha em torno do baque que foi o terremoto de 2011 e suas consequências (o próprio primeiro capítulo parte disso), tanto físicas, quanto psicológicas.
O capítulo derradeiro fala justamente do abalo de um menino perante aos acontecimentos (não sorrindo mais e não conseguindo nem falar) e, assim o título sugere, como um cachorro termina por ajudá-lo a superar seus problemas psicológicos.
Apesar de parecer um capítulo leve à primeira vista, ele deixa de maneira mais clara e evidente o quão traumático foram os acontecimentos de 2011 para a população japonesa, especialmente a afetada pela tragédia. De certo modo, lembra um pouco Suzume, já que uma parte da mensagem do filme/livro/mangá tem a ver com perdas abruptas que aconteceram na catástrofe. Assim, o capítulo final de Shonen to Inu deixa escancarado toda a dor e o sofrimento de um povo, de pessoas comuns, fazendo com que você termine o mangá realmente chorando…


Shonen to Inu ainda é inédito no Brasil e não foi anunciado por nenhuma editora brasileira até o momento. De toda forma fica aqui a recomendação para esse mangá caso você o encontre por aí.
Além da Argentina, ele também saiu na Espanha e no México, igualmente pela Distrito Manga. Na Itália, ele foi lançado pela Feltrinelli e na França ele sairá em março pela Akata.
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