
Investigação e dedução
Não Chame de Mistério é um mangá de autoria de Yumi Tamura que começou a ser publicado no Japão em 2017 na revista Flowers, da editora Shogakukan, e ainda está em andamento atualmente com 14 volumes lançados. A obra ganhou destaque por suas vendas altas (tem mais de dezesseis milhões de exemplares em circulação) e suas várias indicações a prêmios no Japão.
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora JBC em julho de 2023, sendo uma enorme e excelente surpresa, e começou a ser publicado em abril de 2024. Adquirimos o primeiro volume e viemos falar um pouco da obra para vocês. Mas já adiantamos: é um mangazaço!!!.



Não Chame de Mistério é um mangá de “investigação” em que acontece um determinado caso e é necessário descobrir o que está por trás. Entretanto (diferente de Museum, Chaos Game e Watch Dogs Tokyo) não há cenas de ação e praticamente tudo é feito por palavras, conversas, deduções, etc.
Nesse primeiro volume nós temos dois casos, o primeiro de um assassinato e o segundo de um sequestro a ônibus. O caso do assassinado começa e termina nesse volume mesmo, mas o caso do ônibus só tem uma parte nesse encadernado e se conclui no segundo volume.
O protagonista da história é o universitário Totonou Kunou, um rapaz com um penteado diferenciado e considerado meio excêntrico pelas pessoas. O mangá começa com ele sendo avisado que a polícia quer vê-lo, em virtude uma investigação de um assassinato ocorrido nas redondezas. Totonou é considerado um suspeito de ter cometido o crime, mas ele, em vez de ficar amedrontado e nervoso, mantém uma calma sem igual e, com essa calma, ele vai à delegacia constantemente para se defender da acusação e provar sua inocência.

E o mangá é basicamente o protagonista conversando com outras pessoas a respeito de coisas, baseando-se em deduções, análises e lógica. Ele tem uma perspicácia muito aguçada, de maneira que, dentre outras coisas, ele termina até mesmo por dar conselhos para os policiais melhorarem suas vidas, baseado apenas e tão somente nas conversas em que ouviu.
Yumi Tamura, a autora do mangá, consegue fazer isso com uma maestria ímpar, pois tudo o que ela coloca é simplesmente genial e lógico, que faz sentido total dentro de qualquer linha argumentativa. O protagonista criado por ela consegue enxergar as coisas que os outros não enxergam, tanto coisas simples, quanto complexas.

No caso dos conselhos aos policiais, por exemplo, um dos mais marcantes diz respeito na relação conflituosa de um policial com sua esposa, a maneira com que ele a vê e vê a si mesmo, suas atitudes, etc. Totonou analisa toda a situação e fala coisas óbvias para o policial, mas que ele não havia pensado por estar preso dentro de um tipo de pensamento não questionador e pouco analítico.
No caso da investigação do assassinato, o protagonista apresenta diversas visões sobre um problema que uma pessoa comum não pensaria. E é nessa de deduzir coisas e apresentar detalhes não pensados (pelos personagens e pelo público) que a narrativa vai andando até se chegar ao verdadeiro bandido.

O mangá vai enfileirando uma série de coisas que parecem desconexas, mas mesmo assim vão ajudando a construir a personalidade do protagonista e alimentar a trama. Isso se dá também na segunda parte do volume, com o caso do sequestro a ônibus.
Nessa parte, já se passou um tempo depois que Totonou foi inocentado, mas dessa vez ele acaba, por mero acaso, envolvido em outro crime, ele está no lugar errado, na hora errada e é sequestrado junto a outros passageiros. Entretanto, trata-se de um sequestro inusitado e diferente, pois não há qualquer tentativa de se estabelecer um resgate.
Nisso, a gente vê novamente Totonou analisando a situação (o que estão fazendo, terão outros planos?) e dando seus pitacos lógicos a respeito de diversas coisas…

Tudo o que acontece no mangá parece dar um grande efeito catártico na gente. A cada dedução, a cada coisa nova apresentada pelo protagonista parece que se abre uma luz na nossa cabeça e a gente fica abismado com o que aconteceu.
Mesmo quando as falas são irreais (em um certo momento o protagonista reproduz a crença de que gatos não gostam de morrer na frente dos donos), o contexto da história faz a gente se apegar ao que está sendo contado e ficar com os olhos brilhante a respeito da dedução.

Ajuda para isso o fato de que Totonou é “apenas um universitário”, de maneira que suas colocações, sempre lúcidas e diferenciadas, soam como vindas de alguém não esperado, soam sempre como uma grande surpresa e mesmo quando a gente se acostuma a isso, o efeito em nós ainda segue.
É como nos casos de mangás de lutinha, em que o protagonista é considerado o mais fraco, mas consegue se superar e ganha dos mais fortes para a surpresa de todos em volta (o que causa uma excelente sensação no leitor). A diferença é que Totonou usa o seu cérebro, usa a argumentação e se mostra mais centrado e inteligente que policiais ou bandidos mais velhos…
***
Ao que tudo indica, Não Chame de Mistério não deve ser uma história com uma grande aventura única e sim com pequenos contos envolvendo o protagonista. O mote inicial do mangá parece ser justamente esse, Totonou é sempre colocado (contra a sua vontade) em situações envolvendo alguma investigação, algum mistério…
Mas, ainda assim, existe uma continuidade temporal, não sendo necessariamente contos desconexos.
A EDIÇÃO BRASILEIRA
A edição brasileira veio no formato padrão da editora JBC, no tamanho 13,2 x 20 cm, com miolo em papel Pólen Natural 70g e capa cartonada simples. São 192 páginas todas em preto e branco. O preço é R$ 39,90.
É um mangá da linha básica, sem maiores detalhes (sem orelhas, sem sobrecapa, sem verniz localizado), mas é uma edição bem ok, com uma boa encadernação e com uma papel de boa qualidade (é aquele mais amarelado e que não tem nenhuma transparência).
CONCLUSÃO
Eu escrevi e reescrevi este texto mais de uma vez. E eu não sei se eu consegui passar nele o que eu queria, eu não sei se eu conseguir deixar claro o nível do mangá, o tanto de emoção que ele passa, etc, etc, etc.
O que eu posso dizer para terminar este texto é que de todos os mangás recentes que eu indiquei aqui, o que eu mais indico é Não Chame de Mistério, pois ele é o que mais apresenta uma história catártica, ao mesmo tempo em que nos faz pensar.
Pode ser que algum de vocês não goste? Pode acontecer, pois talvez o estilo não agrade, mas eu acho que todos vocês deviam dar uma chance ao menos ao primeiro volume, mesmo aqueles que não gostam de histórias de investigação, pois esse pode surpreender vocês.
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Ficha Técnica
Título Original: ミステリと言う勿れ
Título: Não Chame de Mistério
Autor: Yumi Tamura
Tradutor: Amanda Diniz
Editora: JBC
Número de volumes no Japão: 14 (ainda em publicação)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 13,2 x 20 cm
Miolo: Papel Pólen Natural 70g
Acabamento: Capa cartão
Páginas: 192
Classificação indicativa: 16 anos
Preço: R$ 39,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Um dia perfeito de inverno para fazer karê. Enquanto o estudante universitário, Totonou, cortava a cebola, a polícia aparece à sua porta para indagá-lo sobre um assassinato ocorrido na vizinhança. E assim, Totonou é levado para a delegacia. Uma após a outra, as evidências que sustentam as acusações lhe são apresentadas, mas… Inclui o Capítulo 1 e Capítulo 2 [Parte 1] em um compilado arrebatador de Totonou Kunou, o jovem decifrador e solucionador de mistérios!
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Eu achei esse mangá genial. Fazia tempo que uma leitura não me agradava nesse nível. Acho incrível quando autores conseguem criar personagens inteligentes e fico muuuito intrigado em como vai ser a continuação, porque segue sendo muito bem vendido no Japão lá nos seus 14 volumes, então como a autoria conseguiu manter tudo isso? Estou desesperado pelo volume 2.