Kaitou, os ladrões fantasmas

Explorando um tema recorrente nas obras japonesas

Sabe aqueles personagens nos animes e mangás que roubam dos ricos ou de outros ladrões e devolvem aos pobres? Ou então aquele ladrão de honra que avisa com antecedência de seus crimes e ajuda a desmascarar verdadeiros criminosos? Ou ainda aquele ladrão que apenas rouba pelo desafio e devolve os itens posteriormente? Geralmente com um vestuário bem europeu e aristocrata?

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Qualquer um que assiste animes ou lê mangás já se deparou com um personagem assim aqui e ali. É a Psyren na primeira versão do anime de Fullmetal Alchemist, o grupo de ladrões de corações no game Persona 5, o Kaitou Kid em Detective Conan, o Kaitou Tenjou em Yu-Gi-Oh! Zexal, a Carina em One Piece, as irmãs Kisugi em Cat’s Eye, o Fantasma Renegado em Medabots, o protagonista de Kaitou Joker, Loser de Dimension W, e por aí vai, a lista é interminável.

Esse tema repetitivo é mais que uma mera coincidência, é um arquétipo de personagem típico na cultura japonesa e que já foi muito famoso no passado.

A origem do Kaitou

A origem do kaitou, ou “ladrão fantasma” (ainda “Phantom Thief”), começa fora do Japão e é filho direto da lenda de Robin Hood e posteriores romances europeus. Foi lá que foi desenvolvido esse personagem chamado “Ladrão Cavaleiro” ou “Ladrão de Casaca”, um cavaleiro de maneiras impecáveis, elegante, inteligente, que arrasa corações das donzelas, mas que durante a noite age como um ladrão, roubando de ricos ou corrigindo injustiças. Um dos exemplos inconfundíveis da época foi o Ladrão de Casaca de Hitchcock de 1955 e romance Arsène Lupin de Maurice Leblanc de 1905.

Através principalmente desses filmes e romances clássicos o arquétipo viajou para todos os países, servindo de influência em diversas obras e séries, como a Mulher-Gato na DC ou a Carmen Sandiego da série de videogames. No Japão, entretanto, a febre pelo gênero foi bem maior, desenvolvendo seu próprio subgênero que hoje conhecemos como Kaitou.

Um dos primeiros no Japão e de popularidade incontestável foi Lupin III, de Monkey Punch, lançado em 1967, série essa que ainda nos dias atuais é relançada e readaptada constantemente, sendo um clássico inegável japonês.

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As características do Kaitou

No Japão a ideia do Ladrão de Casaca sofreu algumas mudanças com o passar do tempo. No kaitou os personagens são um tipo de ladrão diferente do criminoso comum, geralmente avisando com antecedência os crimes que cometerá, ou cometendo os roubos impossíveis através de estratégias intrincadas e complexas, ou ainda um tipo de “justiceiro” ou “altruísta” que comete crimes para corrigir injustiças. Esse tipo de roubo também é comumente chamado de “roubo teatral”, sendo que o ato de roubar e a audiência são mais importantes que o item roubado em si.

Tuxedo_MaskSão marcados geralmente por um forte senso de justiça e propósito, além de seguirem regras do ofício e terem um forte código de honra. Outra característica típica é o vestuário estilo europeu aristocrata, com presença forte de cartolas, bengalas, ternos, capas e máscaras venezianas, bem no estilo do Tuxedo Mask de Sailor Moon, um personagem com clara influência desse estilo europeu galante.

Assim como o infame Super-Homem, as máscaras milagrosamente impedem que descubram sua identidade, não importa o quão simples sejam. Em algumas histórias esse disfarce funciona mais como uma magia ou transformação, novamente a la Tuxedo Mask.

Por fim, existe uma predominância em serem ladrões que não se utilizam de armas de fogo e que jamais matam ou ferem as pessoas envolvidas durante o crime, sendo isso parte do código de honra já mencionado.

Obras focadas no Kaitou no Brasil

Embora extremamente comuns como arquétipo de personagem, especialmente presente em fillers de animes, houve um número limitado de obras centradas nesse tema, tendo ficado restrito a alguns sucessos no auge de sua fama. Desses, uma pequena parte surpreendentemente veio parar no Brasil, inclusive alguns nem tão bem sucedidos assim, mas que vieram graças à força das vendas do autor no Brasil:

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D.N.Angel: Lançado no Japão em 1997, ainda em publicação. Veio ao Brasil pelas mãos da JBC em 2011. Na história Daisuke é parte de um clã de ladrões conhecidos como Dark, assim tendo que completar missões todas as noites, além de ter um DNA incomum que lhe dá a aparência de 17 anos quando está perto de seu grande amor.

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O Homem de Várias Faces (20 Mensou ni Onegai!!): De 1989, foi uma tentativa do CLAMP de explorar o gênero, mas que não foi para frente. No Brasil foi publicado pela NewPOP em 2 volumes. Na história Akira parece um garoto como qualquer outro (garoto mesmo, tem só 9 anos), mas, na verdade, é o misterioso homem de várias faces, um misterioso ladrão de casaca que rouba tudo que suas mães lhe pedem.

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MØUSE (Mouse): Série de 14 volumes lançada em 2000 no Japão. Trata-se de um hentai/seinen com o tema de kaitou. Nele o ladrão Mouse está sempre em busca de um desafio, junto com seu harém de mulheres que farão de tudo para satisfazer todos os seus desejos, e arma os roubos mais impossíveis e grandiosos. Foi publicado no Brasil pela JBC.

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PxP (P by P): O mais novo deles, de 2007, veio ao Brasil graças ao sucesso da autora de Marmalade Boy, Wataru Yoshizumi pela Panini. A história curta de volume único é centrado no ladrão misterioso P que rouba principalmente itens de pouco valor monetário, mas grande valor emocional.

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2 comentários

  1. Uau, bacana saber que uma história européia tenha tanta influência lá no país do sol nascente.
    D.N.Angel era muito divertido e com várias complicações para o protagonista. Uma pena que tenha dado tanto problema na vida real :/

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  2. Lupin III então chamou ainda mais minha atenção, bem legal o artigo. Eu devia ter feito a conexão mais cedo já que o Arsène Lupin é avô do Lupin III.

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