Resenha: “Santuário dos Dinossauros #01”

Os antigos parentes das aves

Em agosto, a editora MPEG começou a publicar no Brasil o mangá Santuário dos Dinossauros, de Itaru Kinoshita. O título foi iniciado no Japão em 2021 na Comic Bunch, da editora Shinchosha, e ainda segue em andamento, atualmente com 6 volumes publicados.

A obra reimagina o nosso mundo como um lugar em que, em algum momento do passado, houve a descoberta de dinossauros vivos, mudando por completo o que se sabia sobre eles até então. A partir disso, a obra visa falar sobre os dinossauros e sobre as pessoas que gostam e cuidam deles em uma reserva japonesa.


PEQUENOS PRÊAMBULOS


Como dito, a obra reimagina o nosso mundo e, nela, descobriram em 1946 espécimes de dinossauros vivos em uma ilha isolada. A partir de então o interesse e a pesquisa sobre eles só aumentou, ao ponto de reproduzirem em laboratório as espécies encontradas e usarem tecnologia para trazer alguns exemplares extintos de volta à vida.

Com isso, os dinossauros foram levados para outros lugares do mundo e houve uma febre a partir do final dos anos 1980, mas esse entusiasmo arrefeceu após um acidente que resultou em morte em 2006, com hoje eles sendo considerados algo ultrapassado, muito embora ainda existam entusiastas.


UM POUCO MAIS DA HISTÓRIA


A protagonista da obra se chama Suzume Suma e ela não é uma pessoa qualquer, sendo filha do pesquisador que descobriu como trazer as espécies extintas de volta à vida. Assim, desde pequena, Suzume adorava dinossauros e tinha como sonho trabalhar cuidando deles.

O mangá se passa nos tempos atuais (com redes sociais, influencers, etc) e mostra Suzume já adulta. A história começa justamente no primeiro dia de trabalho de nossa protagonista em um parque de dinossauros do Japão.

O parque em questão é o menor do país e não tem muita verba, vive com problemas estruturais, mas decidiu contratar mais uma pessoa (Suzume), pois a mão de obra atual era pouca para o trabalho que precisava ser realizado.

A partir de então veremos Suzume e os outros personagens interagindo no parque, trabalhando com os dinossauros, conhecendo suas histórias, e conjecturando sobre “a vida, o universo e tudo mais”.


COMENTÁRIOS E DESENVOLVIMENTO


Não há como não olhar para Santuário dos Dinossauros sem lembrar instintivamente dos filmes estadunidenses da franquia Jurassic Park, tanto pela obra falar de dinossauros, de terem trazido espécies extintas de volta à vida, quanto por a trama se passar justamente em um “parque de dinossauros”.

Mas as semelhanças com a franquia americana terminam por aí mesmo. O estilo e o gênero das obras são totalmente diferentes, com o mangá não tendo nada de aventura, ação e suspense, e sendo apenas uma obra de vida cotidiana, com aspectos um pouco dramáticos, ou seja um slice of life de drama.

Em Santuário dos Dinossauros nós vemos uma “””humanização””” desses animais pré-históricos, com vistas a demonstrar que eles foram (e são) seres vivos e que eles têm características bastante diferentes entre si, em questão de comportamentos, atitudes, etc.

A obra parte justamente do princípio de que todos têm uma visão estereotipada dos dinossauros e logo no primeiro capítulo vemos um grupo de crianças no parque reproduzindo tais pensamentos, com alguns sentindo medo dos animais e outros se decepcionando por tal ou qual bicho não ser tão feroz quanto achava que fosse.

Nisso, a protagonista Suzume é a grande entusiasta dos dinossauros, é ela quem deseja mostrar a todos o lado “””humano””” deles, ela quem deseja fazer todos perceberem que tais animais são apenas seres vivos como qualquer outro.

Isso é apenas o ponto de partida, porém. A obra não é apenas um doce cotidiano puro e simples, ele tem muito drama envolvido, com a gente conhecendo as histórias de alguns dinossauros (como eles chegaram ao parque, seus problemas de saúde, comportamentos, etc.), vendo o sofrimento do local com a falta de verba, dentre outras coisas.

O legal do mangá, porém, é que ele parece mesmo bastante leve na maior parte do tempo, com a gente aprendendo sobre e apreciando os animais outrora extintos, mas em meio a isso tem todo esse aspecto sério acontecendo por trás, o restaurante/lanchonete com poucos clientes, o ar condicionado quebrado num momento crítico, os donos querendo vender um dinossauro porque não tá dando lucro, tudo isso vai formando um grande pano de fundo para o decorrer da história.

O final do primeiro volume é de um brilhantismo gritante, pois ele meio que reúne algumas coisas que estavam no ar (ou que deveriam estar no ar) e colocam tudo numa única mesa, o acidente de 2006, a criação de animais extintos, o amor da protagonistas pelos bichos, etc, etc, etc.

Embora tenha vindo num tom conflituoso, o final do volume coloca o leitor para pensar em diversos pontos que talvez ele não tivesse pensado até então por causa do clima ameno que a obra exala, como a velha questão ética de se criar uma vida.

Como isso se desenvolverá só os próximos volumes dirão, mas esse primeiro (o final do primeiro) deixou essa pulguinha em nosso pensamento. Claro, há outras coisas para a obra acompanhar e talvez esse ponto fique de lado em um primeiro momento, mas será interessante se o mangá se empenha em analisar isso um pouco.

Como dito, essas coisas dramáticas acabam ficando em segundo plano a maior parte do tempo, então uma parte do mangá é apreciar os dinossauros, o nascimento de um filhote, o relaxamento de outros, etc, e isso faz com que a gente vá se afeiçoando à história, ao mesmo tempo em que vai aprendendo um pouco sobre esses animais extintos.

Daí que um detalhe muito pertinente é que Itaru Kinoshita possui um consultor, Shin-ichi Fujiwara, que é um pesquisador sobre dinossauros. Logo, o que é reproduzido no mangá está alinhado com os conhecimentos atuais acerca desses bichos. Num passado não muito distante, por exemplo, se acreditava que todos os dinossauros eram apenas  répteis gigantes e hoje já se sabe que eles são bem próximos de aves e que muitos dinossauros tinham penas.

Kinoshita busca reproduzir isso no mangá com o auxílio de Fujiwara. Inclusive, há uma sessão após o fim de cada capítulo em que Fujiwara explica seu trabalho de pesquisador, mostrando como ele (e seus pares) faz para descobrir como determinado bicho extinto andava, dentre outras coisas.

Isso é particularmente agradável, pois dá uma maior dimensão do ponto de partida da obra e coloca mais contextos e confiabilidade ao que estamos vendo. Seria possível um dinossauro se encolher do jeito que um gato? Talvez sim. Assim, tais paratextos são essenciais em minha visão, pois dão um ar a mais cientificidade ao que está sendo contado.

Analisando o primeiro volume como um todo, eu gostei do que vi, tem uma história que promete bastante, mostrando bem o lado científico e apresentando uma narrativa bem aliciante, tendo todo um potencial para expandir e melhorar ainda mais.

De pontos negativos, tivemos os personagens. Embora a gente tenha gostado deles, eles ainda não tiveram tempo para “brilhar” e pouco sabemos sobre eles senão seus arquétipos (como Suzume ser aquela típica personagem sonhadora), de maneira que eles só foram colocados como uma “função” sem um algo a mais. Mas isso é algo que pode ser desenvolvido com o tempo.

No mais, é um mangá que apresentou uma proposta até que diferenciada e cumpriu muito bem nesse volume inicial, de maneira que vale dar uma oportunidade a esse título…


A EDIÇÃO BRASILEIRA


A versão brasileira de Santuário dos Dinossauros veio no tamanho 13,7 x 20 cm (padrão da editora e mesmo tamanho dos mangás da Panini), com miolo em papel Offset 90g e capa cartonada com sobrecapa e verniz localizado. São 192 páginas ao todo, sendo 3 coloridas.

É um mangá padrão da MPEG, então é uma edição bem feita, com um bom acabamento, um bom trabalho editorial, sem erros de revisão, etc, etc, etc. Para quem gosta de papel branco, é uma edição perfeita. Para quem não gosta muito (blogbbm) é o que tem para hoje…


Ficha Técnica


Título Original: ディノサン
Título: Santuário dos Dinossauros
Autor
: Itaru Kinoshita
Tradutor: Erika Yuriko Tanaka; Willian Hirofumi Tanaka
Editora: MPEG
Número de volumes no Japão: 6 (ainda em publicação)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel Offset 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 192 (sendo 3 delas coloridas)
Classificação indicativa: 12 anos
Preço: R$ 39,90
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Em 1946, uma pessoa descobriu uma ilha onde os dinossauros sobreviveram até os dias de hoje. Através de reprodução e manipulação genética, os humanos conseguiram expandir a população de tais espécies e aumentar a sua popularidade. Até que um infeliz acidente, provocado por atitudes dos seres humanos, fizesse com a imagem de tais criaturas perdessem um pouco de seu brilho. A história acompanha Suzume, uma nova funcionária contratada pela Dinolândia de Enoshima, em um santuário de dinossauros em dificuldades, onde as criaturas fascinantes precisam de amor, cuidado e respeito dos seres humanos!


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