Impressões – O Cão de Caça e Outras Histórias

capa“Não está morto o que pode eternamente jazer, e, após eras estranhas, até a morte pode morrer.”

 

O Cão de Caça e Outras Histórias (Maken, no original) é uma adaptação em mangá de pequenos contos de terror, originalmente escritos pelo renomado autor H.P Lovecraft. Esta adaptação ficou a cargo de Gou Tanabe, também conhecido por histórias do gênero, e foi lançada no Japão em 2014, em apenas um volume. No Brasil, a obra chegou no final de 2015 pela editora JBC, sendo lançada na Comic Con Experience. A pequena coletânea, da qual falaremos agora, adapta respectivamente as histórias: “O Templo”, “O Cão de Caça” e “A Cidade Sem Nome”.

o cão de caça e outras históriasIMPRESSÕES

Primeiro é necessário deixar claro o teor das histórias. H.P Lovecraft é conhecido por revolucionar o gênero do terror, incorporando fantasia e ficção científica em suas histórias. Por isso, é possível notar que muitas das vezes os contos são levados a um contexto histórico, sempre especificando o lugar em que se encontram e deixando ao leitor uma sensação de realidade contrastada com o fantástico. Aperfeiçoando com um pequeno exemplo: há, durante todo o mangá, pequenas citações sobre o Necronomicon, um livro real, considerado por muitos o livro dos mortos.

Há nos contos uma genuína criatividade, trazendo para o leitor sempre uma sensação de descoberta que é cativante pelos traços de Gou Tanabe. O desenhista e escritor conseguiu trazer uma nova profundidade às histórias. Com seu traço extremamente realista, mesclado a sucessivos e bem administrados quadros negros, ele consegue trazer ao leitor uma tensão e uma sensação de que “algo está para acontecer”, uma sensibilização que poucas histórias conseguiriam. A arte dele tem como principal marca a grande quantidade de sombras, o que, para uma obra de terror casa perfeitamente.


O Templo.jpg

O Templo, a primeira história, conta a história de um submarino alemão na Primeira Guerra Mundial e seus tripulantes, que encontram no convés um britânico em posse de um estranho símbolo, tal objeto acaba roubado por um militar de alta patente. Após esse acontecimento, os tripulantes enfrentam estranhas situações dentro do submarino.

Trata-se de uma narrativa fascinante, talvez a melhor entre as três. É importante notar o clima que abrange toda a história, do início ao seu fim: é um clima de tensão, claustrofóbico, que traz ao leitor aquele implacável sentimento de conflito.

Depois de encontrarem o medalhão, vários são os problemas que acontecem dentro do submarino. Homens passam a ver o britânico morto e, por isso, são incapazes de concluir seus serviços, sendo considerados insanos.

Pelo conto já acontecer num submarino é possível imaginar o quanto apreensivo pode ficar o leitor, preso por aquele cenário coberto de uma atmosfera intensa de morte. De tudo isso, só é possível tirar duas certezas: a de que foi o melhor lugar possível para contar aquela história e na melhor época possível – uma era em guerra.

O ponto fraco da história é que a partir de um determinado momento, o desenvolvimento do conto parece estagnar. Sem novos acontecimentos, dilui-se um pouco o terror.

Como curiosidade é possível frisar o quanto essa história brinca com uma lenda muito conhecida, entrando naquele contexto já citado de que o autor menciona muitos elementos autênticos e preserva um clima realista.


Cão de Caça

O Cão de Caça acompanha a história de dois rapazes que têm como hobby profanar túmulos. Certo dia, uma viagem a um túmulo antigo torna o estranho hobby muito mais perigoso do que imaginavam. Ao roubarem um artefato de um cadáver, curiosos acontecimentos aterrorizam os dois, como se um cão muito enfurecido estivesse nas sombras.

Este é, de todos os contos presentes no tomo, aquele mais voltado ao ocultismo e aos mortos, até mesmo devido à sua trama central. Os dois protagonistas têm como hábito profanar túmulos, isto é, roubá-los e eles acreditam num conceito de que a realidade por si só já não é mais o bastante; se tornou frívola, e que apenas o sobrenatural (neste caso, os mortos) conseguiam trazer a eles uma razão para suas vidas. De fato, um conceito exagerado, mas que dentro da trama acaba fazendo sentido pela profundidade na narração do protagonista. Os traços de Gou Tanabe seguem firmes na história, com muitas sombras e ranhuras, o que é parte do segredo para tornar o conto mais assustador.

A ambientação é um ponto que não se destaca, ela é modificada muitas vezes para torná-la uma característica central da obra, mas ao contrário de “O Templo”, seu desenvolvimento é muito bem conduzido. Não há momentos de estagnação, há sempre uma atmosfera que torna o leitor extremamente suscetível aos acontecimentos.

Dentre toda a coleção de contos, esse, sem dúvida é o que se destaca no terror, no sobrenatural. É talvez o que vá passar mais medo ao leitor, tudo pela conjunção dos elementos na obra.


Cidade

Por fim, A Cidade Sem Nome conta a história de um aventureiro que viaja em busca de uma cidade proibida. Uma vez encontrando a cidade, ele se depara com uma particular brisa que congela suas espinhas e aterroriza seu coração. O homem identifica uma gruta, origem da pequena brisa, e, destemido, adentra buscando respostas.

O conto procura uma profundidade histórica muito mais do que os anteriores. Na realidade, ele não parece ser um conto de terror, e sim de suspense. O desenvolvimento da história é configurado de forma que uma peça se encaixe de cada vez, sempre deixando uma ponta solta para o próximo encaixe. Não é, de forma alguma, uma série que transmita medo, mas sim uma apreensão e até mesmo curiosidade.

A ambientação da obra é excelente. A cidade em ruínas só pode ser vista no breu da noite, o que dificulta um pouco o reconhecimento das construções, porém realmente o estopim da história só se dá com a gruta que o protagonista decide investigar, passando um sentimento de insegurança enorme. Ao passar as páginas você percebe o fascínio do protagonista e fica na expectativa de onde aquela gruta o levará, admirando cada vez mais os desenhos espetaculares que são mostrados lá dentro.

A EDIÇÃO DA JBC

A edição nacional teve o formato 14 x 21 cm e contou com capa fosca, verniz localizado, orelhas e miolo em papel offset. O preço foi um pouco mais salgado que o normal: R$ 21,90.

A revisão do texto está boa, houve apenas um único erro que pude reparar na página 151, onde transformaram a palavra “enterrados” em “encerrados”. No mais, não pude perceber outros deslizes como esse.

O acabamento da edição ficou ótimo, e os mimos do tomo o tornou atrativo, seja para o público alvo (amantes de Lovecraft ou de histórias de terror), seja para o público leigo. Pode-se dizer que o acabamento lembrou muito o de um livro comum, até mesmo pelas orelhas internas que são praticamente uma regra nesse segmento. Já o papel, alvo de temor nesse momento, está com uma boa gramatura, agradável para a leitura.

VEREDITO

No geral, as histórias são um tanto quanto envolventes e cada uma possui seu diferencial, como mostramos na postagem. Como terror decepcionou um pouco, mas as histórias cativaram no suspense. As obras não conseguiram chegar no leitor com seu gênero principal, mas, de certo, ele ficará interessado e apreensivo.

A edição nacional está com certeza mais cara que o comum e apesar da qualidade de acabamento estar muito boa, ela não justifica o preço elevado. Mesmo assim, por ser volume único, se as histórias te interessaram não pense duas vezes em adquirir o título.

***

Para aqueles que querem conhecer um pouco melhor o trabalho de H.P Lovecraft, um livro com seus melhores contos está disponível para compra na Livraria Cultura.

BBM

5 Comments

  • Lottermann

    Uma pequena correção: o Necronomicon citado na obra se refere a uma obra fictícia criada no universo das obras de Lovecraft, que possui magia negra e relatos sobre outros seres, a qual também possui a lenda de deixar o leitor maluco ou roubar-lhe a alma, por mais que o nome traduzido sugira, não é um livro sobre os mortos, não no universo do Lovecraft pelo menos…
    Sobre a edição, realmente ficou bonita, mas muito cara se comparado a por exemplo a edição de Vagabond da Panini que possui basicamente a mesma qualidade(e orelhas e etc), mas não me arrependo da compra, gosto do terror/horror das obras do Lovecraft.

    • binho

      A questão sugerida no texto é a referência ao livro e não a relação entre a original e o fictício. Mas não sabia da relação com outros livros de HP, obrigado pelo comentário. 🙂

  • João

    Fazia tempo que não lia algo com um traço impressionantemente caprichado e com uma história ótima. Nunca tinha lido nada de H P Lovecraft, não sabia o que estava perdendo. Irei comprar livros para conhecer mais sobre o autor.
    Obs: Ótima matéria, Binho.

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