
O novo queridinho?
Publicado originalmente no Japão em 2010 pela editora Core Magazine, Anamorfose é o mangá mais recente lançado no Brasil pela editora Darkside Books. De autoria de Shintaro Kago e tradução de Luiz Claudio Bodanese, a obra chegou às livrarias brasileiras no início de junho, marcando a consolidação do autor no território brasileiro.
Também criador de Dementia 21, A Grande Invasão Mongol, Pedacinhos, e do igualmente recente, A Princesa do Castelo Sem Fim, Shintaro Kago vem se tornando um autor frequente no Brasil e assim podemos ver a sua versatilidade de histórias, muitas delas das quais poderíamos classificar como maluquices desenfreadas.
O autor é conhecido pelo erótico grotesco em seus mangás, bem como uma grande quantidade non sense, além de pitadas de crítica social. E é um pouco disso tudo que vamos encontrar em Anamorfose.



Anamorfose é composto de duas partes. Na primeira nós temos a história de mesmo nome que acontece em cerca de 140 páginas e, na segunda, temos um conjunto de contos curtos.
A história que dá título ao mangá apresenta uma das características mais fascinantes do autor, que é misturar o mistério, o sobrenatural, juntamente com autorreferência e metalinguagem. Em Anamorfose, uma rede de televisão decide fazer uma pegadinha com um artista, sequestrando-o e colocando-o dentro de uma fantasia. Mais que isso, eles o levam para uma cidade de miniatura, para que ele pense ter se transformado em um monstro gigante. Entretanto, a pegadinha passa do ponto e o artista acaba falecendo.
Isso tudo é o prólogo. A história em si começa tempos depois com o programa “Ana Morphosis”, um jogo criado por um ricaço em que as pessoas devem passar um tempo num lugar supostamente assombrado por um fantasma, e quem resistir até o final ganhará uma fortuna em dinheiro. O novo “Ana Morphosis” busca justamente trazer o fantasma do artista morto na pegadinha, assim eles refazem o mesmo cenário, com a cidade em miniatura. Para a surpresa de todos, o artista reaparece mesmo, achando ser um monstro e querendo acabar com a vida dos presentes. Então, veremos os participantes do programa se virando e conjecturando sobre o que está acontecendo de verdade.


Eu entendi o final? Eu não entendi o final, mas tudo foi sendo executado para chegar nas últimas páginas e termos uma reviravolta daquelas. Por termos lido Pedacinhos, a gente já esperava uma reviravolta dessas, pois a estrutura era visualmente semelhante, dando a entender que questões de ficção estariam envolvidas na trama.
Eu não entendi realmente a última cena (talvez tenha a ver justamente com essa questão da ficção), mas mesmo assim eu adorei o desfecho, do mesmo jeito que adorei em Pedacinhos.

A segunda parte do mangá, a coletânea de histórias, por outro lado, deixa a desejar. Os contos, na verdade, têm o que se espera de Shintaro Kago, com aquela coisa do grotesco aparecendo constantemente, o sem sentido da mesma forma, dentre outras coisas. O roteiro dos contos, porém, são fracos e a gente não vê mensagens serem desenvolvidas a contento. Elas estão lá, a gente vê que estão, mas o modo como tudo é colocado parece bem pueril.
São 9 contos ao todo e é difícil achar um deles que seja efetivamente bom. “A Bela Detetive Sagiri Tengai”, o primeiro dos contos, termina por ser o melhor de todos, pois é uma história de investigação até que interessante e bem desenvolvida. Não tem uma mensagem propriamente dita, mas é uma investigação bizarra e humorística que mostra que nada pode ser descartado, mesmo algo dito como sobrenatural.

Falando sobre mensagens, a gente pode destacar dois contos, “Aluna Nova” e “Esquecimento”. “Aluna Nova” é um conto em que uma aluna é transferida de escola e descobre ser a única da nova escola, pois todos os demais alunos resolveram deixar de estudar e ficaram reclusos em casa. A história parece querer dizer que a sociedade e o ambiente escolar são hostis ao ponto de as pessoas decidirem por se sentirem mais seguros dentro de casa. Igualmente, ela mostra que se refugiar em seus lares também não é algo bom e traz consequências ruins. Entretanto, a obra não consegue passar isso adequadamente e a gente fica com a sensação de que faltou alguma coisa no desenvolvimento.
O conto “Esquecimento”, por sua vez, é o que mais une a bizarrice e o sem sentido com uma mensagem. Nesse conto, uma moça é operada, mas acaba descobrindo que sua barriga “serve” como uma maneira de fazer as pessoas se esquecerem de algo. Assim, após muito sofrer, a moça vê uma oportunidade de usar isso ao seu favor. É uma história que mostra como as pessoas se agarram a cada oportunidade em busca de querer algo impossível, mesmo se a tal oportunidade for algo visivelmente ruim.


Fora isso, muitos dos contos são apenas a bizarrice pela bizarrice, sem um sentido prático. Por si só, não tem nada de mais isso, afinal histórias assim também podem existir sem nenhum problema, a questão é que para o meu gosto elas foram bem fracas e não apresentaram nada que se destacasse.
Assim, das três obras do autor que eu tive a oportunidade de ler (além de Anamorfose, eu li Pedacinhos e Dementia 21), Anamorfose acabou sendo o mais fraquinho de todos. Não digo que é ruim (afinal a história principal é bem boa), mas eu esperava mais, tendo em vista os outros mangás do autor. Então, eu acho que vale a leitura, recomendo, mas creio que é melhor esperar boas promoções.
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Anamorfose veio no formato mais utilizado pela editora Darkside Books, no tamanho 14 x 21 cm (mesmo de Pedacinhos, A Menina do Outro Lado, dentre outros), com miolo em papel Offset e capa dura. São 224 páginas ao todo e o preço é R$ 69,90.
Ficha Técnica
Título Original: アナモルフォシスの冥獣
Título: Anamorfose
Autor: Shintaro Kago
Tradutor: Luiz Claudio Bodanese
Editora: Darkside Books
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 14 x 21 cm
Miolo: Papel Offset
Acabamento: Capa dura
Páginas: 224
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 69,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Em Anamorfose uma pegadinha que não sai como planejado provoca uma sequência de acontecimentos misteriosos e aterrorizantes. Tudo começa quando uma equipe de TV decide pregar uma peça em um jovem artista adormecido, tentando fazer de tudo para convencê-lo de que ele se transformara em um monstro gigante, em uma típica cena das séries japonesas de super-heróis. Contudo, o que era para ser uma brincadeira sai do controle e resulta em uma tragédia chocante. A gravação desse episódio desastroso não é divulgada ao público, mas tempos depois ela é exibida a um pequeno grupo de pessoas no Ana Morphosis, um tipo de jogo no qual os participantes são confinados em espaços que reproduzem cenas reais de assassinatos e acidentes. O cenário da vez é o set de filmagem da trágica pegadinha, e os participantes que permanecerem ali por um determinado período ganham uma recompensa milionária. Enquanto isso, em outra localidade, um diretor se prepara para iniciar o seu próximo filme, decidido a resgatar toda a magia cinematográfica do universo tokusatsu ― um gênero japonês peculiar de live action ao lado de técnicas analógicas de efeitos especiais de encher os olhos, repletos de bonecos, maquetes e pirotecnia, onde realidade e ficção se confundem.
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comprei não chame de mistério por causa da sua resenha e gostei muito, obrigado pela indicação.