
Brasil nos mangás
Normalmente os quadrinhos japoneses se passam no próprio Japão ou em mundos de fantasia (sejam eles isekais ou não). Isso é comum na produção cultural de cada país, a maioria dos livros, filmes, quadrinhos, etc, se passa no país em que foi produzido ou (caso não) em algum mundo fantasioso.
Assim, livros e filmes brasileiros se passam no Brasil, do mesmo modo que quadrinhos japoneses se passam no Japão. Só que isso se refere à maioria, mas não à totalidade. Existe uma gama de obras que se passam em outros países.
Quando se fala das hqs japonesas que se passam fora do Japão, elas terminam por soar bem interessantes por conta disso, por vermos algo diferente do usual. Claro que muitos são mangás históricos como Rosa de Versalhes e Innocent (que se passam na França) ou Hitler e 1945 (que se passam na Alemanha) ou igualmente de fantasia como Hellsing (que se passa na Inglaterra), mas existe uma pequena parcela que além de se passar fora do Japão, acontece na atualidade e sem ser de fantasia. E é justamente nessa pegada que temos Mangaká da Favela.





Mangaká da Favela é um mangá criado por Sohachi Hagimoto com arte Minoru Taruro e se tornou famoso na internet desde o lançamento do primeiro capítulo, por se passar no Brasil e por ter uma certa polêmica envolvida acerca da representação do nosso país na obra.
O título começou a ser publicado em junho de 2024 no Comic HOWL, da editora Ichijinsha, e ainda está em andamento, atualmente com dois volumes publicados. O primeiro, inclusive, saiu simultaneamente no Japão e no Brasil (aqui publicado pela Panini) no final de abril de 2025.
Além disso, no mês de julho, o Consulado do Japão no Brasil distribuiu gratuitamente em alguns eventos uma amostra do mangá em uma versão bilingue (japonês e português).

Na obra, conhecemos o mangaká Hiroto Takei, um homem de 30 anos, que decide desistir dos mangás após ter mais uma obra rejeitada e não ter conseguido nenhuma serialização desde que tentou se tornar profissional. Para esquecer sua vida e deixar tudo para trás, ele resolve viajar para o Brasil, um país do outro lado do mundo onde – segundo seu pensamento – não tem nada a ver com mangás.
Em São Paulo, Hiroto acaba se perdendo e vai parar em uma favela dominada por uma briga de facções. De pronto, ele presencia um assassinato, tem sua bolsa roubada, sofre uma tentativa de suborno por parte dos policiais e, por fim, quase tem o seu celular furtado, mas, sobre este último ponto, um menino de uns quinze anos, João, impede isso.

Por tudo o que tinha ouvido falar (os preconceitos para com as regiões marginalizadas) e do que presenciou, Hiroto fica morrendo de medo do lugar, mas acaba descobrindo que João é um excelente artista e mesmo com receios vai à casa do menino, descobre que ele tem mangás em casa e que ele tem o sonho de ser um mangaká.
Apesar das adversidades (tem que estudar, trabalhar e fazer um monte de coisas), João desenha bem e Hiroto vê grande potencial nele. Entretanto, a vida é muito tribulada para algumas pessoas e o ex-mangaká (?) se depara com uma situação que não esperava, com o iminente fim do sonho do garoto.
Impelido por sua paixão aos quadrinhos e seu desejo de ver a felicidade do rapaz, Hiroto decide treiná-lo para que João se torne um profissional e não tenha que entrar na vida do crime para sobreviver…

Mangaká da Favela é do gênero drama e busca enfatizar os problemas pessoais (de Hiroto) e sociais (de João) para contar a história do amor aos quadrinhos japoneses, do desejo de criar ficção que comova os leitores e os emocione. Assim, de um lado veremos alguém com todas as condições favoráveis, mas que não tem tanto talento assim, e de outro um jovem com talento, mas que suas condições de vida o impediriam de seguir profissionalmente.
A obra trabalhará sobre os dois (com Hiroto buscando ajudar João) e mostrará os entraves inerentes a isso, como a situação social e financeira complicada do jovem brasileiro, e a ingenuidade do homem japonês perante a pessoas que não gostam dele no Japão.

Dito isso, desde o lançamento do primeiro capítulo no Japão, o mangá ficou envolvido por estas bandas em polêmicas pelo jeito (ou suposto jeito) de retratar o Brasil, polêmicas essas feitas (em sua maioria) por pessoas que não leram a obra e apenas comentaram acerca de determinadas imagens que circularam nas redes sociais.
Na verdade, Mangaká da Favela mostra uma realidade ipsis literis do Brasil, deixando evidente a desigualdade social (muitas vezes separada apenas por uma rua) e os problemas que muitos de nós enfrentamos no dia a dia (a corrupção policial, a inoperância do Estado e o abandono, por parte desse, de uma grande parcela da sociedade, a violência, etc, etc, etc).
Assim, o foco termina por ser numa região perigosa (numa favela de São Paulo) em que o preconceito da sociedade brasileira (ou de parte da sociedade brasileira) diz só haver criminosos, preconceito este que é tão irradiado ao ponto do próprio protagonista ter isso em sua mente.
Entretanto Hiroto logo descobre (ao ter contato com João e sua família) que os moradores são pessoas comuns, que trabalham, que têm sonhos, que fazem tudo para sobreviver, mas que infelizmente às vezes existem tantos infortúnios e a situação é tão precária que o mundo do crime se apresenta como a única solução para a sobrevivência.
Nós que vivemos em bairros mais pobres (que não precisam nem ser rotulado de favelas) sabemos muito bem como é isso. Uma certa desestrutura familiar pode fazer com que uma pessoa não tenha escolha, por uma série de questões (que não cabem nessa resenha).
O GRANDE PONTO é que o mangá é mais extremo nesse sentido, apresentando uma camada acima, com personagens mais perto do limite (o conjunto sucessivo de problemas da família do João) e mais próximos das gangues (que nós dos bairros pobres raramente vemos), extremidade essa que é algo normal por se tratar de uma obra de ficção.

Apesar dessas ressalvas, o mangá têm alguns problemas em questão de representação, sim. Existem alguns elementos que são ficcionais demais (que eu vejo só em peças de humor) ou que fazem parte de uma realidade que mesmo eu (que sempre morei numa região pobre) jamais vivenciei.
Em um certo momento Hiroto está na casa de João e ouve barulhos de tiros, ficando assustado. Entretanto João informa que os sons estão longe e que não era preciso se preocupar. Nas esquetes humorísticas diz-se que é assim no Rio de Janeiro e em alguns bairros violentos de outros lugares, inclusive do meu estado. Só que sempre foi humor e nunca algo de verdade. No meu bairro, por exemplo, qualquer barulho e a gente está se jogando no chão, já cheguei a acordar de noite com barulhos e me atirei da cama para ficar em segurança, etc, etc, etc.
A realidade mostrada no mangá, por conta disso, fica muito ficcionalizada. Não é algo ruim, por assim dizer, pois faz parte da ficção utilizar determinados subterfúgios para mostrar a diferença e realizar uma mudança, mas quando a gente vê esse descompasso entre ficção e realidade fica meio estranho. O mesmo vale para o assassinato no início do mangá com as pessoas não fazendo muito alarde. A representação não é tão fidedigna.

Existem outros casos que também causam estranheza, mas fazem sentido. O fato de a mãe de João ter asma e não conseguir um tratamento é algo bem factível. Embora o governo ofereça remédios para controle, alguns deles são muito caros e só são distribuídos em locais específicos como a Farmácia Cidadã (no caso do Espírito Santo) e a informação nem sempre é totalmente difundida, principalmente entre famílias mais humildes, fora que dependendo do estado o acesso não é tão facilitado.
Assim, a questão do trabalho da mãe do João por conta da doença, embora soe apelativo para enfatizar mais ainda a questão da pobreza da família do garoto, para caracterizar o fato de o menino não ter uma saída, está dentro da verossimilhança com a nossa realidade.

O início do mangá, por seu turno, só é problemático fora do contexto. A sequência assassinato/assalto/propina/furto é para chocar as pessoas e para mostrar um recorte do ambiente para, posteriormente, vermos que existem pessoas (no caso João e sua família) que tentam viver fora da esfera da violência.
Se a cena das pessoas não ligando para a o assassinato não é factível (como comentado antes), todas as demais coisas são vívidas e normais no mundo real (só não acontecem tudo ao mesmo tempo^^). Assim, ao ver o contexto e o que se quis passar, essa sequência inicial é muito boa.
Vale dizer que, não fosse uma obra que se passasse no Brasil, todo mundo acharia normal dentro de uma realidade ficcional. O que se viu de problemático é mais por vemos algumas mazelas reais do nosso país que muitas pessoas tentam esconder ou não conseguem ou não querem enxergar.

Mangaká da Favela, porém, pode sofrer de problemas narrativos. Toda essa parte do menino João e do Brasil está calcada no drama (na possibilidade de abandonar o sonho em prol de se fazer dinheiro visto que uma realidade cruel se avizinha) e é uma parte, até certo ponto, bem feita.
O autor coloca as coisas em rota de colisão, mostra os choques, os imprevistos, e parece trabalhar bem, embora a gente não saiba para onde as coisas irão. Ou seja, a ideia de Hiroto ajudar João a se tornar um mangaká é bem interessante, o modo como o homem analisa os desenhos do brasileiro também, mas a gente não sabe até onde isso vai e como a questão da violência da região irá interferir.
Mas o pior problema narrativo diz respeito ao lado japonês da coisa. Somos apresentados a uma espécie de rival de Hiroto, uma moça que parece não gostar dele por algum motivo e torce pelo seu fracasso.
Essa é uma trama que, no meu entender, perde um pouco da pegada da obra e pode fazer com que o conjunto da trama fique estranho. Isso, porém, é coisa para vermos nos próximos volumes. Por enquanto, a trama ainda está agradável narrativamente falando e a gente espera que continue assim…
EDIÇÃO BRASILEIRA E CONCLUSÃO
A edição brasileira veio no formato padrão da editora Panini, no tamanho 13,7 x 20 cm, com miolo em papel Offwhite e capa cartão simples, com acabamento fosco. São 210 páginas, sendo duas coloridas em papel couchê.
De maneira geral, é uma edição com boa encadernação e um papel ok, mas é uma das mais simples da Panini, não possuindo detalhes adicionais. O preço é R$ 44,90.
Eu achei o mangá bem legal nesse primeiro volume e não vi nenhum “desrespeito para com o Brasil”. Existem certos problemas, certas coisas que incomodam, mas no geral é muito uma questão de como a ficção funciona e o que é necessário para gerar certos efeitos nos leitores.
No mais, eu acho que a narrativa tem potencial de melhora, de fazer a trama evoluir, de mostrar mais o amor pelos mangás, porém há elementos que podem distorcer isso como a suposta rival de Hiroto.
Ainda assim, creio que minha análise do volume inicial é um pouco enviesada por ela falar do Brasil e de uma realidade que a gente conhece bem. Já me aconteceu isso ao ler livros sobre o Espírito Santo e meio que acontece também nesse quadrinho, pois eu fico tentado a querer gostar e a achar muito legal de ver os locais, as referências, etc.
Não que eu tenha mentido em algum momento, mas se fosse uma ficção se passando em ambiente 100% japonês talvez eu não ligasse tanto para a obra. Sim, pois, a motivação inicial para ler o mangá é o fato de se passar no Brasil e continuar a leitura (ao menos por um tempo) também. Não fosse isso, talvez a gente não ficasse realmente interessado.
MAS, como dito, o mangá é legal e vale dar uma chance ao menos para esse volume inicial, para vocês verem um pouco da história.
***
Sohachi Hagimoto, autor do mangá, demorou quatro anos fazendo pesquisas para essa obra, aprendendo um pouco de português e interagindo com leitores brasileiros. Nos paratextos do primeiro volume, ele credita mídias de apoio (incluindo dubladores), além de pessoas que colaboraram com a coleta de informações e checagem cultural. Ainda hoje ele mantém contato com brasileiro, por meio das redes sociais.
FICHA TÉCNICA
Título Original: ファヴェーラの漫画家
Título: Mangaká da Favela
Autor: Sohachi Hagimoto, Minoru Taruro
Tradutor: Luana Tucci
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 2 (ainda em publicação)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel Offwhite
Acabamento: Capa Cartão
Páginas: 210 (sendo 2 coloridas)
Classificação indicativa: 16 anos
Preço: R$ 44,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini
Sinopse: Hiroto Takei, um mangaká de 30 anos que, embora seja um cara legal, nada dá certo em sua vida… Ao desistir do seu sonho de publicar uma serialização, ruma para o Brasil em uma viagem para curar suas mágoas. Ele acaba se perdendo em uma favela e conhece João, um garoto pobre de 15 anos que tem um olhar intenso. O jovem, que vive do outro lado do mundo, tem o sonho de se tornar um mangaká…!!A história de dois mangakás na favela perseguindo seus sonhos tem início…!!