Resenha: Re: Zero – Livro 1: brincando com um gênero já batido…

Começando uma vida em outro mundo…

Existem algumas características que me agradam muito em uma obra, que me fazem olhar uma certa produção artística com melhores olhos e, consequentemente, me fazem apreciar um título que provavelmente eu passaria longe por não ser um tipo de produto que usualmente eu consumiria. Uma dessas características é o uso de diversos clichês de uma forma diferente, seja brincando com eles, seja os deturpando. O que me chamou a atenção em Re: Zero e fez com que eu conhecesse a obra por meio de sua adaptação áudio-visual foi justamente o jogo que a obra faz com um certo gênero muito famoso…

A animação de 2016 mostrou uma história que se utiliza do já batido gênero isekai (aquele que os personagens vão parar em outros mundo à lá Guerreiras Mágicas de Rayearth e El Hazard), mas brinca com ele, apresentando um protagonista que conhece todos os clichês e nos fazendo ver um personagem sendo totalmente surpreendido ao olhar os lugares comuns desse gênero não se manifestando na frente dele. Aliado a isso, o também já batido elemento do loop temporal incrementa a obra de forma senão única, ao menos inusitada, transformando Re: Zero em uma narrativa para lá de agradável e interessante de se acompanhar.

O animê fez tanto sucesso que a editora NewPOP recebeu uma enxurrada de pedidos pela série de light novels que deu origem ao desenho animado e para a surpresa de este que vos escreve, a light novel foi anunciada pela editora em abril de 2017 e começou a sair no início de outubro do mesmo ano.

Obviamente, por ter gostado da animação, adquirimos a obra^^. Mas a popularidade do título e o sucesso do animê se converte em uma boa obra original? A light novel é tudo o que as pessoas esperavam? Daremos nossa opinião agora.


Comentários iniciais


Antes de falar especificamente da história é preciso entender o que é uma light novel para começo de conversa. Muita gente não sabe o que é light novel e acaba comprando ou  mesmo pedindo elas para as editoras sem saber o que são de fato. Já vi algumas pessoas que nunca pegaram em uma light novel achando que se tratava de um “mangá com mais páginas” ou uma espécie de livro em que todas as páginas possuem ilustrações. Obviamente tais pensamentos são equivocados.

Não existe uma definição muito clara do que é light novel, mas a gente pode resumir da seguinte forma: light novel é um livro com meia dúzia de desenhos. Sim, é apenas isso. Trata-se de um livro como qualquer outro. Não há história em quadrinhos. Desenhos também são raros, ocorrendo apenas uma vez ou outra.

Ilustração ocasional em Re: Zero

De forma mais específica, Light Novels são livros de bolso voltados para jovens com uma leitura mais leve. Em japonês a escrita utiliza poucos kanjis, alguns com furigana (uma pequena legenda de como se lê aquele caractere que fica ao lado dela, em fonte menor) e frases simples e curtas. A propaganda japonesa é que você pode lê-los onde quiser, quando quiser, uma leitura causal e descompromissada. Você pode conferir um pouco mais sobre isso, clicando aqui.

Então, Re: Zero nada mais é do que um livro para jovens e foi esse livro que deu origem ao animê de sucesso e que agora chegou ao Brasil. Então se você deseja adquirir essa obra saiba logo que se trata de um livro^^. Dito isto, vejamos um pouco sobre como é a história desse primeiro volume de Re: Zero.


Sinopse oficial


Subaru Natsuki, um adolescente do ensino médio, é invocado de repente para um outro mundo enquanto voltava de uma loja de conveniência. Essa seria a tão famosa invocação a um outro mundo?! No entanto, ele não encontrou a pessoa que o invocou, foi atacado por ladrões e correu risco de vida. Quem o salvou foi uma misteriosa e bela garota de cabelos prateados acompanhada de um espírito de um gato. Com o pretexto de retribuir o favor, Subaru ajuda a garota a procurar um objeto que perdeu. Contudo, quando finalmente eles encontram uma pista do que procuram, os dois são atacados por alguém e acabam morrendo… ao menos, era o que Subaru achava, até perceber que estava de volta ao mesmo lugar onde havia sido invocado pela primeira vez nesse mundo.


História e desenvolvimento


Como pode ser visto pela sinopse, a história de Re: Zero começa do jeito básico com o protagonista subitamente indo parar em um outro mundo. Esse é um estratagema bem conhecido, utilizado desde mangás mais antigos como Guerreiras Mágicas de Rayearth e El Hazard até obras atuais como Hataraku Maou-Sama, geralmente com uma luz mandando os personagens para uma realidade alternativa.

Embora o início seja básico, porém, Re: Zero brinca demais com os clichês desse tipo de história, possuindo um protagonista autoconsciente desses diversos lugares comuns e desejoso de ver acontecer com ele o mesmo que já viu em diversas franquias que ele acompanha. Sendo um otaku de carteirinha, ele achou que foi invocado a esse outro mundo para uma grande missão e logo ele quer testar os seus poderes… que ele não tem^^.

Sim, muitas vezes é isso o que acontece nesse livro. A história acaba indo na decisão contrária aos clichês costumeiramente utilizados. Não há uma luz que manda Subaru a um outro mundo e ele também não ganha qualquer habilidade especial que deveria se esperar em uma história dessas. Ele não é forte, ele não tem superpoderes, ele é uma pessoa inútil, tal qual era no seu mundo. Em outras palavras, ele não mudou nada. Ele só está em outro lugar.

É lógico que vários clichês continuam lá. Subaru ser quase um hikikomori (pessoas que buscam se isolar dentro de casa) é um deles. A presença de um cavaleiro superpoderoso para salvar o dia ou a quase imortalidade de uma certa inimiga são exemplos claros de que a obra embora brinque com os clichês, ela ainda os utiliza a seu favor de forma consciente, preenchendo a obra e dando o equilíbrio que ela precisa para se manter atrativa a todos os públicos, tanto os desejos dos lugares comuns, quanto àqueles que querem um algo a mais.

A autoconsciência de Subaru é, talvez, o que mais faz de Re: Zero ser uma obra divertida. Ele conhecer os lugares comuns do gênero e vê-los sendo desfeitos na sua frente faz a gente achar graça da situação inusitada de um protagonista que deveria ser o “maioral”, mas que na verdade era só mais um inútil e até mesmo burro. Subaru, inclusive, demora a processar o seu poder de voltar da morte, achando inicialmente tudo confuso sem perceber que ele realmente havia morrido e retornado.

Ainda assim, embora seja realmente um inútil, Subaru é de grande importância para a história, permitindo que diversos personagens, que teoricamente acabariam mortos pelas mãos de uma caçadora de recompensas, pudessem sobreviver. Ainda que a maioria das ações de luta não tenha tido envolvimento dele, a simples perseverança do rapaz de querer salvar aquelas pessoas foi o suficiente para que a roda da fortuna girasse ao seu favor e pessoas mais fortes aparecessem para combater o mal.

De modo geral, o desenvolvimento desse primeiro volume é muito bom, mostrando uma narrativa que te prende inicialmente pela brincadeira com as quebras de clichês e, em seguida, nos empolga pelas reviravoltas até chegar no desfecho final. É claro que tem muitos lugares comuns na obra – e não poderia deixar de ter – com, por exemplo, aquele velho esquema das narrativas de um salvador chegar no último momento, mas a priori não desmerece em nada a história. Aliás, a própria obra brinca com esse clichê também, ao apresentar situações em que deveria haver um salvador, mas esse suposto salvador acaba indo embora^^.

As nuances também são bastante perspicazes. Enquanto na maioria das obras em que pessoas vão a outro mundo elas falam o mesmo idioma e não tem dificuldade alguma de comunicação, Re: Zero preza por um mínimo de verossimilhança. Se Subaru consegue falar com as pessoas, ele porém não consegue ler o idioma local. Frutas também têm nomes diferentes, etc. É claro que isso não adiantaria de nada se a obra não fosse bem escrita e articulada, mas Re: Zero consegue se sair muito bem, apresentando uma leitura realmente agradável e interessante.

A narrativa também flui muito bem, fazendo com que você devore páginas e mais páginas num piscar de olhos. Sem dúvida, o rótulo de light novel cai muito bem a Re: Zero, pois é uma leitura leve e que não cansa^^.

-Outros personagens

O primeiro volume da light novel foi adaptado nos quatro primeiros episódios do animê (ou três, se você considerar o 1A e o 1B como um só), então neles temos a presença de Emília (a meio-elfa), Pack (o espírito em forma de gato que protege Emília), Felt (a ladra gananciosa de quatorze anos, mas que guarda um segredo que nem ela mesmo conhece), o velho Rom (dono de um estabelecimento que vende objetos roubados e que considera Felt como uma neta), Kadomon (o comerciante que aparece em frente a Subaru assim que ele aparece neste novo mundo), Reinhard (o cavaleiro entre os cavaleiros, que aparece para salvar o dia) e, claro, Elsa (a “caçadora de recompensas” e que é a vilã desse primeiro volume).

Se você assistiu ao animê, de modo geral você não verá muitas diferenças entre os personalidades apresentadas na adaptação e as do livro original. A maior diferença fica para Emília, apresentada no livro com um pouco mais de reservas quanto à sua natureza bondosa. Isto é, no livro ela busca esconder de forma mais enfática os seus verdadeiros sentimentos de ajuda ao próximo, ao menos aos olhos de Subaru…


A edição nacional


A edição nacional veio no formato pocket 10,6 x 14,8 cm, com miolo em papel Avena e algumas páginas coloridas em couchê. A capa ainda possui orelhas. De modo geral, eu gosto desse formato pequeninho, porém há um pequeno demérito físico da edição que precisa ser mencionado. Por ter muitas páginas, se você abrir demais a lombada pode ficar marcada e isso pode desagradar quem preza pela estética de seus livros.

Marca na lombada por ter aberto demais o livro…

Em termos de texto, o livro está bem adaptado e praticamente em momento algum você percebe que se trata de uma tradução. Agora falando de revisão há algumas frases meio truncadas, um ou outro erro de concordância e vírgula mal colocada. Já aqueles erros de troca de letras ou falta de espaço entre uma palavra e outros foram mínimos. De modo geral, eu considero que a revisão está boa para os padrões NewPOP. Se todas as novels da editora saíssem como Re: Zero acho que quase ninguém reclamaria de problemas de revisão. Ainda assim precisa melhorar, até que consigamos chegar ao ponto de não ver nenhum erro…


Veredicto


O Brasil não é um país de leitores e todos os anos surge alguma pesquisa comprovando esse cenário caótico para a cultura nacional. Regra geral, as pessoas mais letradas sempre debatem o tema e buscam teorias sobre o porquê de o brasileiro ler tão pouco. Alguns falam que a escola não desperta o prazer de ler com suas obrigatoriedades de leitura, enquanto outros apenas dizem que livros são caros ou criticam o governo. As teorias não se limitam a isso e há até mesmo estudos acadêmicos buscando desvendar esse mistério.

Não quero entrar no mérito dessa discussão, mas pelo que vejo muitas vezes as pessoas se afastam dos livros pela linguagem difícil ou pela enrolação das histórias que elas consideram enfadonhas. Daí que dificilmente elas irão atrás de uma obra que tenha uma linguagem mais acessível e elas existem.

Re: Zero pode ser um quebrador de paradigmas, nesse sentido. Sua linguagem é fácil, os diálogos existem à exaustão e a narrativa empolga muito, sem qualquer enrolação. Se você não deu uma chance a light novels ainda por serem livros ou conhece alguém que não comprou Re: Zero por não gostar de ler, mesmo sendo fã do animê, a hora de adquirir é agora, pois tenha certeza que é uma leitura que vale muito a pena e é capaz de agradar a todos.


Ficha Técnica


TítuloRe: Zero – Começando uma vida em outro mundo – livro 1

Autor: Tappei Nagatsuki

Editora: NewPOP

Acabamento: Miolo em papel Avena + páginas coloridas em couchê. Capa com orelhas.

Número de volumes: 14 (ainda em publicação no Japão)

Preço: R$ 26,90

Onde comprar: Amazon / NewPOP Shop

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8 comentários

  1. Sabe me dizer se a leitura de Re:Zero é digamos “enjoativa” ou repetitiva, como a de No Game no Life? Eu assisti o anime do NGNL e como a segunda temporada não saia, comprei as novels, li o volume 1 bem entretido, mas no segundo volume as repetições de coisas que eu não poderia estar me importando menos me fizeram enjoar no meio da leitura e nunca mais toquei, frases como “Sora é um virgem de 20 anos”, “Shiro ta com a calcinha na cabeça” em quase todas as páginas me fizeram parar de ler.

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    1. Não li “No game No life” para saber o “nível” de repetições que tem na obra. Mas em “Re: Zero” há apenas as repetições necessárias por causa do tipo de obra. Como o protagonista morre e volta no tempo algumas coisas são repetidas de tempos em tempos.

      Comparando com o livro de “Another” que foi o que mais vi de repetições, eu diria que em “Re: Zero” não tem quase nada.

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      1. Ah bom saber, em questão de repetições de tempo é algo que eu não tenho nada contra mesmo, eu vi o anime então sei bem como funciona, vou ver se compro então.

        No Game No Life fica reforçando demais coisas que os leitores já estão cansados de saber, não sei se faz parte do humor mas meh.

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          1. Eu li a matéria a muito tempo atrás na verdade :v, é que pô meu, Log Horizon quase não tem repetição, leitura super boa e quando tem repetição é só pra lembrar de algo que aconteceu á muitas páginas atrás, enquanto isso NGNL faz questão de te lembrar de coisas de duas páginas atrás.

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  2. Me apaixonei pelo universo de rezero, mesmo com as mancadas de nosso protagonista a obra me prendeu bastante e me fez comprar minha primeira Light novel, coisa que eu não faria , uma pena que não vão adaptar o arco da rem no spin off

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