Desmistificando: Lugar de mangá não é nas bancas!

SDC10440Ainda estamos presos ao passado…

Quando se lançou os primeiros mangás no Brasil, 15 anos atrás, as empresas decidiram vender seus produtos em volumes finos e com preços bem mais baratos nas bancas de jornais. A ideia era que os leitores de outros quadrinhos infantojuvenis como super-heróis (Marvel/DC) e Turma da Mônica comprassem. Era o público que assistia aos desenhos animados, por isso eram todos quadrinhos dos desenhos: Sakura Card Captors, Dragon Ball, Pokémon, Gundam Wing, Digimon, Medabots.

Mas a coisa muda, hoje em dia a grandíssima maioria dos títulos nunca tiveram seus desenhos no Brasil de forma legal ou na TV aberta. Sem contar que a faixa etária do consumidor saiu dos 12-16 anos e partiu para os 18-25. Então… Por que diabos os mangás ainda são primariamente vendidos nas bancas?

(Texto originalmente lançado em março de 2016, quando praticamente todos os mangás eram vendidos exclusivamente em bancas. Levemente atualizado em 2017.)


Porque não vender mangás nas bancas


I. Pouco espaço para muito título e más condições

Já passou da época que bancas normais suportavam o volume de títulos que temos todos os meses sendo lançados. Na prática a maioria das bancas recebe quantidades relativamente pequenas, que ficam todas empilhadas uma atrás das outras, nos cantos mais macabros possíveis e sempre os mais baixos, claro, sem nenhuma lógica de organização e a céu aberto recebendo umidade, poluição e muita poeira. Que tipo de empresa quer que seu produto seja exposto dessa forma, sem a menor visibilidade? Que tipo de leitor quer um produto assim e acha isso tudo confortável?

Mangás não são “revistinhas em quadrinhos”, são livros. Lugar de livros é em livraria ou lojas especializadas, onde são devidamente organizados, onde se há espaço para expor todos eles e ainda espaço para manter os volumes por mais tempo.

Imagina o absurdo que seria ir comprar Tim-tim, Asterix, 300 ou Sandman na banquinha da esquina? Porque você acha normal para os mangás?

Essas más condições também causam muita perda, muito amassado, muito volume com rasgo, embalagem estragada. Embora várias dessas perdas aconteçam também durante o envio e transporte da distribuidora.

II. Não têm estoques de volumes antigos

Você vai na banca e por acaso vê um título que te interessou, só que ele está no volume 10, como você vai conseguir comprar o resto dos volumes? A maioria dos novos leitores não tem a menor ideia. Pior, a maioria dos leitores mais velhos também não. A resposta é sempre “vai na internet”.

A verdade é que qualquer outro quadrinho ou livro, basta ir numa livraria e ver se há para vender. Se eles não têm, faz-se um pedido e eles trazem. Agora nas bancas… A maioria dos jornaleiros não consegue te dar respostas ou não está interessada, mas no fundo não há nada que possa fazer.

Como você utiliza uma plataforma de vendas que não possibilita a venda de números antigos? Isso faz todo o sentido apenas para jornais, palavras cruzadas, revistas. Quem vai querer comprar os jornais dos últimos 12 meses na banca?!

III. Distribuição encarece e muito o produto final

Sim, pois o Brasil é um país de dimensões continentais, o quinto maior do mundo! Quanto você acha que custa mandar caminhões cheios de produtos de um lado a outro, sair espalhando em milhares de bancas e depois recolher tudo isso? Resposta: Caríssimo.

Pensa no gasto de gasolina e diesel… As coisas não vão direto para a banca, após sair da editora, os pacotes vão para uma das sedes da empresa que distribui os mangás em banca, que então os separa e envia para diversos centros de distribuição, que enviam para outros menores até chegar na sua região, onde uma van ou caminhão passa pela cidade toda de banca em banca distribuindo. É muita coisa!

E quem paga por isso tudo? Você! Mesmo comprando em lojas especializadas, livrarias e internet, você ainda está pagando o pato por todos os mangás que vão às bancas.

Há também outro inconveniente. Se você quer lançar nas bancas você fica na mão da distribuidora Dinap que, segundo fontes diversas, chega a mais de 50% do valor de capa, cinquenta porcento. Agora, com bancas e lojas especializadas a coisa é outra, existe apenas a porcentagem do vendedor e um custo muito mais baixo de envio do material por transportadoras, diretamente ao ponto de venda.

Ou seja, seu mangá poderia ser bem mais barato e isso poderia viabilizar mais várias obras de nicho, como a editora NewPOP faz com várias, como os Tezukas. E a JBC tem feito também com seus BIGs.

Talvez alguém aqui possa questionar: “Mas BIGs e Tezukas não são mais baratos!”. Na verdade são, não estamos fazendo a comparação entre séries diferentes, mas entre o preço daquela série na banca e o preço se apenas na livraria. O motivo desses serem mais caros que outras obras está mais relacionado ao número mais reduzido de consumidores do produto e o fato de serem diferenciados em tamanho.

Vale lembrar que o preço de um mangá é determinado por diversos fatores, como tiragem, formato e distribuição. É a soma deles que define o preço. A distribuição em bancas será sempre mais cara do que a em livrarias, dado o mesmo formato, tiragem, etc. Da mesma forma, quanto menor o formato (menos páginas, menor dimensão, menor gramatura) e maior a tiragem, mais barato é o produto final.

BIGs podem ter preço alto nas livrarias, mas seria ainda mais alto nas bancas. Veja que Drug-On (mangá lançado exclusivamente em livrarias) tem um preço baixo (R$ 14,00), mas seria mais alto nas bancas. Leia mais sobre essa dinâmica de custos aqui.

IV. Tiragens grandes para viabilizar a publicação

Como é bem caro distribuir em bancas, as editoras precisam fazer tiragens maiores para viabilizar a publicação. Em outras palavras, para valer a pena ser lançada a obra tem que vender muito mais do que se fosse lançado apenas em livraria para dar o mesmo lucro.

Isso não só vira um perigo de cancelamento e de prejuízo das obras que não atinjam esse número mínimo, como inviabiliza os nichos de menor público. Para você ter uma ideia, vários livros lançados no Brasil têm tiragens de 1~3 mil, número esse que é impensável em bancas, mas lucrativos em livrarias.

Não é à toa que a JBC lançou Éden e Blade para livrarias, isso permite tiragens menores, ou seja, um público limitado, sem impedir a editora de lucrar, ou ainda, dando a mesma margem de lucro que a série de tiragem muito maior das bancas.

Outro ponto é os volumes extras que são publicados apenas para fazer volume nas bancas. Isso acontece com todas as publicações, o Estadão, por exemplo, sempre envia muita mais edições do que são compradas, a ideia é não haver esgotamento, é que qualquer um possa conseguir comprar em qualquer hora do dia. Até porque, se houver tal esgotamento, uma redistribuição sai muito cara e às vezes é bem difícil de conseguir reestoque com a distribuidora.

Ter vários volumes também serve de propaganda, destacam aquele título, fazendo-o ficar mais visíveis em meio a todos os outros. Mas ainda assim, representam um custo a mais que nas livrarias não se faz necessário.

V. As editoras não têm controle sobre a distribuição

Uma vez que a editora entrega seus produtos para a Dinap (única distribuidora que leva os produtos a todo território nacional), acabou o controle da empresa sobre o que vai acontecer. Quem recebe, quando recebe, onde recebe fica na mão da Dinap. A editora tem é claro, que pagar por tipos diferentes de “pacotes de serviço” que regem o que a Dinap devia fazer, mas fora isso a editora não sabe quais cidades não estão recebendo, que bancas estão, que cidades foram puladas, etc.

Por isso mesmo acontece aqueles velhos “erros de distribuição”, cidades que não recebem, volumes pulados, retirada antes da hora, recolhimentos quase que instantâneos, sumiço de pacotes que aparecem depois de anos em algum estoque, caixas que voltam lacradas e intocadas… As histórias que os gerentes contam nos eventos são muitas!

Não adianta nada você ir reclamar na editora que a banca x não está recebendo os mangás. Ela não tem controle algum. O pior, como a Dinap tem monopólio na distribuição nacional, não existem opções, ou você trabalha com ela ou não tem lançamento em banca. Não preciso nem comentar que monopólio significa que o serviço nunca melhora, a falta de competição faz a empresa cair em vícios e falhas que seus consumidores não têm outra escolha a não ser aceitar. (Tipo a competência dos Correios, sabe?)

Por outro lado, quando é ela quem distribui seus produtos para livrarias e lojas ela sabe exatamente para quem está enviando, o quanto, onde vende mais, onde fazer algo promocional, etc. Isso viabiliza também reimpressões!

VI. Distribuição nacional e não setorizada

O único motivo para a “distribuição setorizada”, ou “em fases”, existir é tentar tornar mais viável e barato essa loucura chamada distribuição às bancas. Essa distribuição só se aplica às bancas.

Para as livrarias e lojas especializadas os pedidos chegam ao mesmo tempo no Brasil todo através de transportadoras e para pedir mais basta um mísero telefonema para a editora que mais mangás são enviados.

Acaba essa palhaçada de focar em São Paulo e deixar o resto do Brasil na espera (às vezes de mais de um ano, sério). O que não só é benéfico por si só, permite o desenvolvimento do mercado das outras localidades órfãs como o nordeste e o sul que possuem enorme quantidade de leitores ignorados e menosprezados, deixados com os restos estragados de São Paulo (sem exagero, os mangás às vezes chegam super maltratados).

Recentemente temos tido uma onda de extinção dessa setorização e mudança de distribuição (que segundo fontes tem a mão da Dinap ali), mas ainda temos a Panini, por exemplo, trabalhando em fases.

VII. Pré-venda e assinatura

Como fazer pré-venda nas bancas? As livrarias e lojas especializadas recebem com maior antecedência a lista do que as editoras lançarão e já começam a vender em pré-venda os títulos. Você recebe o material assim que for lançado e recebido pela loja.

Nos Estados Unidos, por exemplo, você tem pré-vendas com meses de antecedência. É possível comprar toda uma coleção e simplesmente se desligar totalmente dessa chatice de ter que ficar conferindo lançamentos. Sente em casa que a Amazon vai te mandando. A Amazon do Brasil é ainda nova e despreparada, mas ela já criou até um portal de quadrinhos e já possui algumas de suas facilidades. Quem sabe com o aumento de vendas eles fiquem igual a Amazon.jp e a Amazon.com?

Assinatura das editoras vira algo desnecessário, afinal são um tipo de pré-venda. No Brasil mesmo, a Universo Lúmina faz exatamente isso, ela deixa você comprar séries inteiras de uma vez e vai te enviando conforme é lançado. Quer maior conforto?

Isso tudo torna o sistema de assinaturas mais viáveis. Caso não saiba, é bem caro fazer assinaturas pois dependem dos Correios (que é uma facada), mas empresas grandes como Amazon, Saraiva e outras não dependem dos Correios, mas de transportadoras próprias. Quem está mais apto a fazer assinaturas e pré-vendas em conta são elas e não a sua editora. Fora que toda essa “venda” direta acaba resultando em mão-de-0bra extra e custos extras para a editora que agora virou uma lojinha.

VIII. Limitações quanto ao acabamento e promoções

Fato: muitas bancas ainda não aceitam outros métodos de pagamento que não seja dinheiro. Fato: as que aceitam não trabalham com pagamento a prazo ou dividem.

Então como posso lançar mangás mais caros de melhor acabamento? Qual a possibilidade de uma pessoa dar um “rolé”, se interessar e tiver trinta reais por volumes dando sopa para pagar na hora?  E se não dá para parcelar e você só pode comprar no próximo mês, você descobre que no próximo mês não tem mais…

O acabamento também fica comprometido por causa das más condições. Lançar com sobrecapa? Só para estragar tudo na mão da distribuidora e banca? Ou a velha desculpa de lançar capas espelhadas por causa dos jornaleiros que expõe do lado errado.

Sem contar que por causa da má condição alguma editoras colocam uma capa plástica para proteger, o que impede o simples ato de folhear o produto, você tem que comprar cego.

As desvantagens continuam com as impossibilidades de trazer certos tipos de brindes ou fazer certas ações promocionais. A NewPOP, por exemplo, costuma enviar vários marcadores de papel (que são feitos com as sobras do papel cartonado da capa) para as livrarias e lojas especializadas. Como fazer algo assim em bancas?

Como poderia a editora fazer cartazes e pôsteres para divulgação nos pontos de venda? Onde o jornaleiro ia conseguir prender essas coisas? Como mandar isso ao jornaleiro?

IX. Feedback limitado

Vendendo para lojas e livrarias, ainda mais as de pequeno-médio porte, você tem acesso direto aos donos e vendedores que por sua vez tem acesso direto aos clientes. Tem algum problema em todos aqueles mangás? O dono da livraria avisa a editora na hora e pergunta como proceder. Já o jornaleiro só pode olhar para sua cara sem saber o que fazer.

Sem contar que em casos de esgotamento a editora descobre imediatamente pois começa a receber vários pedidos, dando-lhe chance de fazer reimpressão antes do esgotamento total. No caso da distribuidora, como os jornaleiros não têm como avisar e poucos tentam fazer mais pedidos, a editora demora um tempo para ser avisada que vendeu tudo. Às vezes só será avisada quando, no ato do recolhimento, perceberem que não tem o que recolher.

É curioso, por exemplo, quando uma editora alega esgotamento, mas a banca ali da esquina tem o dito cujo. Na verdade, como é tudo descentralizado, o que ocorre é que aquilo esgotou na editora e na distribuidora, não nos pontos de venda. Vira esgotamento por não ter como atender os pedidos por mais volumes.

X. Falta de serviço diferenciado

Se faz necessário uma troca de certo produto ou você gostaria de encomendar certos volumes? O lojista faz isso e já repassa para a editora. No caso de bancas, o jornaleiro só troca por outro que tiver ali ou dá o dinheiro da volta, não pode fazer encomendas, não sabe informar nada e jamais falou com a editora (nem sabe qual é a editora).

Muitas lojas e livrarias pequenas não só encomendam para você, como te avisam por redes sociais e aplicativos. Alguns fazem lista de interesse e reservam, você pode ir tranquilo sabendo que o seu volume tá lá reservado te esperando. Eles negociam, seguram, ajudam, sabem tirar dúvidas, sabem coisas sobre a séries, sabem dar sugestões.

Livrarias e lojas têm serviço diferenciado que é impossível nas bancas e tudo isso por um preço menor para todo mundo! Vale a pena comentar que livrarias maiores já começam a ser muito setorizadas e esse feedback se perde, mas ainda é possível fazer trocas e encomendas facilmente.


Como seria o ideal?


i. O que devia ser feito

Na prática, quase todos os mangás deveriam sair das bancas e ir para as livrarias e lojas especializadas. Por que “quase”? Porque existem títulos que poderiam e deveriam continuar indo também às bancas e ir conquistando leitores. Coisas como Naruto podiam estar nas bancas. Mangás voltado ao público infantil têm que estar do lado da Turma da Mônica. Mas o que é que os mangás adultos estão fazendo na banca?!

As lojas e livrarias já têm um grande trunfo nas mangas, elas podem dar descontos que banca não pode. E as editoras deviam estimular esses pontos com atos promocionais com extras para apenas vendas em lojas e livrarias, ou recebimento antecipado. A NewPOP e LP&M fazem isso, aliás, o Japão faz isso.

Isso de certa forma vem acontecendo, todas as editoras têm lançados coisas “só nas livrarias” aqui e ali. Mais recentemente a NewPOP decidiu passar a maioria de seus títulos para as livrarias e abandonar as bancas.

ii. O que podemos esperar do futuro se isso der certo?

Várias coisas muito interessantes:

Aumento de qualidade. Parte 1. A editora não vai precisar lançar volume transparentes ou de papel de má qualidade para continuar tornando viável seus lançamentos naquela faixa de preço.

Aumento da qualidade. Parte 2. Sem o perigo dos maus-tratos e envios de um lado a outro, além das formas de pagamento e parcelamento, as editoras podem passar a investir em edições mais luxuosas e mimos.

Criação de comunidades. Se todo mundo passa a ir nas mesmas lojinhas comprar os mangás fica mais fácil encontrar pessoas que tem o seu mesmo interesse. Alguém para dar sugestões e discutir as histórias. Vira um ponto de encontro, logo também um ponto fácil de trocas, de descobrir aulas e atividades direcionadas a esse grupo.

Aumento de visibilidade. Agora com mangás organizados por tipo, nomes, estilos, etc, fica muito mais fácil de se descobrir novas séries, de conhecer outras publicações. Dá até gosto de olhar estantes e prateleiras organizadas cheias de novas oportunidades.

Aumento de nichos. Diminuição de custos, maior visibilidade, criação de pontos especializados, tudo isso permite que mais nichos sejam trazidos. Veja você que é bem mais barato colocar 2 volumes daquele yuri na caixa de 100 outros volumes para cada loja do que pagar uma distribuição só para ele!

Possibilidade de eventos. Se existe um ponto de venda forte e centralizado na sua cidade, fica fácil fazer eventos! Tem um mangaká no Brasil? A editora sabe para onde levar eles! Dá para fazer seção de autógrafos com os artistas brasileiros. Dá para fazer eventos de lançamentos, promoções e palestras diferentes. Coisas que já acontecem desde tempos na Comix em São Paulo, por exemplo.

iii. Motivos para esperança

Anos atrás achar uma loja especializada era impossível, mesmo a grande São Paulo tinha apenas uma grande: a Comix. Hoje em dia, não só há várias onlines e físicas na capital paulista como apareceu várias em outros estados. Isso mostra uma crescente demanda por esse tipo de serviço e que há público consumidor para criá-las!

As próprias editoras têm lançado coisas específicas para esse tipo de loja, como LP&M, JBC e NewPOP. Esta última já lança mangás voltados apenas para livrarias e diz “dar muito certo” e, no NewPOP Day, afirmou que a NewPOP anda tendo enorme demanda de lojas, “todo mundo quer trabalhar com os nossos produtos”, afinal eles estão forçando os leitores a sair de sua zona de conforto e os leitores estão, sim, indo atrás. Recentemente até informou que a maioria dos lançamentos agora nem irão às bancas.

Dá, sim, para mudar radicalmente esta situação. Dá, sim, para ter uma loja ou livraria com mangás na sua cidade (assumindo que você não more no fim do mundo).

iv. Os excluídos

É claro que sair das bancas representa um problema para cidades e localidades sem livrarias ou lojas, mas da mesma forma, há cidades sem bancas também. Mesmo cidades que possuem bancas de revistas não atendem a todos. Não raras vezes, uma pessoa que mora na periferia precisa pegar ônibus para ir ao centro da cidade, pois nem no seu bairro nem nos bairros ao redor há bancas de revista. O leitor então tem que ir atrás online e arcar com suas escolhas residenciais. Não é culpa de editora alguma que sua cidade consuma tão pouco livro que nem uma livraria tem.

Outros problemas com a mudança são as localidades onde os Correios não chegam, especialmente no Rio de Janeiro por causa da constante violência e roubos dos entregadores. Mais uma vez, a culpa não é da editora e cabe ao leitor arcar novamente com a sua escolha residencial, é um problema social dessa comunidade e que não pode restringir a decisão para todo o país. Algumas opções são 1. utilizar-se de Sedex (que entrega com escolta armada), 2. utilizar empresas que trabalham com transportadoras, 3. reservar e fazer pedidos nas lojas e livrarias distantes e mensalmente buscar seus produtos.

As editoras não podem fazer escolhas pensando nas minorias, se o local onde você vive tem difícil acesso aos produtos, cabe a você aceitar sua condição e buscar soluções e opções. Ficar bravo com a editora porque não há livrarias na sua região é como culpar as produtoras de filme por não haver cinema na sua região. Editoras são empresas regidas pelo lucro, não há “direitos iguais” ou até “direitos de consumo”, se sua região é problemática, ela será deixada de lado, assim como no passado distantes mangás não eram vendidos em várias regiões fora do sudeste.

***

O fato é que claramente cada vez mais as editoras, de todos os seguimentos, têm deixado as bancas, e esse é um passo natural, como podemos ver em todos os outros mercados de mangás. E isso é extremamente benéfico, pode ser a razão da editora finalmente trazer aquele mangá que você tanto quer. Não adianta fazer chilique e lutar contra. Se adapte, use sua criatividade.

O irônico é que esse pessoal que é contra e insiste em receber em bancas é igualmente contra os reajustes e aumentos de preços. Pois fique sabendo que por causa do aumento do combustível e da mudança/aumentos de imposto a Dinap também sofre reajustes periódicos que pesam bastante nas publicações. Fora que como é muito mais caro, a diminuição de tiragem igualmente causa aumentos grandes. Se quer comprar nas bancas, não vale abrir a boca para reclamar de aumentos.


Post Scriptum


Coincidências são coisas muito curiosas, quando comecei a escrever este texto em janeiro deste ano, jamais imaginaria as mudanças que estavam para acontecer como a abolição da setorização pela JBC e a mudança de distribuição da NewPOP.

Fora de ordem e contexto, talvez minha coluna comece a parecer como uma coluna de apoio às editoras, o que é algo que jamais imaginei fazer. Adiei e alterei o post tantas vezes, com medo de que a minha “visão” do mercado fosse confundida com uma defesa às decisões editorias, finalmente decidi por lançar e encarar seja qual for a reação dos leitores.

Eu particularmente prefiro interpretar de que estou no “caminho certo” e de que aquilo que defendo em posts como este aqui está “correto” ou pelo menos é perfeitamente lógico. Longe de não cometer nenhum erro ou de saber de tudo, fico pessoalmente satisfeita de ver o que defendo e acredito ganhar vida.

Obrigada como sempre pela atenção dedicada e me perdoe por este seguimento offtopic. ^^


Post Scriptum 2


Março de 2017, faz mais de um ano que escrevi este artigo. Atualmente a realidade mudou absurdamente, várias séries sendo exclusivamente lançadas em lojas, várias dessas com acabamento diferenciado (como o Kanzenban de CDZ), exatamente como havia sido defendido aqui.

A mudança entretanto continua polêmica, mas é inegável o público de pessoas que agora compram quase que exclusivamente de livrarias e lojas, especialmente da Saraiva e Amazon que apresentam descontos e fretes muito acessíveis.

Contudo, ainda é cedo para “cantar vitória”, a maior editora de mangás do país, a Panini, continua sem trabalhar com lojas e livrarias diretamente, com várias obras sem ISBN (que por isso não podem ser comercializados fora das bancas). Também é incerto se a mudança vem apenas como resposta à crise ou a caráter permanente. Resta esperar e ver que caminhos o mercado tomará! 🙂


Desmistificando é uma coluna semanal, lançada nas quintas-feiras, sobre o mercado e mangás brasileiros e internacionais. Você pode ver todas as outras postagens anteriores desta coluna aqui. Sugestões e comentários também são sempre bem-vindos! 🙂

39 Comments

  • Felipe

    Muito bom o artigo! Apesar de concordar com o que está escrito, devo confessar que não tenho problemas com relação à integridade física dos mangás vendidos em bancas. Pelo menos, não no meu caso, em que a dona da banca aqui perto de casa é extremamente cuidadosa e deixa a banca sempre limpa e organizada. Os mangás que eventualmente aparecem por lá com amassados, rasgados, essas coisas, aparecem por culpa da transportadora. Mas acredito que esse meu caso seja uma exceção, e não a regra, pois, pelo que vejo pelas bancas por aí, é tudo zoado mesmo, sem cuidado, etc.

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