Desmistificando: Qual o problema de honoríficos e gírias nos mangás?

nii-san

Vícios que se perpetuam no Brasil…

Todo leitor  já se deparou na sua vida com palavras japonesas no meio dos mangás, sejam elas honoríficos, termos ou nomes. Todas elas fazem parte das gírias do universo otaku.

Essas são gírias específicas de um grupo, que só são entendidas por aqueles em contato com elas. Não é “normal” um brasileiro saber o que é “kareshi”. Logo, toda publicação que apresentar esse linguajar específico, por natureza, está restringindo o entendimento do público leigo.

Como assim “restringindo”? Para um leitor que vai ler um mangá pela primeira vez, ser bombardeado por uma porção de termos exige muito esforço, não só para gravar, como para entender. O leitor de primeira viagem precisa se relembrar diversas vezes o que é “senpai” ou “sempai” (como a Panini usa), pior, o cérebro dele vai imediatamente pensar “houve um erro ali, faltou espaço”. Quem leria uma frase como “O sempai saiu” pela primeira vez na vida e não pensa que o cara não tem pai, que faltou um espaço ou hífen ali?

No fundo, o leitor vai ter que se acostumar com um sentido de leitura diferente e um monte de gírias que vão contra a nossa lógica gramatical. Sim, porque não é natural para brasileiro nenhum colocar honoríficos. Nossos pronomes de tratamento vem na frente, não atrás.

Dessa forma, o uso, mesmo que mínimo, de qualquer gíria do universo otaku é um bloqueio inicial de entendimento. O que nunca é algo vantajoso, já que causa estranhamento e resistência.

O mesmo acontece quando as empresas enchem suas publicações de gírias específicas de São Paulo ou outra localidade, criando uma restrição ou dificuldade de entendimento para o resto do país (dessa vez sem glossário ou notas para ajudar). Ou quando certas empresas decidem usar a segunda pessoa do singular e plural que, convenhamos, praticamente ninguém usa ou nunca ouviu na vida.

Mas se esse tipo de coisa prejudica parte dos leitores e, pior ainda, atrapalha o entendimento dos novos leitores, por que as editoras usam?

No caso do regionalismo é completa e total falta de interesse ou respeito pelo público leitor do resto do país. São editoras que geralmente se focam e centralizam na capital paulista, então não é de se surpreender que traduzam dessa forma. A todos os outros leitores resta apenas aceitar que eles não são a prioridade.

Agora, os honoríficos e termos japoneses, além do uso da segunda pessoa já é outro motivo! A gramática japonesa funciona de uma forma diferente, existem “formas” de se falar, de forma simplificada:

Teineigo (丁寧語): A forma polida de se falar. Usado em situações bem formais, principalmente com estranhos.

Sonkeigo (尊敬語): A forma honorífica. Forma de elevar aquele com que se fala a uma posição superior. Uma forma respeitosa.

Kenjougo (謙譲語): A forma humilde. A forma mais humilde e simples, usado em situações informais.

As diferença entre elas são muitas, desde as terminações verbais, os termos e palavras utilizadas até expressões próprias. Por exemplo, japoneses entre amigos não usam “iee” (não) ou “hai” (sim), eles usarão “uun” (não) e “un” (sim). Responder usando os dois iniciais dá uma ideia mais formal, nos mangás seus personagens só usam eles falando com professores e pais, ou para dar uma força na resposta. Um militar, por exemplo, não diz “sim, senhor”, ele diz “sim” de forma polida, “hai”.

Como então passar essa forma de falar ao português? Algumas editoras acham que usar um troço quase extinto é a saída. Mesmo que, no Japão, a forma honorífica de se falar seja usada o tempo todo, qualquer lojista fala com você de forma respeitosa. Se algum lojista me recebesse falando na segunda pessoa do singular/plural eu saia correndo. Não é difícil de notar que os dois não se equivalem.

Uma parte importante dessa formalidade é a forma como você se refere às pessoas. E não é uma questão apenas ao uso de honoríficos, o você (tu) e o eu também!

Como você vai chamar a pessoa com a qual está falando?

Anata: Se você não conhece o nome ou é indeterminado.

Anta: Forma muito íntima de se chamar alguém. (Ou uma forma de um brasileiro xingar alguém sem ser notado, hehe.)

O nome dela: Forma casual e íntima.

O sobrenome dela: Forma informal.

O sobrenome dela seguido de san: Forma formal se falar com alguém.

O sobrenome dela seguido de sama: Forma respeitosa e honorífica.

O sobrenome dela seguido de sua posição: Forma respeitosa e/ou de reconhecimento de hierarquia, como o “sensei”, “senpai”.

Omae: Forma grossa de se chamar alguém. (Alguém bravo com você pode te chamar assim.)

Kisama: Forma rude, muito rude de se chamar alguém. (Alguém querendo quebrar a sua cara vai te chamar assim.)

Note que existe uma variação complexa, mas que nos mangás brasileiro só aparece um pedaço. Inclusive, “Omae” no Brasil pode ser traduzido como “Seu…!” e “Kisama” é traduzido com xingamentos (aqueles famosos “bastards” e “bastardos” nas traduções ilegais eram “Kisama”), são adaptados. Já as formas íntimas viram todos “você”.

Não é um pouco esquisito que, se a hierarquia e polidez são tão importantes, apenas um pedaço delas é repassado no português?

A coisa é ainda mais ignorada quando se entra nos “eu”:

O próprio nome: Uma forma feminina ou infantil de se falar de si mesma.

Atashi: Forma feminina e informal.

Watashi: Forma de ambos os sexos em situações informais ou levemente formais.

Watakushi: Forma formal, polida, para ambos os sexos.

Ore: Forma masculina casual.

Boku: Forma usada no discurso casual ou polido, principalmente para homens. Às vezes com um sentido de inferioridade ou humildade, como o “este servo” do Kenshin.

Tirando alguns personagens que falam na terceira pessoa nas traduções e o exemplo do Kenshin, todos os “eu” japoneses viram uma única coisa.

***

Se a forma de falar e hierarquia japonesa é tão importante que deveria ser incluída na versão brasileira, por que quase nada dessa forma aparece? Seriam os honoríficos tudo que basta para passar essa ideia?

A verdade é que não, nos originais japoneses basta uma frase para você identificar que tipo de relação aqueles dois têm, as nuances, os desconfortos causados pela forma de se falar. Alguém falar com você de forma íntima, sem que vocês sejam, é muito desrespeitoso. Isso não acaba passando para o português.

Os tradutores passam a adaptar e criar alternativas para passar esses desrespeitos e falta de bom-senso para todos os “eu” e uma porção dos “você”. E se já fazem isso com a maioria, por que foi que os honoríficos ficaram de fora?

No fundo, os honoríficos são uns resquícios das traduções de fãs que eram abarrotadas de termos japoneses desnecessários pelo simples fato de ser “estiloso” e diferente. Chegando a virar algo pretensioso, uma forma de ser diferente, de exibir seus “conhecimentos” da cultura japonesa, de tirar onda de japonês.

Os honoríficos também eram fáceis de ser reconhecidos nos animes, pois estavam atrelados aos nomes dos personagens. Reconhecer vários “eu” e “você” é muito difícil, mas o nome do personagem é muito fácil, notar que tem algo que vive aparecendo no final então… Se a gramática japonesa fosse um pouco diferente, poderíamos viver numa realidade onde nenhum mangá jamais tivesse honoríficos.

Então por que as editoras usam isso, oras?! Porque há um público que pede. Só isso. Não é porque é certo, não é porque é fiel, não é porque mostra um lado da cultura japonesa. É porque um público leigo acha que isso é legal, adota isso na vida dele e quer ver em tudo quanto é publicação.

Ou seja, são termos artificiais desnecessários que em nada contribuem para o entendimento da complexa hierarquia e formalidade japonesa. Resquício de uma vontade de se “japonizar” e fortificar a “cultura otaku”, que no fundo só acrescenta confusão e uma noção falsa da cultura japonesa. Ainda mais quando não há glossários e notas.

O irônico é que uma tradução e adaptação bem-feitas passariam muito melhor a relação entre os personagens que a inclusão desmotivada de termos artificiais. Afinal “este servo” ficou muito melhor do que se os tradutores tivessem deixado “boku” com uma nota “boku é uma forma de dizer ‘eu’ que denota inferioridade perante os outros e humildade ao se referir a si mesmo”. E ficou tão melhor que até hoje “este servo” é reconhecido por todos os fãs de Samurai X.


Desmistificando é uma coluna semanal, lançada nas quintas-feiras, sobre o mercado e mangás brasileiros e internacionais. Você pode ver todas as outras postagens anteriores desta coluna aqui. Sugestões e comentários também são sempre bem-vindos! 🙂


Existem muitos outros “eu” e “você”, além de complicações envolvendo a gramática japonesa. Aqui foi selecionado as partes de interesse de forma a simplificar e tornar inteligível para quem não conhece a língua. A realidade é muito mais complicada e com diversos outros usos.

34 Comments

  • rodrigogsn

    Eu costumava acessar o blog só para saber os lançamentos do mês/semana, mas esse post contém informações valiosíssimas, e o debate da Roses com os comentaristas deve ajudar a esclarecer muitos pontos para todos que se interessam pela parte mais técnica da indústria de mangá. Pena que faz tempo que já foi postado! To atrasado

    Eu nunca li ou vi o original de Yu Yu Hakusho, mas gostava muito da versão de anime dublada, pois os personagens (notavelmente o Yusuke, protagonista) falavam de uma maneira muito natural, como se o português fosse a língua deles. Era de certa forma irrelevante que os personagens morassem no Japão, eu me sentia familiarizado com eles pois eles falavam a “mesma língua” que nós.

    Além disso, eles abusavam de gírias e expressões brasileiras (ou que fazem sentido para brasileiros) em vários momentos. O Yusuke falou mais de uma vez em momentos de perplexidade, “Para o bonde que Isabel quer descer!” ou “Rapadura é doce mas não é mole não”. E a forma como ele se expressava mostrava certo regionalismo ou maneirismo. Parecia algo super humano. Me leva a crer que o original queria passar também esse sentimento de informalidade/familiaridade no personagem, mas com certeza não foram essas as expressões utilizadas na transmissão original, já que o contexto cultural é outro.

    Um exemplo de algo que já vi em mangás também: um personagem incomodado por não estar se fazendo entender pergunta para o outro “Você fala PORTUGUÊS, por acaso?!”. Ou um estudante que diz que vai se dar mal na prova de PORTUGUÊS. É um mangá ambientado no Japão, com personagens japoneses, mas o sentido não era falar da língua japonesa em si, era dar significado ao seu idioma nativo. Já vi isso em outras mídias também, em outras línguas.

    • Kurisu

      Bela tentava, fake do Del Greco. Ninguém aqui vai cair na sua.

  • Breno

    Não se preocupe, vc não foi nada arrogante, eu que deveria ter refletido melhor no post. Esse hábito de querer vencer as discussões pode ser muito bom, pq assim nós extraímos o máximo de conhecimento, nosso e da pessoa com que estamos conversando, assim elevando o nível da conversa. Sua argumentação e desenvoltura me impressionam, também é muito fácil de entender. Me senti um aluno do 8º ano conversando com um PhD XD.
    Vou acompanhar o blog bastante daqui pra frente. (;

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