Resenha – Fim de verão

fim-de-verao-resenhaVenha conhecer esse interessante mangá

A L&PM é uma editora gaúcha conhecida por possui a maior coleção de livros de bolso do Brasil. Nesta coleção há a presença de tudo o que você pode imaginar, peças de teatro da Grécia antiga, romances clássicos como os de Machado de Assis, livros de receitas, gramáticas, dicionários, livros de fábulas, poemas, contos e até mesmo quadrinhos.

Conheci a L&PM no início da faculdade de Letras e foi um alívio a descoberta dessa editora quando os únicos livros “econômicos” que eu conhecia eram os da horrível Martin Claret. A L&PM foi uma revolução, uma grande alternativa às capas cafonas da MC e, até hoje, ela é minha editora favorita de todos os seguimentos de publicações.

Em relação aos quadrinhos, a editora publica esporadicamente alguns da Turma da Mônica, do Snoopy, do Garfield, entre outros. E desde 2011, a empresa também passou a investir nos mangás, os famosos quadrinhos japoneses. Ela publicou Solanin (2 volumes), Aventuras de Menino (1 volume) e, agora, Fim de verão (1 volume), além de uma série de obras clássicas da literatura adaptadas a esse estilo oriental. Hoje, gostaríamos de falar aqui neste blog um pouco de Fim de Verão, uma das mais interessantes coletâneas que você terá a oportunidade de ler.


fim de verão

I

Fim de verão foi anunciado em meados de 2014 na página da editora na rede social Facebook, mas só foi publicado no final de 2015. O título é uma coletânea de sete histórias que o desenhista Mohiro Kitoh publicou em diversas revistas no Japão, entre 1987 e 2004.

Aos que não sabem, no Japão os mangás costumam ser primeiramente serializados capítulo por capítulo em revistas que funcionam como coletâneas de várias histórias de diversos autores diferentes e saem periodicamente – semanais, quinzenais, mensais, etc – e somente depois de atingirem uma certa quantidade de capítulos é que lançam um volume.

O caso de Fim de verão é um pouco diferente, pois ele não é uma história contínua e sim a reunião feita pelo autor de várias histórias curtas que ele foi publicando ao longo da carreira. É interessante ver um pouco da diversidade do autor e a evolução – ou não – de seu jeito narrativo e de sua maneira de desenhar.

Mohiro Kitoh é mais conhecido aqui no Brasil e também no Japão por causa do excepcional mangá Bokurano, um título extremamente dramático que aborda questões como vida, morte e a necessidade ou não necessidade de se lutar pela sobrevivência de outras pessoas. Bokurano chegou a ganhar uma adaptação em animê – desenho animado japonês – e passou no Brasil na televisão por assinatura.

Por esse histórico, nutríamos uma grande expectativa em torno de Fim de verão, pois uma obra do mesmo autor de Bokurano era algo que gostaríamos de apreciar, ler e ter em nossas estantes. Mas será que o mangá correspondeu a nossas expectativas?fim de verao

II

Sabíamos que haveria um grande desnível entre Bokurano e qualquer outra obra do autor. Entretanto esperávamos que Fim de verão mantivesse ao menos uma característica básica do autor: a dramaticidade e a reflexão sobre a vida. E é isso o que a maioria das histórias nos oferece, algumas de maneira mais fraca, outras de modo mais brilhante.

A primeira história, intitulada justamente “Fim de verão”, de 1987, é um pouco fraca em termos narrativas. Nela acompanhamos um rapaz que, um dia, recebe a visita da irmã, recém morta em um acidente, e que propõe a ele utilizar dos seus poderes de fantasma para que a garota de quem ele gosta se apaixonasse por ele. A narrativa não oferece um ponto dramático e interessante e a resolução do conflito (ele aceitar ou não a ajuda) acaba sendo fácil demais. O clima de despedida e amor fraternal, no entanto, é bem tocante e a história acabou nos agradando bastante.

A segunda história, “A garota do cruzamento”, de 1994, repete a temática de “Fim de verão”, ao falar de fantasmas e mortes por acidente. A história aqui é mais tocante por apresentar a relação entre um fantasma e uma moça desconhecida que misteriosamente consegue vê-lo. Porém é também um pouco angustiante desde o princípio e só não é uma narrativa pesada por causa dos momentos de humor com a moça trazendo comida e outras coisas que o fantasma não consegue tocar. No fim, apesar do clichê do “happy end”, a história acaba agradando.

A terceira história, por sua vez, já começa a despontar mais aquelas características que víamos em Bokurano. “Um buquê para a mansão de flores”, de 2000, trata do crescimento e das boas lembranças que temos do passado. Nela, acompanhamos dois amigos que não se viam há anos e resolvem cumprir uma promessa que haviam feito quando eram pequenos. A narrativa nos coloca uma surpresa e a resolução dessa surpresa é bem mais marcante do que podíamos supor… é a melhor das três primeiras histórias.

“Pureza Manchada”, de 2002, a quarta história, é um drama típico. Aqui verdadeiramente reconhecemos Mohiro Kitoh, com uma história arrebatadora em todos os sentidos. Inicialmente, a narrativa é extremamente clichê, apresentando um personagem tipo que vimos e revimos em inúmeras histórias, mas o desenvolvimento acaba chocando e nos fazendo pensar na atitude das pessoas, na passagem do tempo e nas oportunidades perdidas. É uma narrativa para ler, reler e se angustiar a cada leitura…

“A&R”, também de 2002, a quinta história, é a pior de toda a coletânea. Nela acompanhamos um rapaz que relembra a sua adolescência e uma garota muito estranha que ele conheceu. A narrativa é ruim, pois tenta forçar um drama e acaba sendo muito mal executado, soando mais clichê do que deveria ser…

“A canção do papai”, de 2003, é uma narrativa pra descontrair. Apesar de ser uma história para refletir sobre a passagem do tempo e as escolhas que fazemos em prol das pessoas que amamos, o enredo não oferece um ritmo dramático, é mais uma celebração da vida e das mudanças que nela ocorrem. De todo modo, trata-se de mais um conto muito agradável de ler.

Por fim, “O lugar do totó”, de 2004, é completamente o oposto de “A canção do papai” e nos apresenta um modo bem triste de vermos a vida e as mudanças que nela ocorrem com o passar do tempo. Trata-se de uma narrativa para você rir, se emocionar e se sentir arrasado logo em seguida. É uma história para realmente você ficar muito deprimido…fim de verao

III

“Fim de verão” e “A garota do cruzamento” foram histórias publicadas em antologias destinadas originalmente aos adolescentes japoneses, enquanto as demais histórias foram lançadas em revistas destinadas aos jovens adultos. Todas elas têm um objetivo de nos fazer refletir um pouco sobre o nosso passado recente, a infância e a adolescencia, bem como os caminhos a serem trilhados na vida adulta.

Fim de verão é um mangá que super recomendo, que vale muito a pena ler e ter na estante, porém infelizmente não é um mangá para todo mundo. É preciso estar preparado para narrativas paradas em que praticamente não acontece nada e, mais do que isso, é preciso um pouco mais de sintonia com o estilo narrativo do autor e com os temas (desanimadores, tristes, depressivos) que ele deseja abordar.

IV

Fim de verão foi publicado em papel offset (possivelmente 75g), formato pocket, com cerca de 200 páginas, e ao preço de R$ 19,90. O título pode ser encontrado em livrarias, geralmente no mesmo lugar em que estão os livros pocket da editora L&PM.

***

BIBLIOTECA BRASILEIRA DE MANGÁS

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3 comentários

  1. Caramba, meu!! Que bom que lançaram algo do Mohiro Kitoh por aqui. Vou atrás assim que der…

    Será possível que alguma editora publique Bokurano ou Narutaru?

    Curtido por 1 pessoa

  2. Adoro mangás com este estilo. Volto a repetir pela zilhonésima vez, o finalzinho de 2015 foi, e o ano de 2016 está sendo muito promissor em termos cinematográficos e em mangás, fiquei com muita vontade de ler este mangá, adoro personagens que vestem desse jeito. (Lembranças de CLANNAD e Sketchbook Full Color’s!)

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