Crítica: Orange é tudo o que dizem?

orangeOu como um capítulo pode acabar com um mangá

A primeira página, do primeiro capítulo, do primeiro volume do mangá Orange, de Ichigo Takano, diz o seguinte: “Aos meus dezesseis anos, na primavera… eu recebi uma carta. Como essa carta chegou a mim? Por que foi enviada? O nome do remetente era…”.

ATENÇÃO: ESTE TEXTO CONTÉM TODOS OS SPOILERS DO MUNDO: LEIA POR CONTA E RISCO

A carta era endereçada a Naho Takamiya, protagonista da história, e foi enviada por… Naho Takamiya, mas dez anos no futuro. Ela foi enviada porque a Naho do futuro queria que seu “eu” do passado tentasse evitar os arrependimentos que ela teve, especialmente o de não ter evitado a morte de Kakeru, um rapaz por quem ela se apaixonou e que acabou cometendo suicídio devido a uma grave depressão provocada, entre outros motivos, pela morte de sua mãe.

Quase todas as questões colocadas nessa primeira página do mangá já são resolvidas logo no primeiro número e apenas uma pergunta fica suspensa: como a carta chegou à Naho? Trata-se de uma pergunta importante, mas dentro do contexto do mangá ela não tem tanta relevância (ou não teria se a autora não quisesse). O mangá de Ichigo Takano é, antes de tudo, uma história de romance e de drama que mistura um elemento de ficção científica, mas não se foca necessariamente nele. A obra possui dois planos temporais distintos, o “presente” em que acompanhamos a garota Naho Takamiya tentando salvar Kakeru de sua depressão, e o “futuro”, com Naho e os amigos se reunindo e relembrando o passado, descobrindo que Kakeru se matou.

O foco do mangá é realmente mais no tempo presente e toda a história é feita em torno de Naho e seus amigos tentando salvar a vida de Kakeru. E a salvação não tem tanta relação com a carta enviada do futuro. É óbvio que sem a carta, Naho não perceberia os dilemas que afligiam Kakeru, porém por mais que a carta dê indicações de como agir, a garota é muito insegura e tem dificuldade de cumprir os desejos de sua “eu” do futuro. Um exemplo claro ocorre na virada de ano, quando mesmo informada de que eles acabariam brigando, ela não consegue rever a situação e termina por brigar com Kakeru tal qual sua outra “eu”. Nesse sentido, a busca pela salvação do rapaz passa muito mais pelo desenvolvimento de Naho e da amizade de seus amigos do que pela carta em si. Ela  – a carta – é apenas um acessório da história, que faz a narrativa existir, mas que não tem tanto poder de influência.

A verdade é que Orange é uma história de romance escolar, mas que tem pontos que a destacam e que a colocam em um patamar superior a várias obras do gênero, como a questão da depressão de um dos personagens, bem como a divisão narrativa em dois tempos, isso sem contar on enxerto de clima de ficção científica.

Orange é uma obra que emociona e que faz muito bem o seu propósito de ser uma obra dramática. Ele faz despertar sentimentos e tristezas ocasionando o choro em muitos dos leitores. Porém o mangá está longe de ser perfeito, tem muitos defeitos aqui e ali, muitas inconsistências, mas existe apenas uma passagem que realmente fez a obra perder o brilho, o capítulo 20, ante-penúltimo da série, em que ocorre a desastrosa explicação do modo como a carta chegou ao passado.

orange_05O capítulo 20

Enfatizando: embora utilize um elemento de ficção científica, Orange não é um mangá de ficção científica. Seu foco é no romance escolar de Naho por Kakeru e a tentativa de evitar que o garoto cometesse suicídio. Por não ser de ficção científica, não havia uma necessidade de explicar como as cartas foram enviadas para o passado, porém a autora sentiu necessidade de explicar isso e falhou miseravelmente.

Logo no segundo volume tivemos uma explicação sobre viagem no tempo e mundos paralelos, e não chega a ser algo ruim naquele momento. Ao fazer isso, Ichigo Takano nos dá a base da história e nos fala de que qualquer alteração feita por Naho no presente não impactaria a vida da Naho do futuro (que mandou a carta). Em outras palavras, a autora retira a possibilidade do paradoxo temporal e, ainda por cima, utiliza isso para dar andamento na história. Sem contar que essa explicação serviria de base para que os personagens do futuro decidissem mudar o passado.

O problema real acontece justamente aí, no capítulo 20, presente no quinto volume do mangá. Esse capítulo é um desastre e mostra um completo despreparo da autora em criar uma solução. O capítulo 19 havia sido espetacular, pois mostrou de forma mais dramática possível como Kakeru se sentia e o que aconteceu para que ele decidisse se suicidar. Até aí Orange era um mangá senão perfeito, bastante consistente narrativamente falando. Mas o capítulo 20 destruiu essa consistência e fez Orange tornar-se um mangá mediano como vários outros que vemos por aí.

A “solução” dada pela autora para as cartas terem ido ao passado soa irreal e sem sentido dentro do contexto do mangá. Está certo que a obra fala da amizade (ou mais amplamente do “poder da amizade” à lá shonen jump), mas isso não significa que deva existir um deus-ex-machina que tira uma solução do nada para vencer o inimigo. No caso, o modo como a carta foi enviada ao passado é ridículo. Não possui uma preparação prévia e nem nada que justifique a solução de os personagens irem até um oceano e enviarem cartas desejando muito que elas cheguem ao passado.

Qualquer coisa faria mais sentido do que isso. A explicação soou como uma fantasia mirabolante de uma autora inexperiente. Se a história terminasse com os amigos do futuro decidindo mandar uma carta ao passado, sem dar qualquer explicação, seria muito mais digno e mais consistente narrativamente. O mangá não é de ficção científica, porém ele também não é um mangá de fantasia em que uma coisa possa acontecer “do nada”, pelo simples desejo das pessoas.

A verdade é que essa questão não precisava ser explicada. Durante todo o mangá, praticamente não houve qualquer questionamento sobre como a carta chegou ao passado, mostrando que essa questão não era pertinente no mangá, afinal o que importava era  salvar Kakeru. E se não era pertinente, a autora não tinha motivo de colocar uma explicação.

Qual o resultado disso? O resultado é que Orange deixou de ser um mangá redondinho e se tornou uma obra completamente mediana, por causa de apenas um capítulo. Não adianta fazer bem o que se compromete, se o mangá possui falhas grosseiras desse nível. É fácil relevar algumas inconsistências narrativas. Não dá, por exemplo, para acreditar que a autora já tinha planejado que os amigos de Naho também tivessem recebido uma carta do futuro, mas a autora fez uma explicação boa ali e mesmo que alguns pontos pareçam forçados dá para relevar sem problemas. Mas essa solução para as cartas terem ido ao passado… isso não dá. Foge completamente da verossimilhança do mangá. E um mangá que deixa de ter verossimilhança é um mangá mal construído e sem credibilidade.

O mediano não vale a pena?

Depois do capítulo 20, Orange possui mais dois capítulos e tenta terminar de forma digna. Dentro do espectro dramático, o mangá consegue se sair muito bem, mas narrativamente ele termina bem apático e aquém de todas as expectativas. Não que o final seja ruim, mas toda a “explicação” do capítulo 20 ainda ressoa e faz a historia perder grande parte do mérito que tinha.

Isso não quer dizer, entretanto, que ele não valha a leitura. O fato de ele ter esse problema narrativo não o desqualifica de seu propósito principal. O que quisemos demonstrar aqui é que a obra possui defeitos e um deles em especial é muito grave, um defeito de verossimilhança. As pessoas tendem a passar panos quentes nos problemas visíveis das obras que gostam, mas quando as narrativas possuem problemas eles devem ser apontados.

Orange é uma de minhas indicações para quem gosta de shoujos (ou seinens^^) de romance de escolar por suas temáticas um tanto quanto diferentes daquelas em que estamos acostumados, mas isso não quer dizer que consideramos a obra perfeita e nem que não possamos falar mal dela.

Orange tem muitas outras coisas a se debater, como o fato de os protagonistas serem todos “bonzinhos demais”, a abnegação desmedida do Suwa de abrir mão do amor da Naho e várias outras situações, mas se fôssemos discutir isso mais a fundo teríamos mais linhas e mais linhas para escrever…

***

No fim, Orange é um bom mangá de entretenimento e que faz muito bem o seu papel de emocionar, como dissemos antes. Mas para uma obra que colocava assuntos sérios como depressão e suicídio, o título acabou se tornando um mangá bem infanto-juvenil, devido a escolhas erradas da autora…

É um título que vale a pena ler sim, mas só se você não liga para esses defeitos de verossimilhança. Se você deseja uma obra dramática um pouco mais consistente leia Ano hana ou 5 cm por segundo e não precisará mandar cartas de arrependimento para o passado…

BBM

23 Comments

  • Achei curioso a indicação de ler Ano Hana, porque comprei o primeiro volume e não tive vontade de comprar os outros! hahaha Justamente o que me incomodou é que senti a narrativa muito forçada – eu conseguia identificar claramente os momentos em que o autor (autora? autores? Não lembro) queria que a gente chorasse, e isso me incomodou muito justamente porque a animação teve um feeling muito natural pra mim. Tudo que me emocionou no anime veio de uma emoção de verdade, não de momentos que eu sentia que estavam jogados lá de propósito pra arrancar umas lágrimas, sabe? Não sei se melhora nos outros volumes, mas em vários momentos me incomodou no primeiro…

    Quanto a Orange em si, eu acho que abstraí da explicação, porque li recentemente o volume 6 e quando eles falam de levar as cartas pro mar eu fiquei “ué, tinha isso?”. No volume 6 não achei ridículo, não, talvez seja falso mesmo, mas foi tão rápido que nem liguei. Agora um capítulo tudo nisso… Acho que tenho que ler Orange de novo. De qualquer forma, tenho muito carinho pela série por conviver com uma pessoa que teve depressão pesada, e vendo o que o Kakeru pensa me sinto mais próximo dela. Inclusive dei pra essa pessoa ler e ele gostou muito, achou verdadeira a descrição do personagem. Talvez por isso eu tenha passado por cima desse detalhe da explicação ruinzinha pras cartas voltarem.

    Agora, uma coisa que achei engraçada, no volume 6 eles falam de escrever na carta pra pedir pro correio só entregar no ano tal, e eu fiquei pensando “ih, se essas cartas foram para no Brasil não vão respeitar esse pedido de jeito nenhum” hahaha Isso se as cartas fossem entregues…

    Acho que falei muito… Enfim, parabéns pelo site, gosto muito das matérias de vocês! ❤

  • Então, terminei Orange há pouco tempo e comecei a procurar na internet resenhas e críticas sobre o mangá/anime. Acabei caindo aqui de paraquedas, pois não conhecia o blog. Bem bacana, aliás.

    Enfim, eu tive uma visão diferente do que realmente aconteceu. Li alguns comentários e muita gente falando sobre ser impossível as cartas voltarem no tempo e essas coisas. E eu concordo, é claro. Mas eu acho que essa era a ideia da autora. Sabe aquele momento que você está desesperado e ideias mirabolantes começam a surgir na sua cabeça para escapar daquilo? A ideia de mandar uma carta para você mesmo de dez anos atrás está carregada com um arrependimento monstruoso.

    Na minha humilde opinião, aqueles adultos estavam imaginando como a vida seria se tivessem salvo Kakeru. Tipo, não quer dizer que a carta realmente voltou no tempo, mas era algo que todos queriam fazer acontecer. Daí vem aquelas explicações sem noção no momento de desespero. Tudo ficou claro quando eles tiveram essa ideia após lerem as cartas de dez anos antes (Aquelas de como seriam os próximos dez anos).

    Se não ficou tão claro, o que eu quero dizer é que o Kakeru está morto e aquela “reunião” de amigos só estava relembrando os bons momentos e imaginando como seriam as coisas se eles tivessem impedido o suicídio do jovem depressivo.

    P.S: Vi que alguém falou sobre no último capítulo ter a foto do Suwa segurando uma criança no colo. Mesmo a obra focando na amizade, essa foto reforça um pouco o que eu penso. Se o Kakeru estivesse vivo, acho meio improvável que ele não ficasse com a Naho. Ele estar ali na última página, não quer dizer que ele realmente está ali. Acho que era um desejo do grupo que ele estivesse participando daquilo.

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