Mangá Aberto: “Dia da Cabeça Voadora” e “Silêncio”

Veja como estão os primeiros mangás da editora Tábula

Mangá Aberto é uma coluna de resenhas em que a gente se debruça sobre a edição de um mangá. Ou seja, não falaremos aqui sobre a história e sim sobre aspectos físicos e editoriais.

No post de hoje, comentaremos sobre os mangás Dia da Cabeça Voadora e Silêncio, ambos do expoente do ero-guro Shintaro Kago.

Os títulos, para quem não sabe, também são os primeiros quadrinhos japoneses pela editora Tábula e foram publicados juntos entre o fim de junho e início de julho.

Como fãs do autor, ainda faremos resenhas individuais de cada mangá enfatizando a história deles, mas é importante e necessário fazer este post conjunto sobre a edição física, pois os mangás apresentam certas questões editoriais que precisam ser comentadas e criticadas.


TÁBULA EDITORA? QUE EDITORA É ESSA?


A Tábula Editora é uma empresa de Santa Catarina e foi fundada em 2023 por Priscila Platen. A “cara” da editora (quem trabalha gravando vídeos e editando os quadrinhos), porém, é o editor Douglas Freitas (ex-editora Skript).

No que toca aos mangás, seus primeiros títulos foram anunciados em 2026 mesmo, sendo até agora três mangás de Shintaro Kago e dois de Eldo Yoshimizu.

Um detalhe importante é que as obras da editora normalmente ganham uma campanha no Catarse (juntamente com uma pré-venda na Amazon), daí que se a meta da campanha for batida, podem surgir metas adicionais como uma sobrecapa ou outros brindes.


TRILOGIA SILÊNCIOSA DE SHINTARO KAGO


Editoras novas costumam ter dificuldade em conseguir seu primeiro mangá, pois nem sempre as empresas japonesas estão abertas a iniciantes. Existe até a velha anedota (que é real) de que muitas editoras só começam a conversar depois que a empresa ocidental já publicou um mangá anteriormente.

Uma saída para isso é adquirir licenças de quadrinhos japoneses que estão sob a guarda de empresas ocidentais ou que foram feitas diretamente para editoras do lado de cá do globo. E é aí que entra Shintaro Kago.

O autor produziu três mangás completamente sem diálogo para a editora italiana Hollow-Press, empresa conhecida por contratar autores japoneses e lançar mangás em três idiomas simultaneamente (japonês, italiano e inglês). Já tivemos por aqui algumas obras da Hollow-Press, como Gaia (Darkside Books) e A Princesa do Castelo Sem Fim (Pipoca & Nanquim).

A Tábula, então, licenciou esses três mangás do autor, Dia da Cabeça Voadora, Silêncio e Trato (em pré-venda para o mês de agosto), iniciando assim o seu catálogo de publicações japonesas.


FORMATO DE “DIA DA CABEÇA VOADORA” E “SILÊNCIO”


Dia da Cabeça Voadora e Silêncio vieram no formato 15,5 x 22 cm, um tamanho semelhante aos mangás da Pipoca & Nanquim e da Comix Zone.

O papel utilizado no miolo é o Pólen Bold 90g, novamente é o mesmo papel utilizado pelas editoras de Bruno Zago e Thiago Ferreira. Ou seja, é aquele papel de cor creme de boa qualidade.

Eventualmente pode ter um pouco de transparência, mas não é nada que atrapalhe a leitura. A imagem a seguir só é tão transparente na foto, ao vivo não é tão problemático.

Dia da Cabeça Voadora
Silêncio

CAPAS (E SOBRECAPA)


Dia da Cabeça Voadora e Silêncio vieram em capa cartão como acabamento fosco, mas sem detalhes adicionais (não tem orelhas e nem verniz localizado).

No caso do mangá Dia da Cabeça Voadora, após o início da campanha no Catarse, a editora resolveu fazer uma capa variante para a obra, assim há duas versões desse mangá, a de capa vermelha (que foi a primeira) e a de capa azul (a capa variante).

A campanha do mangá Dia da Cabeça Voadora, porém, não gerou apenas a capa variante, gerou também uma sobrecapa reversível.

A sobrecapa em questão é a mesma nas duas versões de capa e ela possui quatro ilustrações (duas na parte da frente e duas no verso) e você pode escolher qual usar.

As ilustrações em questão foram usadas na primeira publicação italiana de Dia da Cabeça Voadora. Ele saiu em quatro edições, cada um com uma imagem, e posteriormente elas foram reunidas em volume.

Vale mencionar também que as ilustrações das capas de Dia da Cabeça Voadora vieram de um box reunindo esses quatro volumes (a capa vermelha) e do volume único italiano (a capa azul).


CAPAS INTERNAS E AVISO


Os dois mangás possuem ilustrações em suas capas internas, todas em preto e branco, porém. Não é algo que precisava ter, mas alguns consumidores gostam que as capas internas não sejam brancas.

Um detalhe interessante, porém, é que os dois mangás possuem sentido de leitura ocidental e a Tábula colocou um aviso de “Pare!” ao contrário^^.

Não é a primeira vez que acontece em um mangá com leitura ocidental, mas é engraçado ver esse tipo de aviso.


ACABAMENTO GERAL


Como visto, a Tábula usou as mesmas dimensões e o mesmo papel das editoras Pipoca & Nanquim e Comix Zone. Entretanto, o acabamento geral não foi o mesmo. Dia da Cabeça da Voadora até teve sobrecapa, mas Silêncio não. Fora isso, o miolo é apenas colado (os mangás da PN e da CZ possuem costura).

Apesar disso, a encadernação é boa, dando para folhear e ler os mangás sem problemas. No caso de Silêncio, porém, por ele ter poucas páginas, há uma sensação de maior fragilidade.

Ainda assim, não é nenhuma contrariedade, não é nenhuma questão que faz a gente achar o produto ruim. Afinal, o papel é bom e a impressão também. De todo modo, é um mangá com preço de luxo, mas sem ser luxo de verdade.


PROBLEMAS EDITORIAIS


Dia da Cabeça Voadora e Silêncio são dois mangás que não têm diálogo, então a gente pode dizer com toda certeza que não há problemas editoriais, correto?

Completamente errado.

Não há como ter erros na história em si, mas existe todo o entorno da publicação: a sinopse, textos acessórios, página de expediente. E a gente vê problemas desde o primeiro momento.

1) DIA DA CABEÇA VOADORA

Em Dia da Cabeça Voadora a sinopse presente na quarta-capa (imagem acima) é bem mal escrita, com problemas de coesão evidente (no primeiro parágrafo, por exemplo, se coloca um “a obra” sem nem ter sido citado o nome dela) e vírgulas mal colocadas (especialmente no terceiro parágrafo).

Além disso, há alguns erros grosseiros como o “uns trabalhos” (deveria ser “um dos”) no segundo parágrafo e o “ero-guru”(o correto é ero-gurO) no parágrafo final.

No todo, ficou parecendo um desses textos que a gente escreve de forma apressada para internet e não corrige depois.

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Ao abrir o volume, a página de expediente apresenta mais problemas. Na parte superior, o nome do autor foi escrito de forma errada (Shitaro em vez de ShiNtaro). O mesmo erro se repete duas vezes na ficha catalográfica (aquele retângulo, logo abaixo de “Dados Internacionais de Catalogação na Publicação”).

Há outro problema nessa mesma página. No expediente, Carlos Rutz é creditado como tradutor do mangá. Na ficha catalográfica, por outro lado, a tradução é atribuída a Gustavo Iracema.

Tirando o fato de que não há nada para traduzir nesse mangá (talvez apenas a biografia do autor) ter informações contraditórias sobre quem traduziu é de uma falta compromisso muito grande por parte da empresa.

Dia da Cabeça da Voadora possui dois textos, uma introdução feita por Douglas Freitas (editor da Tábula) e uma pequena biografia do autor.

A introdução está bem ajeitada em sua maior parte, mas a gente ainda encontra erros de vírgulas e problemas de coesão.

Deveria ser um “pode-se” antes de “sim notar”

Na biografia, há certos problemas também, mas deixaremos para falar logo mais quando falaremos de Silêncio, visto que ela se repete.

2) SILÊNCIO

O texto da quarta-capa de Silêncio também já começa com problemas. A primeira frase já tem uma coesão ruim, com uma conjunção que não deveria estar ali ou com uma ordem errada na construção da oração. Além disso, o texto não fala nada sobre a obra, sendo apenas algo genérico sobre o autor.

Entrando no mangá e nos detendo na página de expediente encontramos os mesmos problemas de O Dia da Cabeça da Voadora: o nome do autor errado na parte da cima e na ficha catalográfica, e a inconsistência do nome do tradutor.

Parece que a empresa fez um “Control C, Control V” e só realizou algumas alterações sem se preocupar (ou sem sequer perceber) os erros.

Isso de copiar e colar sem perceber os erros ocorre também na biografia do autor. O texto presente em Dia da Cabeça Voadora foi inteiramente copiado em Silêncio, mantendo as mesmas imperfeições e acrescentando outros enganos textuais.

Um dos problemas provavelmente tem a ver com a fonte escolhida. O hífen entre palavras, em vez de estar no meio, parece estar na parte de cima das letras (vejam na imagem).

Fora isso, há uma palavra no singular que deveria estar no plural (“em muito de seus trabalhos” deveria ser “em muitoS de seus trabalhos”), além de outras coisinhas aqui e ali.

Mas um outro ponto é que, como o texto foi todo copiado de Dia da Cabeça Voadora, o final perde sentido. Como se trata do mangá Silêncio, a editora deveria ter mudado o final e colocado “Além do mangá SILÊNCIO, a Tábula publicou outros dois trabalhos do autor” e fazer as correções necessárias.

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Além do mangá em si e do que mostramos acima, Silêncio possui outros três textos acessórios. Um texto traduzido de James Harvey sobre Shintaro Kago, um texto de introdução feito por Douglas Freitas e um posfácio a cargo de Brenda Bortolini.

O texto de Harvey me parece bem ok. Há um ou outro trecho que me pareceu estranho, mas no meu entender era mais pelo estilo do que problema de tradução/revisão.

Agora o texto de Douglas Freitas está sofrível. Há vários problemas de construção de frase (especialmente no terceiro parágrafo), mal emprego de vírgulas (ou falta delas), além de novamente ter sido deixado um “ero-guru” (como dito antes, o correto é ero-gurO).

Parece um texto que foi feito às pressas e que, pela quantidade de problemas, não foi revisado por ninguém.

Confiei no projeto de vocês, mas não devia ter confiado.

O texto de Brenda Bortolini é mais bem construído e linguisticamente muito melhor do que o de Douglas Freitas, mas também apresenta alguns problemas, em especial de coesão. Em vários momentos se está falando de uma determinada coisa e a conexão com um comentário ou com o próximo assunto não é feito adequadamente.

Como se trata de um texto feito por convidada da editora, o problema não é do texto da convidada e sim exclusivamente da empresa, que não notou esses pequenos deslizes e publicou o texto mesmo assim.

Explicando: é bastante normal que todos nós não percebamos certos problemas em nossos próprios textos, mesmo tendo o máximo de atenção possível. Isso não quer dizer, necessariamente, que a gente escreva mal. A questão é que nosso cérebro fica acostumado com o texto e vai completando automaticamente com coisas que não estão lá (ideias ou palavras). Assim, o que parece estar correto, só está na nossa mente.

Mas é justamente para isso que existe o trabalho profissional de uma editora e, dentro disso, a figura do revisor. É a empresa que deve eliminar determinador gargalos linguísticos que uma pessoa não percebeu ao escrever. Isso vale tanto para o texto de Brenda, quanto para o de Douglas.

E está bastante claro que – com exceção do texto traduzido do inglês, de James Harvey – não houve revisão. Ou, se por um acaso chegou a ter, a editora não deu mais do que quinze minutos para a pessoa fazer e todos esses problemas passaram…

Foi um trabalho ruim e a editora precisa eliminar isso totalmente de seus próximos lançamentos, pois do contrário não haverá como dar qualquer chance aos produtos da empresa.


APENAS UNS PILAS?????


O mangá Silêncio veio num selo chamado UNSPILA. O selo em questão é uma aposta da editora Tábula para a publicação de quadrinhos a preços acessíveis. Silêncio entrou nesse selo por ter poucas páginas e, assim, poderia ser publicado por um preço bem menor do que os demais mangás.

Entretanto, nos pareceu uma grande propaganda enganosa. Ele foi anunciado como um mangá custando R$ 29,00, o que – apesar de o título ter menos de 50 páginas – era um valor bom, dado os preços de hoje em dia. Ocorre, porém, que esse valor era exclusivo do Catarse e mais exclusivo ainda para quem havia apoiado a campanha de O Dia da Cabeça Voadora. Pelos dados do site, que são públicos, apenas 93 pessoas tiveram acesso a esse preço.

Para todo o resto, inclusive para outros apoiadores do Catarse, o mangá custou R$ 39,00 (no Catarse, R$ 29,00 + 10 de Frete).

E, assim, R$ 39,00 pode não ser mais o preço de um mangá padrão, mas ainda é bem semelhante. Desse modo, não acho que tenha custado apenas “uns pila” não. Custaram foram muitos pilas, isso sim, e dizer que o mangá é acessível (coisa que deram a entender) é propaganda enganosa…


CONCLUSÃO


A edição física dos mangás está ok. Tendo em vista o preço (R$ 39,00 um mangá de menos de 50 páginas e R$ 79,90 um mangá de 144 páginas), ficou faltando um algo mais (orelhas e verniz localizado, por exemplo), mas ainda assim acho que está tudo bem.

A grande questão são as inúmeras imperfeições editoriais que os dois mangás apresentam em relação a texto. Não pareceu algo profissional ou, quando muito, pareceu algo feito às pressas, sem qualquer cuidado.

O Douglas Freitas é um bom comunicador, seus vídeos são alegres e passam um certo zelo da editora para com suas publicações. Entretanto, esse zelo precisa ser passado para as edições em si. Errar nome de autor, não deixar claro quem traduziu, além questões que poderiam ser resolvidas com uma revisão bem feita, não são coisas que podem ser relevadas. Isso mostra a cara da editora, mostra o jeito que ela vai ser conhecida pelo público.

***

Esses problemas textuais, inclusive, acendem um grande alerta em nós, fãs de mangás. Afinal vimos uma série de erros em obras que nem diálogos têm, o que faz a gente pensar sobre o que será dos títulos que tiverem texto de verdade, como o Hen Kai Pan e Ryuko.

A editora não passou confiança nessa sua primeira publicação de mangás e deixou em nossa visão um status de amadorismo. Para piorar, a empresa nem teve um quê de destaque positivo em suas escolhas de mangás, de maneira que muitos de nós não ficariam com vontade de confiar de novo.

Sim, pois, a gente vê problemas aqui e ali em outras editoras, mas elas tendem a ter aquele algo único. A Novo Verso, por exemplo, está trazendo obras antigas em domínio público que não existe nem na pirataria, então mesmo com os problemas dela, a gente ainda consegue dar o nosso apoio, pois queremos que ela cresça e mais obras desse estilo venham.

A Tábula, porém, trouxe obras de Shintaro Kago e Eldo Yoshimizu, que literamente qualquer outra empresa poderia trazer. Ela veio apenas com o mais do mesmo, não tendo nada que a diferencie de qualquer outra editora.

Evidentemente, queremos mais e mais empresas publicando mangás no Brasil e desejamos que a Tábula melhore em suas publicações futuras. Mas essas duas primeiras publicações foram um banho de água fria daqueles…


FICHA TÉCNICA – DIA DA CABEÇA VOADORA


Título Original: Day of the Flying Head
Título: Dia da Cabeça Voadora
Autor
: Shintaro Kago
Tradutor: Carlos Rutz; Gustavo Iracema
Editora: Tábula
Volumes na Itália: 1 (completo)
Volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15,5 x 22 cm
Miolo: Papel Pólen Bold 90g
Acabamento: Capa Cartão com Sobrecapa
Páginas: 144
Classificação indicativa: 16 anos
Preço: R$ 79,00
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Publicado originalmente em quatro edições, publicados em 2019, chega pela primeira vez no Brasil em uma versão integral. Trata-se de uns trabalhos mais perturbadores e autorais do artista, inspirado em uma história famosa na Tailândia e Indonésia, que o mangaka escutava quando criança no Japão. Aquele monstro perturbador, conhecido como “cabeça flutuante” sempre esteve em seu imaginário e, finalmente foi adaptado para os mangás. Trata-se de uma de suas mais recentes publicações. Com o roteiro linear mas ao mesmo tempo alucinante, é uma das obras mais instigantes, assustadoras e impactantes do artista. Um body horror assustadoramente impressionante!


FICHA TÉCNICA – SILÊNCIO


Título Original: Industrial Revolution and World War
Título: Silêncio 
Autor
: Shintaro Kago
Tradutor: Carlos Rutz; Gustavo Iracema
Editora: Tábula
Volumes na Itália: 1 (completo)
Volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15,5 x 22 cm
Miolo: Papel Pólen Bold 90g
Acabamento: Capa Cartão
Páginas: 48
Classificação indicativa: 16 anos
Preço: R$ 39,00
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Pela editora Hollow Press, o mangaká Shitaro Kago, mestre do gênero Ero-Guru (erótico e grotesco), lançou três mangas experimentais, todos no estilo wordless (histórias sem diálogos). Conhecido como trilogia silenciosa, são obras de terror e horror corporal, com sensualidade e suspense, onde o primeiro volume foi “Dia da Cabeça Voadora” e o terceiro volume é “Trato”. Em “Silêncio”, segundo volume da trilogia, a trama acompanha duas facções de pequenas criaturas alienígenas semelhantes a roedores. Elas entram em uma guerra brutal após escavarem, dissecarem e escravizarem seres humanos gigantes. Seus corpos são modificados e mutilados, passando a servir como peças de engenharia, armas biológicas e estruturas arquitetônicas para mover a nova civilização industrial das pequenas criaturas. Com texto de Brenda Bortolini, especialista em mangás, a obra é lançada pela editora Tábula pelo selo UN$PILA, onde grandes autores e obras são publicados por apenas alguns pila.