Resenha: “Acho que meu filho é Gay #01”

Mais Okura no Brasil

No mês de abril, a editora Panini publicou o primeiro volume do mangá Acho que meu filho é gay, de Okura. O título é o segundo mangá do autor a ser publicado no Brasil, sendo ele o responsável também por That Blue Sky Feeling, lançamento recente da editora Mythos.

Assim como That Blue Sky Feeling, Acho que meu filho é gay nasceu como uma produção independente do autor. A diferença é que o primeiro foi publicado em seu blog pessoal e depois ganhou um remake com desenhos feitos por outra pessoa, enquanto o segundo foi publicado por ele em suas redes sociais (mais especificamente o Twitter) para depois ganhar uma publicação oficial.

Desse modo, Acho que meu filho é gay passou a sair também no site Gangan Pixiv, da editora Square Enix, e a ganhar volumes impressos pela mesma editora, entre agosto de 2019 e fevereiro de 2023, e dessa vez com os desenhos dele mesmo. Foi concluído em 5 volumes no total.

Como a publicação original se deu no Twitter, o mangá possui um aspecto semelhante a outras obras que nasceram da mesma forma: ele é um título de quatro páginas. Isto é, como no Twitter só é possível colocar quatro imagens de uma vez, os autores criam uma história em quatro páginas e o publicam, fazendo com que dentro daquele espaço limitado uma narrativa seja iniciada e concluída ali mesmo.

Assim, os capítulos de Acho que meu filho é gay são curtinhos, quase todos tendo quatro páginas apenas, além de uma quinta página com um extra (em alguns capítulos). O primeiro volume possui 21 capítulos no total, dos quais apenas três não seguem essa fórmula, existindo um capítulo de apenas duas páginas, além de dois capítulos maiorzinhos, justamente os dois últimos do volume.

Como o título do mangá e a capa do primeiro volume sugerem, Acho que meu filho é gay acompanha o dia a dia de uma mulher que suspeita que seu filho mais velho é gay. A suspeita – na verdade – embora considerada como suspeita, é tratada como uma verdade pela mãe por conta de diversas falas do filho e de suas reações perante a determinados acontecimentos.

Os capítulos, por serem curtos, acabam seguindo um determinado padrão. Ocorre alguma coisa do dia a dia, isso reverbera em alguma fala ou ação que mostrará para a mãe as questões envolvendo o filho mais velho, tudo num clima de leveza, misturando o carinho materno e o humor.

Por acompanhar o dia a dia, o mangá é um daqueles títulos de vida cotidiana simples, bem ao estilo Takagi – A Mestra das Pegadinhas ou Gokushufudou: Tatsu Imortal, com uma historinha curta e um desenvolvimento breve feito para tirar ao menos um sorriso do rosto ou uma pequena reflexão.

A diferença é que Acho que meu filho é gay tem dois pontos marcantes que deixam a obra mais “”cinzenta”” e que precisa de tempo para nos acostumarmos. No caso, o modo como o carinho materno vai sendo desenhado, além do jeito atrapalhado do filho mais velho (de querer esconder o máximo que pode sua orientação sexual) tendem a nos fazer pensar que a obra irá para um outro caminho.

Esses dois pontos fazem com que a vida cotidiana simples não seja totalmente apreendida no início e a gente não consiga entender ou apreciar direito os capítulos iniciais, nos deixando com um certo gosto amargo na boca, como se algo não estivesse certo.

Isso é só uma questão de expectativa e experiências de leitura, pois conforme vamos avançando, a gente entende bem mais a estratégia da história e passa a amar cada detalhe dos capítulos curtos e, ao voltar aos capítulos iniciais, a gente vê a beleza deles que não tinha visto inicialmente.

Então, todo o ponto da vida cotidiana desse mangá é apresentar justamente o contraste entre a pureza, a ternura e o entendimento da mãe em contraposição ao espectro preconceituoso da sociedade em geral, que reverbera justamente no filho, que tem que se atrapalhar e viver momentos “cômicos” para não se assumir na frente da família, porque isso é “errado”.

Ou seja, embora todos os capítulos sejam levíssimos de ler e acompanhar, eles trazem uma enorme carga por trás envolvendo toda essa pressão social de um personagem para ser considerado “normal” (no caso um homem namorar uma mulher, ter filhos, etc). Isso é mostrado de várias maneiras, no modo de se comportar do filho mais velho, suas falas, dentre outras coisas.

Claro que, embora exista a leveza, a obra também aponta o dedo claramente, mostrando o preconceito latente e que há até mesmo dentro de casa, mostrando que as reações do filho são bem naturais, tendo em vista a sociedade em geral e até a família.

Por esse prisma, Acho que meu  filho é gay é, sim, um slice of life comum, mostrando a vida cotidiana dos personagens, com cenas de humor aqui e ali, mas é também um mangá que questiona a sociedade vigente, apresentando uma mãe com um lado terno e extremamente amável buscando a felicidade do filho que é, entre muitas aspas, “diferente”.

Ele é, portanto, um mangá que coloca um pouco de afago em nossos corações, mostrando que o mundo pode ser melhor, que as pessoas podem ser boas, mas sem deixar que a gente esqueça que a sociedade ainda não é assim e algumas pessoas têm que fingir ser o que não são.

Em resumo, esse mangá (Se fizermos uma comparação com outras obras que abordam a mesma temática LGBTQIAPN+) não é dramático como Boys Run the Riot, That Blue Sky Feeling, Nossas Cores ou Shimanami Tasogare, mas está na mesma categoria de nos fazer refletir, sendo uma alternativa mais leve para quem deseja ver uma história (ou apresentar para alguém) sobre esse tema.

Recomendo bastante esse mangá.


Ficha Técnica


Título Original: うちの息子はたぶんゲイ
Título: Acho que meu filho é gay
Autor
: Okura
Tradutor: Lucas Cabral
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 5 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: Papel offwhite
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 130 (sendo 2 coloridas em papel couchê)
Classificação indicativa: 14 anos
Preço: R$ 37,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini

SinopsePor conta do trabalho, meu marido está ausente. Então, no dia a dia, geralmente somos apenas eu e meus dois filhos. Talvez eu seja uma mãe coruja, mas acredito, de verdade, que ambos são bons garotos. Porém, há apenas uma coisinha que me deixa preocupada. Acho que Hiroki, meu filho mais velho, gosta de outro garoto. Ele tenta esconder, mas, às vezes, fica bem óbvio. Ainda não conversei com ele sobre isso, mas minha opinião a respeito dele é esta: ‘um menino honesto, adorável e que talvez seja gay’.Esta é uma história repleta de amor entre uma mãe e seus filhos!


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