
Veja como está o mangá
Em maio, com a publicação do primeiro volume de As Viajantes do Fim, tivemos o início da jornada de uma nova editora focada majoritariamente em mangás, a Baú Editora.
A empresa se tornou a primeira editora brasileira desde a NewPOP (em 2007) a começar os trabalhos diretamente com uma publicação japonesa. Mais que isso, ela começou com uma obra com anime (coisa mais rara ainda) e o lançou com um ornamento inédito em terras brasileiras, uma sobrecapa reversível.
Por ser uma editora nova, porém, pode ser que muitos tenham dúvidas em relação ao produto, de maneira que faremos esta postagem mais detalhada do que normalmente é, afinal é o primeiro item de uma empresa nova… Mas a gente já adianta que gostamos muito do mangá e do tratamento dado a ele pela editora.
Para esta resenha foram usados dois exemplares. Um eu comprei na pré-venda, outro a editora nos mandou, a quem agradecemos.
UM POUCO SOBRE A OBRA
As Viajantes do Fim (Shoujo Shuumatsu Ryokou ou Girl’s Last Tour) é um mangá de autoria de Tsukumizu e que foi publicado no Japão originalmente na Kurage Bunch, da editora Shinchosha, entre fevereiro de 2014 e janeiro de 2018, tendo seus capítulos compilados em um total de 6 volumes.
A obra ainda ganhou uma antologia (histórias curtas feita por diversos autores) e uma adaptação em anime (que foi ao ar entre outubro e dezembro de 2017).
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Baú no dia 19 de fevereiro de 2025 e seu lançamento ocorreu nos primeiros dias de maio. A edição brasileira compila dois volumes originais em apenas um, então a versão local terá 3 números ao todo.
UM POUCO DA HISTÓRIA
O mangá se passa em um mundo em que se acabou, em que a civilização já não existe e poucos humanos ainda persistem em um ambiente inóspito. Nesse ínterim, a gente conhece duas garotas, Chito e Yuuri, que vivem suas vidas andando de lugar em lugar, buscando suprimentos para sobreviver e fazendo da “estrada” o seu lar.
Se trata de uma obra de vida cotidiana, com toques de drama e muita reflexão. Assim, acompanhamos o dia a dia das duas (se protegendo da chuva, arranjando comida, etc) e suas considerações sobre a vida, o passado da humanidade (porque faziam armas e guerras? como viviam?) e o que as espera.
É uma obra simpática, em que a gente acolhe as duas personagens rapidamente em nossos corações e fica com muita aflição em relação àquele mundo, com cada momento vivenciado por elas e suas diversas considerações que reverberam em nosso mundo (nossa civilização acabará assim também?).
FORMATO E DETALHES DA EDIÇÃO BRASILEIRA
A edição brasileira veio no tamanho 13,7 x 20 cm, com miolo em papel Offset 90g e capa cartonada com sobrecapa reversível. São 320 páginas, todas em preto e branco. O preço é R$ 64,90.
Comentaremos nas sessões seguintes em maiores detalhes, mas o tamanho é o mesmo utilizado pela Panini e os demais detalhes são semelhantes aos da editora MPEG.
SOBRECAPA
No Japão, regra geral todos os mangás são lançados com sobrecapa, então as imagens de capas japonesas que a gente costuma ver são, na verdade, das sobrecapas.
Ao contrário da França e de países de língua espanhola, o Brasil ainda tem esse costume e são poucos os títulos que vêm com sobrecapa. Pior, muitas vezes sobrecapa não é considerado um item básico dos mangás e sim algo que confere “luxo”.
Nós gostaríamos que os mangás daqui fossem o mais próximo possíveis dos japoneses e que sobrecapa fosse tratada como algo comum e normal e não como algo que confere um status de produto diferenciado. Pois sobrecapa é legal, ela tem um charme, ela dá uma identidade a mais aos mangás.
A Baú Editora parece pensar como a gente e em lives das quais participou a empresa enfatizou que deseja manter sobrecapas em seus mangás até onde for possível, sem que isso impacte no preço final. Daí que As Viajantes do Fim têm sobrecapa e, além disso, apresenta um quê de ineditismo no Brasil, pois possui uma sobrecapa reversível.

Sobrecapa é esse item que fica acima da capa e que é removível, ou seja é perfeitamente possível tirá-lo. A questão é que no verso da sobrecapa normalmente não há nada, é apenas branco. Em alguns mangás publicados no Brasil, há uma imagem nesse verso e que pode servir como um pôster. É o caso de Vênus Invisível, Cavaleiros do Zodíaco – Final Edition #01 (capa variante), e Billy Bat.
As Viajantes do Fim também possui uma imagem no verso, mas aqui é diferente, pois se trata de uma “outra sobrecapa”, daí o nome de sobrecapa reversível.

Como se trata de uma edição 2 em 1, a editora não queria perder a imagem das sobrecapas dos volumes japoneses pares, então ela decidiu colocar essas imagens no verso, com direito ao texto na lombada para o caso de a pessoa querer usar essa imagem como capa.
O conceito de sobrecapa reversível é esse, você tem a oportunidade de usar qualquer uma das duas ilustrações como capa. Ou, como no meu caso, ter dois volumes para deixar cada um com uma “capa” e lombada diferente^^.


Em relação ao acabamento, ele é de um bom material (similar aos das sobrecapas de outras editoras brasileiras) e em laminação brilho.
Para além disso, gostei bastante que teve uma sinopse, pois mostra uma preocupação da editora com os consumidores de lojas físicas. Isso é algo que eu sempre pego no pé, pois acho que precisa ter sinopses na parte externa dos mangás, então é muito bom que a editora tenha colocado.
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Para não dizer que só estou elogiando, aqui vai um preciosismo de minha parte: sobrecapas reversíveis são bastante comuns na França e, por lá, é uma capa mesmo. Assim, além do título na lombada, há o título na capa também e isso faz com que realmente pareça uma outra capa.


Em As Viajantes do Fim, por outro lado, apenas a lombada dá a marcação de que é uma sobrecapa reversível e não um pôster. Como dito, isso é só um preciosismo de minha parte e não é necessariamente um demérito.
Então, eu gostei da sobrecapa reversível e de ter as lombadas diferenciadas, mas seria legal se em outras oportunidades (em outros mangás), a editora colocasse o título na sobrecapa do verso também.
CAPA, QUARTA-CAPA E LOMBADA
Sobrecapa é um item que fica acima da capa, então agora mostraremos a capa. Ela é toda em preto e branco e a ilustração é quase a mesma da sobrecapa principal, mas sem a presença das garotas.
E assim como na sobrecapa, ela é contínua e passa pela lombada e chega na quarta-capa.



A capa é em papel cartão comum, semelhante à maioria dos mangás publicados no Brasil e o acabamento é em laminação brilho (assim como a sobrecapa).
CAPAS INTERNAS, PRIMEIRAS E ÚLTIMAS PÁGINAS
As capas internas são brancas, não tendo nenhum detalhe nelas. Isso é bastante normal, livros e mangás mundo à fora costumam ser assim mesmo.
A gente só menciona esse detalhe, pois aqui se acostumou a ter algo nas capas internas (uma ilustração, uma cor, palavras dos autores, etc), mas o normal é que não tenha nada mesmo.

Após a capa interna da frente, temos a folha de rosto (com o título, nome do autor, número do volume e logo da editora), seguido do índice (em duas páginas) e a seguir já começa a história com o capítulo 1.


Após a capa interna de trás, nós temos uma folha com o expediente (as pessoas que trabalharam no mangá), o tradicional aviso de “Pare!”, e a essencial Ficha Catalográfica (aquele item dentro de uma caixa de texto branca). Após isso tem duas páginas duplas, uma com o título do mangá e outra com um mini-mapa.



PAPEL
O papel utilizado no miolo é o Offset 90g. É o mesmo papel branco usado em títulos como Pluto, 20th Century Boys – Edição Definitiva, One-Punch Man e na maioria dos mangás da NewPOP e da MPEG.
É um papel que o público em geral adora, por ser branco, um pouco grosso e ter pouca transparência nas páginas. Para uma edição padrão foi uma boa escolha e não vi problemas.

ENCADERNAÇÃO E ACABAMENTO GERAL
Uma questão importante é saber como está o acabamento geral. A gente já viu que o papel é bom, que a sobrecapa é ótima e a capa também foi feita em um bom material, mas e o todo? Dá para folhear e ler sem problemas? A resposta é sim.
A encadernação é apenas colada (não tem costura), mas ela é bem feita, daquelas que a gente pode abrir facilmente e consegue ler de boa. Algumas vezes, mangás com papel Offset 90g acabam sendo meio duros de abrir, mas esse não é o caso de As Viajantes do Fim e, particularmente, acho que é uma das melhores encadernações, bem similar a Gash Bell!! e 20th Century Boys – Edição Definitiva.
Se fosse para fazer um comparativo, o acabamento geral desse mangá é uma qualidade muito boa, sendo, por exemplo, parecida com os mangás da MPEG e alguns da Panini (Pluto e o citado 20th Century Boys, por exemplo).
TEXTO E DETALHES EDITORIAIS
A tradução do mangá ficou a cargo de Gabriela Takahashi (responsável por Um Homem e Seu Gato, Um Amor Impossível!. Ou não…, Chaos Game, dentre outros) e gostei bastante da maneira que o mangá foi adaptado.
Achei que o texto, na maior parte do tempo, foi bem coeso e coerente, sem tantos estranhamentos, de maneira que a leitura flui muito bem.
Meu único incomodo foi um quadrinho na página 194 em que a frase pareceu perdida e sem complemento. Pensando num sentido reflexivo, por parte da personagem, faz sentido, mas quando a gente vai lendo aquela sequência parece que faltou alguma coisa ou que deveriam ter usado um outro pronome.
Não notei erros de revisão.

Ainda falando acerca de texto, não sei como serão os outros mangás da editora, mas neste primeiro eu gostei que a tradução foi feita para todo mundo (e não apenas otakus hardcore), sem necessidade de notas de rodapé ou glossário elaborado.
Como se trata de uma obra que se passa em um mundo pós-apocalíptico não há muitos termos japoneses intraduzíveis (então não precisaria de tantas notas assim), mas gostei que a editora não usou honoríficos, deixando a coisa mais aportuguesada possível.

Isso não quer dizer que não tenha notas de rodapé. Nas poucas que têm, a editora as colocou entre os quadrinhos em fonte reduzida, de maneira que não produz nenhuma poluição visual, o que é novamente um ponto positivo.


Quando falamos de uma editora nova, um dado importante que também é preciso ver é como estão as onomatopeias. A editora (antes do lançamento) já havia mostrado em suas redes sociais o modo como ela as tratou, tendo todo o cuidado do mundo no modo como colocar as legendas.
Por nossa vez, achamos que foi tudo muito bem feito e deixou o mangá com uma boa harmonia. Isto é, as legendinhas foram colocadas de forma a não atrapalhar a experiência de leitura e nem deixar a página poluída (coisa que acontece com algumas editoras novas), estando todas muito bem integradas ao contexto e layout das onomatopeias originais.
Assim você não nota diferenças em relação ao modus operandi das principais editoras brasileiras, como a Panini e a JBC, por exemplo. Então o trabalho foi bem feito, de forma profissional e mostrando que é feito por gente que conhece esse mercado.



Quanto à diagramação do texto nos balões, ela também é feita de forma semelhante às principais editoras do mercado, com texto centralizado, diferenciação de fontes a depender do contexto, etc, etc, etc.
Então, quando você pegar para ler As Viajantes do Fim, não sentirá nenhuma diferença em relação a mangás da MPEG, da Panini, da JBC, da Pipoca & Nanquim, etc. É o primeiro mangá de uma editora novata, mas é feito por pessoas que já estão no mercado de mangás e já sabem o método de trabalho para ser o mais perfeito possível.
CONCLUSÃO
Creio que não há muito mais o que falar sobre a edição brasileira de As Viajantes do Fim. Eu achei a edição muito boa, gostei da ideia da sobrecapa reversível, gostei da tradução e demais aspectos editoriais. E a história é muito boa.
Para quem gosta de obras de vida cotidiana, reflexivas, esse é um prato cheio, pois faz a gente ir apreciando um dia a dia de duas personagens, ao mesmo tempo em que vai refletindo sobre a nossa existência e o mundo cruel em que vivemos, com guerras a torto e a direito.
Em relação ao preço, R$ 64,90 é um valor alto para todo mundo, mas dentro da realidade atual do mercado brasileiro é um preço bem convidativo para uma edição 2 em 1, estando na média do mercado e até mais em conta a depender do comparativo. São apenas 3 volumes no total, então vale dar uma chance.
Ficha Técnica
Título Original: 少女終末旅行
Título: As Viajantes do Fim
Autor: Tsukumizu
Tradutor: Gabriela Takahashi
Editora: Baú Editora
Número de volumes no Japão: 6 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação e a ser concluído em 3)
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel Offset
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 320
Classificação indicativa: 14 anos
Preço: R$ 64,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Baú / Mundos Infinitos
Sinopse: Em um mundo onde a civilização se reduziu a ruínas, Chito e Yuuri se recusam a deixar o vazio consumi-las. Com sua fiel Kettenkrad (uma semilagarta com roda dianteira de moto) como companheira inseparável, elas percorrem os restos fantasmagóricos de uma vida que já ficou para trás, buscando comida, combustível e a menor centelha de esperança. Cada dia é uma luta contra o desespero, mas juntas, elas encontram conforto nas menores alegrias: o calor de uma sopa compartilhada, a emoção de descobrir relíquias esquecidas e os momentos silenciosos de conexão que as lembram do que significa realmente viver. Em um mundo desolado, o vínculo entre elas se torna sua luz… provando que, mesmo em meio às ruínas, é possível encontrar sentido no amor e na alegria que criam juntas.