Resenha: O homem que passeia

O grande lançamento da Devir…

Fora JBC, NewPOP e Panini, que publicam títulos regularmente, editoras de mangás vem e vão em nosso país. Alguma surge, lança uma coisa e outra e depois some. Ou publica muito irregularmente. Alto Astral, L&PM, Abril e Nova Sampa são só alguns exemplos disso. A grande novidade de 2017 foi a editora Devir e, neste momento, o que mais se espera é que ela não seja mais uma dessas que vem e vão e, pelo contrário, se torne uma das maiores, para concorrer de igual para igual com as três grandes.

Publicando mangás em Portugal desde 2012, a Devir iniciou-se em nosso mercado agora em 2017 com O homem que passeia, de Jiro Taniguchi, um mangá muito diferente do que qualquer coisa publicada por qualquer editora em nosso país. Não é a primeira vez que a gente diz isso acerca de uma obra, mas O homem que passeia consegue ser diferente até mesmo dos títulos diferentes.

Jiro Taniguchi é um dos mestres do mangá, sendo reconhecido e reverenciado em diversos países do mundo. Considerado por muitos como o “mais europeus dos quadrinistas japoneses”, Taniguchi conseguiu, por meio de suas obras, transpassar a barreira do nicho otaku e se tornar apreciado por todos os que gostam dos quadrinhos como arte. Sua fama era tão grande que, por ocasião de sua morte, todos os veículos de imprensa tradicionais noticiaram a perda, inclusive brasileiros como o G1 e o Estadão.

Não é de surpreender, portanto, que a Devir tenha trazido uma obra do autor. O homem que passeia é capaz de despertar o interesse do público tradicional de mangás sedento por algo diferente, além de dialogar fortemente com os consumidores de quadrinhos europeus, sendo, portanto, uma das escolhas mais acertadas da editora.

Mas como é esse mangá? O que o diferencia tanto? Ele é bom ou ruim? Vejamos em detalhes essa obra^^:


Sinopse


Nestas páginas com um estilo introspectivo e intimista, Jiro Taniguchi dá-nos a conhecer O homem que passeia, através das suas deambulações, frequentemente mudas e solitárias, através da cidade onde reside. Uma história que se distancia dos estereótipos habituais do mangá, onde se sucedem pequenas histórias sem diálogo, encontros ocasionais, o prazer da contemplação e de andar sem destino.


História e desenvolvimento


O homem que passeia possui um título que explica muito bem o que é o mangá^^. Ele mostra um homem passeando, apreciando a sua cidade e vizinhança. E é só isso. Ele não possui uma trama por trás. Não há lutas, não há mocinhos, nem vilões, não há casais, não há nada. E, superficialmente falando, é exatamente por esse motivo que agrada os fãs e fez o mangá ficar famoso em vários países do mundo.

O que acontece com O homem que passeia e outras obras do autor é que ele nos diverte e nos entretém de uma outra maneira, fazendo-nos parar para apreciar os pequenos detalhes e os diversos ambientes e situações corriqueiras. A obra é feita para nos permitir respirar e contemplar o mundo à nossa volta do jeito que ele deve ser contemplado, olhando para as minucias e para o banal. Em um mundo corrido como o nosso – em que temos que nos levantar cedo para ir ao trabalho ou faculdade e, do mesmo modo, voltar correndo para termos tempo para outras atividades – a obra nos mostra uma visão contrária ao estresse cotidiano. Não à toa, a quantidade de diálogo é quase nula.

Uma das mais emblemáticas imagens do mangá. O protagonista senta-se no galho da árvore e aprecia o momento após ter ido resgatar um brinquedo das crianças da rua.

O protagonista é apenas um homem normal, um trabalhador, com esposa e cachorro, e que busca aproveitar a vida nos menores detalhes, seja realizando uma caminhada aleatória, seja nadando sozinho à noite. O homem que passeia é um culto à tranquilidade, à paz e a não necessidade de se estressar. Por que não descer um ponto antes e ir caminhando? Por que não pegar um ônibus errado para ir apreciando mais a paisagem? Por que não parar um momento para uma diversão caseira infantil como brincar com aviõezinhos de papel? Essas e outras questões suscitam em nossa mente enquanto lemos a obra.

Não somente isso, a obra nos mostra que mesmo os contratempos podem ser revertidos para uma situação de prazer. Em um certo capítulo, por exemplo, o protagonista perde a chave e acaba passando a noite na rua, sendo recompensado com uma belíssima visão do amanhecer…

Por não ter “uma história”, O homem que passeia deve ser apreciado com calma, olhando com minúcia os desenhos do autor e sentindo tudo o que a arte passa. Sim, pois, esse mangá é a arte em sua essência e você precisa estar preparado para ver a beleza das páginas e conseguir apreciar a mensagem que ela passa. Essa obra, sem dúvida, é um entretenimento e uma diversão única e que vale a pena conferir…

-Extras

O final do mangá ainda nos presenteias com alguns extras de histórias mais tradicionais, como uma “viagem no tempo” (?) e uma história de romance, mas ainda com a marca intimista taniguchiana. Destoa demais do restante do volume, mas ainda assim é agradável de ler^^.


A edição nacional


-Edição física

O homem que passeia veio no formato 17 x 24 cm, sobrecapa e miolo em papel Murken Print Cream 1.5 em gramatura 80g, sendo impresso na Espanha. O preço da edição é R$ 55,00. Abaixo, algumas imagens da edição, clique para ampliar.

A edição está muito boa fisicamente falando. Uma das melhores de nosso mercado. Apesar do tamanho do mangá (ele é mais ou menos do tamanho de The Ghost In The Shell) é possível folhear o título de forma bem confortável, não existindo qualquer problema de encadernação. O papel do miolo ajuda nisso, pois ele é bem leve, parecido com o Lux Cream da JBC.

Em termos de aspecto e textura não lembro de ter visto qualquer mangá ou livro brasileiro com um papel parecido, extremamente branco, mas sem a reflexão de luz dos offset, sendo ótimo para a leitura, além de destacar bem os desenhos de Taniguchi.

O Murken Print Cream é uma marca de papel offwhite que ainda não havia entrado em nosso mercado de mangás e, em minha opinião, é a melhor marca que tem, superando o Lux Cream com folgas.  Não há dúvida de que a edição da Devir vale cada centavo investido.

-Adaptação

Uma dúvida que vi de algumas pessoas era sobre o sentido de leitura do mangá. Por ser uma editora nova e que publica quadrinhos de modo geral, algumas pessoas tinham medo de que o quadrinho fosse espelhado. Porém isso não aconteceu. A empresa manteve o sentido de leitura original^^.

De modo geral, a adaptação foi boa (houve poucos termos japoneses desnecessários), embora tenha pecado em alguns momentos com o grande número de notas de rodapé, que poderiam ter sido evitadas, por exemplo, adaptando o nome de algumas comidas que não precisavam ter sido mantidas no original.

Um detalhe que é importante mencionar sobre a edição da Devir, é que todas as onomatopeias foram ocidentalizadas. Vejam um exemplo abaixo:

Isso não chega a ser um demérito, em minha opinião, visto que o público alvo da obra tende a ser não somente quem consome mangás com frequência, mas sim quem gosta de quadrinhos de forma geral. Além disso, não ter as onomatopeias originais termina por deixar os quadros mais “limpos”, permitindo que a apreciação dos desenhos seja melhor.

Apesar dessa ocidentalização das onomatopeias, as placas e outras inscrições, porém, foram em sua maioria mantidas no original. Quando alguma era importante de alguma forma, a empresa colocou uma nota no final da página, do mesmo modo que a JBC costuma fazer em seus mangás. Vejam abaixo:

Entretanto, em alguns momentos, considerados mais importantes ainda, a empresa localizou todas as inscrições japonesas para nossa língua. Vejamos abaixo:

De modo geral, eu jamais ligaria para essas inconsistências (já que se trata de uma característica comuns em todas as editoras de mangás no Brasil), mas a partir do momento em que você vê onomatopeias ocidentalizadas seria de se esperar que absolutamente tudo fosse localizado para a língua portuguesa. Isso evitaria, por exemplo, diversas notas de rodapé que a obra teve.

Mas isso é só um detalhe e não chega a ser um “erro”. Outro detalhe nesse sentido, fica para uma romanização esquisita. Em vez de romanizar uma palavra para “Lámen”, mais comum no Brasil, a empresa colocou “Ramen”, mais comum em países como a Argentina.

Em termos de revisão de texto, a editora foi quase perfeita. Em toda a obra só consegui localizar um único erro de revisão, um “do demais” em vez de “dos demais”:

É claro que ideal seria não ter nenhum erro, ainda mais em uma obra com pouco texto como essa, mas ninguém morrerá por isso^^.

Em suma, no conjunto o trabalho da Devir nesse mangá é bastante competente e não deve em nada ao das principais editoras, sendo melhor em alguns pontos (papel, acabamento), e igual em outros (revisão, falta de padrão com as inscrições japonesas, etc).


Veredicto


Não é possível negar que O homem que passeia não é um mangá para todo mundo. Por sua estrutura mais contemplativa, sem romance ou ação típica dos mangás mais convencionais, ele é um título que vai encher de tédio quem ainda não consegue se divertir com obras que não sigam o convencionalismo padrão da maioria dos mangás.

Ainda assim, devido à sua qualidade, o título vale muito a pena e é uma indicação indispensável para qualquer pessoa que goste de quadrinhos de modo geral. O mangá entretém de uma forma diferente e é uma boa pedida para quem deseja algo fora do usual.


Ficha Técnica


Título: O homem que passeia

Autor: Jiro Taniguchi

Editora: Devir

Miolo: Papel Murken Print Cream 1.5 80g

Número de volumes: 1

Preço: R$ 55,00

Onde comprar: Amazon 

Curta nossa página no Facebook

 Nos siga no Twitter

BBM

9 Comments

  • Guilherme

    Esse papel é tão bom assim mesmo?vi as imagens e ele me pareceu um pouco transparente e parecido com jornal…

    • Ele é tão parecido com o jornal quanto o offset também o é^^. Ou seja, as imagens não são tão nítidas e não dá ver a qualidade do papel por elas. Apenas em mãos você perceberá a qualidade dele.

      Quanto à questão da transparência, você só perceberá se for muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito (Repetir “muito” 44 vezes) chato. Rsrsrs. A não ser que o mangá só tenha tons escuros não existe obra que não tenha ao menos um pouco de transparência.

  • É a Devir tbm que vai trazer Mahoutsukai no Yome certo? Espero uma qualidade excelente, pelo que parece a Devir não ta aqui pra brincar.

  • Urashima

    Eu não achei o trabalho da Devir tão bom. Era um titulo relativamente fácil de fazer mas ainda assim deixaram passar algumas coisas, como placas e nomes que optaram por não traduzir. Gostei de terem traduzido as onomatopeias. Posso estar enganado, mas o papel é muito parecido com o que a Abril está utilizando nos encadernados da Disney. Não foi um trabalho ruim, apenas que podia ser melhor.
    Off topic: Agora se tem algo que não compreendo e até me irrita é essa de julgarem a qualidade de um titulo ou de uma editora pelo papel utilizado. É bem comum sitarem a qualidade da NewPop como exemplo a ser seguido. Eu penso que a qualidade de qualquer livro/gibi ou de uma editora deve ser analisada primeiramente pelo trabalho editorial e só depois o trabalho gráfico (não vou entrar no mérito artístico de cada obra). Pra mim a NewPop é uma das piores editoras de quadrinho do Brasil. É inadmissível que profissionais da edição errem tanto, com tanta frequência e por tanto tempo. O papel não atrapalha a leitura de uma obra, mas erros grotesco de português, falhas de revisão e más escolhas na adaptação de um texto comprometem o entendimento da obra. Se qualquer profissional, de qualquer área, entregar um relatório para seus diretores com os erros da NewPop, certeza que se houver uma segunda vez, ele estará na rua. Assim como a DarkSide, aclamada pela “qualidade”, deu umas escorregadas em Fragmentos do Horror. Nenhum erro de português, mas decisões editoriais que poderiam ser melhores, aí talvez pelo fato de ainda não terem familiaridade com mangás. Enfim, me alonguei demais. Obrigado.

    • Concordo muito quanto ao trabalho da Devir não ter sido TÃO bom. Mas por ser o primeiro mangá lançado pela editora em terras tupiniquins, até dá pra relevar algumas coisas. O que mais me incomodou, mesmo, foi a substituição das onomatopeias – pode fazer sentido por quererem algo mais “acessível”, só que é chato perder parte da arte original, visto que toda onomatopeia tem um ~contexto quando desenhada.

      O triste é saber que muita obra aclamada pode não receber uma edição brasileira com metade da qualidade d’O homem que passeia.

Comments are closed.

%d blogueiros gostam disto: